Jean Charles

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País


Sinopse

Drama ficcional conta a história do brasileiro Jean Charles de Menezes (Selton Mello), eletricista mineiro de 27 anos, radicado em Londres. Parte da comunidade brasileira que sobrevive de trabalhos em construção, ele recebe em casa mais uma prima, Vivian (Vanessa Giacomo). Mas o clima de terror na capital inglesa, depois de atentados terroristas, em julho de 2005, custará a vida de Jean.


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Crítica Cineweb

25/06/2009

Jean Charles, o filme, procura revelar a identidade do brasileiro morto pela polícia inglesa em 2005 – um dos mais espantosos erros policiais da história daquele país. Confundido com um terrorista, ao cabo de uma desastrada operação, o jovem eletricista mineiro de 27 anos, radicado em Londres há três, foi executado com oito tiros – sete na cabeça na cabeça – na estação de Stockwell, no metrô londrino. Há um indiscutível substrato político, portanto, por trás do filme, que sublinha o clima de histeria vivido em Londres naqueles dias, após dois atentados no metrô, com vários mortos e feridos. Mas o foco está, inegavelmente, na pessoa que Jean Charles de Menezes pode ter sido.

Não há fidelidade documental absoluta, nem o filme procura isto. Apenas deixa de pé as linhas básicas da pessoa real – brasileiro, imigrante, origem humilde, eletricista, batalhador – e parte para recriar com verossimilhança a vida que ele deve ter tido. O roteiro, assinado pelo diretor do filme, Henrique Goldman, e o jornalista Marcelo Starobinas, cria incidentes ficcionais. Nem tudo o que se vê na tela é, portanto, a vida de Jean Charles como ela foi, mas tudo que se vê busca coerência com ela.

Selton Mello confere uma verdade inegável a esse brasileiro, símbolo de tantos outros, personagens de uma diáspora recente pelo mundo, em Londres em particular. Estima-se que cerca de 200.000 brasileiros vivam na Inglaterra, a maioria deles na capital inglesa, muitos ilegais, sobrevivendo de todo tipo de trabalho, em busca de um sucesso financeiro e profissional negado pela pátria amada. Por isso, não é raro, para quem anda num ônibus londrino qualquer, ouvir o som do português.

O melhor do filme está nesse retrato de uma comunidade brasileira exilada, mas superligada na própria língua, culinária, na TV (que eles assistem via cabo), nos artistas (a participação de Sidney Magal num show para a colônia nacional é impagável). Há autenticidade e sabor nesse retrato de pessoas simples, gente como a gente. E sem pieguice.

O desafio do filme é que seu heroi está condenado à morte e todos sabem disso antes de a primeira imagem rodar na tela. A saída encontrada por Goldman está em deslocar parte do protagonismo para outra personagem, a prima de Jean Charles, Vivian (Vanessa Giacomo). Ela divide com ele a tela, as lutas, as decepções, os sonhos. E cabe a ela levar ou não adiante um dos projetos de Jean Charles.

Outro destaque no elenco é o Luís Miranda, que interpreta com profunda humanidade outro primo de Jean Charles, Alex – uma pessoa real e entrevistado para a composição do personagem. A verdadeira prima do protagonista, Patrícia Armani, aparece em cena em seu próprio papel. No elenco, há uma pequena participação de Daniel de Oliveira (A Festa da Menina Morta).

Com produção executiva do cineasta Stephen Frears (A Rainha) e de Rebecca O’Brien (produtora de nove filmes do cineasta inglês Ken Loach, como Ventos da Liberdade), o filme recoloca em discussão o caso de Jean Charles, cuja morte ainda é objeto de ações judiciais por parte de sua família.

Não é pouca coisa lembrar Jean Charles, cuja morte bárbara e injustificável foi fruto de uma série de imperdoáveis erros de várias unidades policiais inglesas, como esclarece nos mínimos detalhes o livro Em Nome de Sua Majestade, de Ivan Sant’Anna. Pior ainda é que várias instâncias judiciais inglesas já negaram guarida aos reclamos da família do jovem brasileiro. Espera-se que o filme possa trazer novamente essa questão à tona. E, se possível, permitir que sua história não caia no esquecimento.

Neusa Barbosa


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