O sol do meio-dia

O sol do meio-dia

Ficha técnica


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País


Sinopse

Matuim é barqueiro e precisa sumir no mundo. O mesmo precisa fazer Artur, que acaba de sair da prisão. Eles sobem o rio, rumo a Belém, encontrando aventuras e uma mulher, Ciara, por quem ambos se apaixonam.


Extras

Extras: entrevistas; trailer original; galeria de fotos; cenas selecionadas.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

28/09/2010

A cineasta paulistana Eliane Caffè é uma especialista em mapear sertões e almas. Sempre em parceria com o dramaturgo Luiz Alberto de Abreu, ela construiu, em três filmes até agora, uma obra de identidade sólida, explorando nos rincões profundos do Brasil as amostras de um todo que não só sintetiza o país, como evidencia seus vínculos com o universal.
 
Em Kenoma (98), o cenário é o sertão mineiro, em que um homem (José Dumont) obceca-se por concretizar o mito do moto-perpétuo. Em Narradores de Javé (2003), um remoto povoado baiano luta para registrar por escrito sua história, no momento em que é ameaçado pelas águas de uma represa. Neste terceiro longa, O Sol do Meio-Dia, a Amazônia profunda é o ambiente em que respiram seus densos personagens: o barqueiro Matuim (Chico Diaz), seu ajudante e faz-tudo Artur (Luiz Carlos Vasconcelos) e Ciara (Cláudia Assunção), a mulher que os divide.
 
Embora seja de amizade e amor que se trate, os sentimentos vão sendo incorporados pelo personagens de uma maneira tão pouco idealizada, tão fugitiva dos clichês habituais da dramaturgia, que é possível acompanhar os acontecimentos sempre com surpresa, como se a história estivesse acontecendo ali mesmo, durante a projeção. Esta naturalidade, de fato, é fruto de muito trabalho, de uma depuração de roteiro que conta com a colaboração decisiva dos atores, suas improvisações e sugestões, ao longo da produção.
 
Contando com atores tão qualificados quanto Diaz e Vasconcelos – ambos premiados no Festival do Rio 2009 -, flui como água limpa a narrativa desta amizade. Que surge do acaso de seu encontro e de duas urgências: a necessidade de Matuim de sumir do mapa por conta da perseguição de alguns homens à procura de uma carga misteriosa, e de Artur, recém-saído da prisão, com uma dor enorme e oculta no peito.
 
Os dois homens se aventuram no curso de um rio, rumo a Belém, compartilhando o extremo contraste da loquacidade brejeira de Matuim e do silêncio culpado de Artur. Ao seu redor, desenha-se um modo de vida, uma geografia de vidas instáveis, arrancando sua sobrevivência de expedientes ou contrabando, errando por cidades perdidas. Numa delas, encontram Ciara, a mulher que procura a filha que caiu na prostituição. Como Artur, a mãe se sente culpada, oprimida pela própria inação diante do pai possessivo (Ary Fontoura, em curta aparição). Uma situação que serve sob medida para escancarar os dilemas da condição feminina nestas paragens. Vinda do teatro e da dança de Minas Gerais, Cláudia é, aliás, uma das grandes forças do filme, com sua beleza calma e energia sempre sintonizada na dos outros dois grandes atores.
 
Quando Ciara finalmente se arrisca fora da casa paterna, é por uma intuitiva paixão por Artur – a quem deve um ato de bondade. Ela não tem a menor ideia do passado desse homem, que o público, até agora, também pouco conheceu. Uma inteligência da diretora está em revelar aos poucos as pistas desse grande peso opressor da alma de Artur – que, afinal, solta-se com uma poesia doída e sincera, que constrói um ponto alto do filme, dispensando a muleta da trilha sonora para forçar emoções. Os únicos sons na tela são os ruídos da floresta, da cidade, dos animais ou das pessoas. Música, só mesmo incidental, numa cena de festa. O que constitui uma das muitas apostas corajosas da diretora, apoiada no trabalho preciso do desenhista de som Beto Ferraz.
 
Não há grandes acontecimentos, façanhas, nestas vidas. São três personagens perfeitamente comuns e corriqueiros, figuras miúdas, perdedores, muitas vezes, mas dotados de uma capacidade quase infinita de recuperação. Há momentos em que perdem tudo mas isso nunca é o fim, sem nenhuma mágica nem grandiloquência – seus pequenos milagres são simplesmente humanos. É desta humanidade que o filme se nutre, tornando-se um dos melhores lançados no cinema este ano. Que o público tenha olhar atento para descobri-lo.

Neusa Barbosa


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