A Erva do Rato

Ficha técnica


Avaliação do leitor

PéssimoRuimRegularBomÓtimo 1 votos

Vote aqui


País


Sinopse

Homem de posses conhece jovem desamparada num cemitério. Coloca a moça sob sua proteção, numa ampla casa, de onde eles nunca saem. Lá, dedicam-se a pesquisas, fotografias, fetiches e fixações.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

25/06/2009

Chega como um jorro de beleza, inteligência e audácia o novo filme de Júlio Bressane, A Erva do Rato, que registra o segundo encontro do diretor com a atriz Alessandra Negrini (que atuou no premiado Cleópatra) e seu primeiro trabalho com o ator Selton Mello. O filme teve sua première mundial em Veneza 2008, na mostra Horizontes.

O personagem de Selton, aliás, parece um descendente diretor do colecionador bizarro que o ator interpretou em O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia. Trata-se apenas uma vaga semelhança de tom. Porque o filme de Bressane, embora encharcado de humor negro, como o trabalho de Dhalia, parte de dois contos de Machado de Assis, Causa Secreta e Um Esqueleto mas tem alvos bem distintos.

Como se poderia esperar, não se trata de uma adaptação lato sensu e sim de uma criativa recriação das histórias do escritor brasileiro, morto há 100 anos e que empresta seu nome, com justa razão, à Academia Brasileira de Letras.

Bressane retirou apenas traços que considera duradouros das duas histórias e que são o horror ao rato - tido como símbolo do tempo, da morte e também do apetite sexual - e do convívio do homem com o esqueleto, inclusive o seu próprio.

O filme busca traduzir o estilo literário de Machado em suas imagens, imaginando com toda a liberdade algumas sugestões a partir de seus textos. E o que surge aqui é uma relação ambígua entre uma mulher de passado nebuloso (Alessandra Negrini) e um homem jovem, rico e movido por fixações (Selton Mello).

Logo no primeiro encontro dos dois, num cemitério, vislumbra-se a situação que é marcada pelo desejo mas não evolui para sua realização e sim para uma estranha sublimação. O homem é obcecado por romper os limites de sua hóspede, um tanto contida. O que a princípio ele faz levando-a a posar para ele em intermináveis sessões fotográficas, produzindo dezenas de fotos com as quais ele se relaciona mais fisicamente do que com a moça – apesar de dormirem na mesma cama, nunca são vistos tocando-se nem fazendo sexo.

A ousadia das fotos progride quando ele insiste que ela imite poses eróticas de outras fotos de sua coleção. Ela o atende para satisfazer seu protetor, mas nunca se sabe onde está seu real desejo – esta moça tem o hábito da dissimulação. O aparecimento de um rato expõe a sensualidade dela, tornando-se o animal um desafio para o rapaz, que espalha ratoeiras pelos quartos com a mesma avidez maníaca com que produziu as fotos e mexe metodicamente sua indefectível xícara de chá vespertino. Não vai parar nisso. Onde há rato, há veneno.

Esta é a segunda vez que Bressane inspira-se no escritor. A primeira vez foi em 1985, com o filme Brás Cubas, uma releitura igualmente muito livre do universo do genial autor também conhecido como “bruxo do Cosme Velho”.

Remete-se ao estilo de Machado mesmo na exibição dos créditos finais do filme, intercalados de imagens do making of da obra. Estas imagens procuram ecoar os posfácios em que o escritor carioca frequentemente se dirigia pessoalmente aos seus leitores em seus livros.

Como também é frequente nos filmes de Bressane, a pintura é uma inspiração para a fotografia – aqui, belíssima e assinada por Walter Carvalho. As inspirações pictóricas do diretor vieram especialmente de Le Dejeuner sur l´Herbe, de Edouard Manet, além de Caravaggio. Uma escolha que se baseia no uso que esses pintores fazem da luz, essencial no universo do cineasta Bressane.

Neusa Barbosa


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança