Brasília 18%

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Sinopse

Olavo Bilac (Carlos Alberto Riccelli) é um legista brasileiro que mora nos EUA e volta para o seu país para examinar um corpo que pode ser o de uma economista desaparecida. O seu parecer pode mudar a vida de diversas pessoas que estavam relacionadas à moça.


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Crtica Cineweb

18/04/2006

O novo filme do cineasta Nelson Pereira dos Santos começa como um thriller. Não é mero detalhe que seu protagonista, ao invés de ser um detetive, seja um médico legista – o dr. Olavo Bilac (Carlos Alberto Riccelli). Pois o que ele vem fazer é mesmo uma autópsia, não apenas uma investigação.

Em primeiro lugar, o dr. Bilac, um especialista brasileiro radicado nos EUA, deve definir se um corpo não-identificado pertence ou não a uma assessora parlamentar desaparecida, Eugênia Câmara (Karine Carvalho). O legista logo fica entre dois fantasmas – o de sua mulher, Laura (Bruna Lombardi), que morreu num acidente, e o da jovem assessora, que ele passa a suspeitar de que está viva e escondida, com medo dos poderosos políticos cujos segredos ela conhece.

Oscilando assim, entre um clima surrealista e detalhes sordidamente realistas, o filme desdobra uma trama que tem total semelhança com fatos lidos diariamente nos jornais – com a vantagem de elaborá-los com a liberdade necessária para que o espectador possa refletir a respeito. Uma ironia está, por exemplo, em batizar com nomes de escritores do passado aos políticos e assessores do presente – um sinal de como a decadência pode se instalar por trás de um nome, ou um conceito.

A decisão de Bilac, porém, poderá ser tudo, menos independente, por mais que ele queira. Há vários interesses em jogo. Como o destino do cineasta Augusto dos Anjos (Miguel Melamed), namorado de Eugênia e supostamente o último a vê-la com vida, por isso acusado de seu assassinato. O rapaz, por sua vez, acusa os políticos para os quais Eugênia trabalhava, cujos segredos sujos ela descobriu. Eugênia era uma funcionária ética, por isso teve de desaparecer.

Bilac tenta manter-se neutro no meio do turbilhão – uma tentação que assalta todo e qualquer cidadão neste País -, mas isto se torna cada vez mais difícil. O perigo vem de dentro da própria família. Seu próprio cunhado, Martins Fontes (Othon Bastos), pressiona-o para que assine logo o laudo confirmando a identidade de Eugênia. O legista é bajulado, levado a festas e mesmo conquistado pela bela deputada Georgesand Romero (Malu Mader). Nesse ponto, o filme preocupa-se em revelar o modo de funcionamento dos lobbies da capital, em que assessores e deputados circulam num mundo restrito, de restaurantes e festas, acertando aí os lances de contratos e aprovação de leis do interesse dos vários grupos. Observa-se o lado mais obscuro destes círculos de poder, dispostos a desmoralizar ou mesmo desaparecer com aqueles que não atendam aos interesses dos poderosos de plantão. Não há neutros nem inocentes neste jogo.

O tom do filme é muitas vezes irônico, mas nem por isso menos grave. Brasília 18% é uma das reflexões mais sérias que o cinema brasileiro recente tem tentado fazer sobre fatos ainda em andamento, numa tentativa de oferecer uma contribuição à discussão num terreno ainda volátil. Uma tentativa necessária de pensar um estado de decadência moral, de falência das instituições, um momento de crise. Felizmente, o cineasta evitou a armadilha de tornar o filme datado demais, ligando-o a acontecimentos contemporâneos. O que mais incomoda é, justamente, o quanto a situação retratada tem se mostrado crônica no Brasil.

Um inesperado e muito bem-vindo bálsamo vem na trilha musical, com a Sinfonia de Brasília, de Tom Jobim, abrindo e fechando o filme. Também de Jobins e Nelsons é feito o Brasil, felizmente.

Neusa Barbosa


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