Soul Kitchen

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País


Sinopse

Jovem de origem grega é dono de um restaurante em Hamburgo. Quando sua namorada vai trabalhar na China, e seu irmão presidiário consegue uma condicional, a vida dele muda radicalmente – não necessariamente para melhor.


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Crítica Cineweb

05/03/2010

No cinema do turco-alemão Fatih Akin, cuja filmografia inclui obras como Contra a Parede e Do outro lado, personagens de identidades socioculturais mais variadas tentam encontrar o seu lugar num mundo globalizado, no qual a fronteira entre as nações e as culturas nem sempre é clara. Na comédia Soul Kitchen, que recebeu o prêmio especial do júri no Festival de Veneza do ano passado, o cineasta mais uma vez coloca em cena pessoas cuja herança cultural pode ser tanto o que os aprisiona quanto os liberta.
 
O grande diferencial de Soul Kitchen em relação às últimas obras do diretor é o tom de comédia – ácida, negra e pastelão – que acompanha toda a narrativa. Ao centro está um greco-alemão chamado Zinos (Adam Bousdoukos, Contra a parede), dono do agonizante restaurante em Hamburgo que dá título ao filme. Ao redor dele, uma família informal, composta por seu irmão, Illias (Moritz Bleibtreu, O Grupo Baader Meinhof), funcionários e agregados do estabelecimento.
 
Os problemas pessoais de Zinos e os profissionais começam a se confundir, deixando de existir uma linha que separe uns dos outros e transformando a vida do chef num verdadeiro caos. Sua namorada, Nadine (Pheline Roggan), está se transferindo para a China. O irmão, que está preso, consegue o benefício da prisão-albergue, mas isso exige que Zinos lhe dê um emprego de fachada no restaurante.
 
O restaurante Soul Kitchen também parece ter conhecido dias melhores. A última chance de Zinos está em sua nova contratação, um chef pouco ortodoxo e com uma quedinha para atirar facas na parede, chamado Shayn (Birol Ünel, de Transilvânia). As novidades que ele traz para o cardápio logo transformam o lugar num grande sucesso, agradando especialmente junto ao público jovem, que começa a lotar o local.
 
Ainda assim, a vida de Zinos está de cabeça para baixo – especialmente porque sente falta da namorada. Uma agente do imposto de renda (Catrin Striebeck), outro da fiscalização sanitária (Jan Fedder), e um agente imobiliário (Wotan Wilke Moehring) estão de olho no lugar, o que faz o proprietário deixar o restaurante nas mãos do irmão e viajar para a China para se encontrar com Nadine.
 
Akin e Bousdoukos, que assinam o roteiro, não seguem caminhos óbvios. Soul Kitchen toma rumos inesperados, com reviravoltas e surpresas e uma dezena de personagens excêntricos - nenhum deles mal construído ou inverossímil. Dos personagens femininos quem sobressai são a garçonete Lucia (Anna Bederke), que se envolve com Illias, mesmo contra o seu juízo, e a fisioterapeuta Anna (a húngara Dorka Gryllus, de Irina Palm), que tenta ajudar Zinos com o seu mau jeito na coluna – detalhe, aliás, que causa algumas das cenas mais inusitadas do filme.
 
Em Soul Kitchen, Akin faz o seu Boogie Nights – Prazer sem limites. Os personagens são unidos pelos laços profissionais – aqui, o restaurante – que se transformam em laços familiares à medida em que estão cada vez mais próximos, mais cúmplices. Mas essa não é a única referência ao filme de Paul Thomas Anderson. Até as primeiras imagens são bem parecidas, nas quais os letreiros da fachada do estabelecimento se transformam no título do filme. O uso da música, apesar de quase incessante, é muito discreto, pois nunca chama a atenção para si, e também é outro ponto em comum, incluindo muito soul, obviamente, de diversas nacionalidades.
 
Ao final, Soul Kitchen é uma carta de amor de Akin e Bousdoukos à sua cidade natal, Hamburgo. É pouco provável que um grupo de personagens tão díspares fosse se encontrar – mas, no restaurante, os mesmos sonhos e anseios são o que os une. As culturas diferentes não são causa de choques, mas de complemento. Assim, cada um deles procura o seu lugar num mundo globalizado, sem perder sua identidade cultural própria. Como o cinema de Akin.  

Alysson Oliveira


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