O Segredo do Grão

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Sinopse

Slimane tem 60 anos e acaba de ver reduzida sua jornada de trabalho e seu salário. Junto com a enteada, Rym, inventa o sonho de abrir um restaurante. Para isso, precisa da ajuda da ex-mulher e dos filhos, o que lhe cria problemas com a segunda esposa.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

10/07/2008

Vencedor de quatro prêmios César (melhor filme francês, diretor, roteiro e atriz estreante), além do Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza de 2007, este drama do tunisiano Abdellatif Kechiche é um bem-acabado retrato da identidade complexa tanto dos franceses de origem árabe quanto da família dos tempos modernos. A riqueza do filme é, aliás, está nessas inúmeras possibilidades de leitura, em que a tensão entre os papéis, aceitos e contestados, de homens e mulheres, não é a menor das questões.

Slimane (Habib Boufares) carrega em si outra das contradições modernas, do veterano no trabalho ameaçado pelo desemprego justamente pelo acúmulo de experiência. Na casa dos 60 anos, 35 deles como trabalhador no reparo de barcos no porto de Sète, entre Marselha e a fronteira espanhola, ele acaba de ter reduzida compulsoriamente sua jornada de trabalho. O que significa não só redução dos rendimentos como a iminência da demissão.

Slimane bem que gostaria de aposentar-se, mas não há a menor possibilidade. Depende dos ganhos de seu trabalho para levar a vida, ao lado da segunda mulher, Latifa (Katika Karaoui) e sua enteada, Rym (Hafsia Herzi, premiada com o César). Junto com Rym, ele desenvolve então um novo projeto de vida – pedir a aposentadoria e, com a indenização, abrir um restaurante cujo prato principal será o famoso cuscuz marroquino.

A realização deste sonho, a princípio prosaico, requer uma complicada gama de negociações. Para começar, requer uma conciliação entre o presente e o passado de Slimane. Afinal, para abrir o restaurante, ele quer contar com o apoio de ninguém menos do que sua ex-mulher, Souad (Bouraouïa Marzouk), que conta entre seus dotes culinários com o segredo de um famoso cuscuz. A situação magoa Latifa, que preferia que Slimane usasse a indenização para reformar seu hotel e assumir oficialmente a relação há anos mantida entre os dois.

O sonho do restaurante, então, abre uma delicada disputa entre todos os familiares de Slimane. Seus cinco filhos com Souad dividem-se no apoio ao projeto do pai. Um deles, Hamid (Abdelhamid Aktouche), que acha que ele deve simplesmente voltar para a terra de seus ancestrais, no norte da África.

O pai, por sua vez, amargura-se com esta disputa entre seus afetos, até porque também depende do apoio dos filhos para uma outra parte do projeto – a reforma de um velho barco, que servirá como sede do restaurante.

Ocupa um lugar especial na trama a enteada Rym, que vê no restaurante uma possibilidade de sua própria afirmação. Em primeiro lugar, como filha de Slimane – o que ela não é na realidade, mas gostaria de ser. Afinal, ele é a única figura paterna efetiva de sua vida. Apoiá-lo quando seus próprios filhos carnais o criticam é, para ela, oportunidade única de consolidar esta ligação. Fora isso, o restaurante é uma oportunidade para sua própria emancipação, sua entrada na vida adulta.

O grande acontecimento, uma prévia da inauguração do restaurante, para o qual são convidados os burocratas franceses que devem dar o aval ao seu funcionamento, transforma-se no grande confronto entre todos os lados envolvidos. Há diversos grupos distintos confluindo aqui, todos convivendo no mesmo espaço, como um microcosmo da própria sociedade francesa atual, multiétnica e conflituosa. O filme não é menos um espaço do confronto da família, a antiga e a atual, a oficial e a real.

Todas as tensões aqui representadas garantem a grandeza humana da história, dentro da qual brilha o protagonismo de Rym. A mocinha tem um solo maravilhoso na parte final, quando executa um número de dança do ventre para permitir que seu pai adotivo ganhe tempo para resolver uma séria crise. Longa e sensual, a seqüência, intercalada por uma busca frenética de Slimane pelas ruas da cidade, estica ao máximo as emoções delicadas deste filme, permitindo ao espectador aderir a estes personagens tão de carne e osso, tão sinceros e complexos.

Há, no filme de Kechiche – que assina também o roteiro – uma sutileza que é sensível, mas não sentimental. Pode-se ter compaixão dos personagens em situações de fragilidade, mas nunca se chega à piedade. Pela lente ampla do filme, enxerga-se pessoas que lutam, ainda que não possam desviar-se da derrota. A energia com que lutam é tão sincera que não há como não imaginar que sempre se levantem e tenham novos amanhãs.

Neusa Barbosa


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