Olho de Boi

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País


Sinopse

Dois vaqueiros, Modesto (Genézio de Barros) e seu afilhado Cirineu (Gustavo Machado), fazem tocaia para pegar um homem que pode ser o amante da mulher de Modesto (Angelina Muniz).


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Crítica Cineweb

24/07/2008

Há uma grande força logo nas primeiras imagens deste drama. Dirigido por Hermano Penna a partir de um roteiro de Marcos Cesana, busca suas origens em duas das obras mais importantes do teatro universal, a tragédia grega Édipo Rei, de Sófocles, e Esperando Godot, de Samuel Beckett.

O filme começa com bois sendo preparados para enfrentar o abate. São conduzidos na jornada final, vendo-se uma dignidade muito grande neles, como quem está preparado para enfrentar o seu fim, sem recuar ou amedrontar-se. Isso serve como uma metáfora e preparação para o que vem a seguir: quatro pessoas que terão de encarar os seus destinos, não importa o quanto sejam dolorosos.

A trama se passa num interior do Brasil, um lugar não identificado, que ganha contornos universais ao servir de cenário para a tragédia. Modesto (Genézio de Barros) e seu filho adotivo Cirineu (Gustavo Machado), que o chama de padrinho, se preparam para fazer uma tocaia. Mas são obrigados a fugir da chuva, procurando abrigo numa igreja abandonada.

O padrinho, sempre cético, zomba da religiosidade do rapaz, que parece, na verdade, meio perturbado. “A fé não salva ninguém da morte”, diz o mais velho, cujo desejo de vingança corre em seu sangue. Ele acredita que foi traído pelo irmão (Cacá Amaral), que teria seduzido a mulher de Modesto, Evangelina (Angelina Muniz).

Trata-se de um jogo de equívocos, uns ao acaso, outros premeditados. Pode ser que o verdadeiro amante de Evangelina não seja o cunhado e sim outro homem – o que, num determinado momento, leva a história noutra direção.

Depois da chuva, Modesto e Cirineu montam tocaia num canto na curva da estrada, onde a vítima passará. Enquanto esperam, divagam sobre a origem de sua missão, mas também sobre a existência. É nesse momento que verdades emergem, sempre dolorosas, ferindo como um punhal.

Premiado em Gramado 2007 por esse roteiro, Marcos Cesana é de origem teatral e não esconde isso no filme – o que é um ponto positivo no resultado final. Poucos personagens, poucos cenários e atos bem marcados permitem uma bem-vinda economia dramatúrgica em Olho de Boi. O filme apóia-se nos dois atores centrais e na fotografia esmerada, que traduz a força e a beleza da natureza, do austríaco radicado no Brasil Uli Burtin (Meu Nome Não é Johnny).

Gustavo Machado também foi premiado como melhor ator em Gramado – mas o prêmio merecia ter sidos dividido com Genézio de Barros, pois a presença dos dois no filme é tão marcante e o peso dos personagens tão equivalente que fica difícil definir quem é protagonista.

Se Sófocles e Beckett se alternam ao longo da narrativa, a presença perene é Guimarães Rosa, com seu sertão tão particular quanto universal. A paisagem é grandiosa, e o ser humano, minúsculo diante dela. Nesse sentido, a fotografia de Burtin é certeira ao trabalhar a iluminação nos interiores (na bela cena da igreja abandonada) e os exteriores ensolarados. A trilha sonora, assinada pela dupla Duofel, confere não apenas atmosfera ao filme, como parece buscar os sons do sertão para traduzir as emoções interiores dos personagens.

Um dos filmes mais conhecidos do diretor Hermano Penna é Sargento Getúlio (1983), baseado no romance homônimo de João Ubaldo Ribeiro, que tem um paralelo mais temático do que estético com Olho de Boi. Os dois falam de um mundo habitado por homens aparentemente fortes, mas que em sua essência são figuras frágeis.

“Eu pensei que a vida podia acabar mal apenas para os bois no matador”, diz Modesto, quando os destinos dos personagens começam a se definir. As tintas da tragédia grega então surgem com mais força na tela.

Alysson Oliveira


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