Instinto materno

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Sinopse

Arquiteta rica e famosa, Cornela Keneres é acostumada a ter tudo o que quer. Menos o filho, que saiu de sua casa e vive com uma divorciada. O filho, Barbu, envolve-se num processo, depois de ter atropelado e matado uma criança. Cornelia usará sua influência para salvar o filho e recuperar controle sobre ele.


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Crítica Cineweb

18/03/2014

Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim 2013, Instinto Materno, de Calin Peter Netzer, é um denso e fascinante mergulho na sociedade contemporânea romena, conduzido pelo desempenho absolutamente magnético da protagonista, Luminita Gheorghiu.
 
Roteirizada pelo próprio diretor e pelo experiente roteirista Razvan Radulescu (A morte do sr. Lazarescu), a trama se desdobra a partir de um incidente policial. Um homem, Barbu (Bogdan Dumitrache), atropelou e matou uma criança. Sua mãe, Cornelia Keneres (Luminita Gheorghiu), uma arquiteta bem-sucedida, tudo fará para livrá-lo da cadeia.
 
O curioso é que não é Bogdan, que vive longe da mãe nova-rica, quem deseja esta libertação da, aliás, kafkiana estrutura policial e judicial da Romênia. É Cornelia, com seu amor extremado, quem procura retomar, através da tragédia, o controle sobre a vida de Barbu, que vive com uma moça divorciada, Carmen (Ilinca Gioia), de quem a mãe possessiva evidentemente não gosta.
 
O tom sombrio e impregnado de crítica social evitam que a história derrape para um dramalhão familiar. Isto decorre da sobriedade da direção e do cuidado do roteiro de delinear as diferenças de classe entre a família do atropelador e da vítima – esta, constituída de camponeses pobres. A tentação de uma revanche social surge ali mesmo na delegacia, encarnada por um tio da criança morta, sedento de vingança.
 
Nada disto escapa a Cornelia, que impõe sua presença já nos corredores da delegacia, acompanhada da amiga advogada, encarnando a versão romena do “sabe com quem você está falando”. Se isto inibe, até certo ponto, algum abuso de autoridade dos próprios policiais contra a mulher rica e seu filho, não é menos verdade que isso não basta para liberá-lo do processo – e esse sim pode arruinar sua vida.
 
As maquinações de Cornelia se multiplicam e ela certamente não é uma personagem cativante. O roteiro habilidoso e a intérprete sublime, no entanto, dão conta de humanizá-la no devido tempo. Como personagem central, ela tem mais oportunidade de desdobrar suas contradições, ao mesmo tempo que se mantém Bogdan, o filho, mais na sombra. Não se sabe realmente o que ele pensa ou sente, diante desta mãe sufocante. O êxito do filme está em dar conta de todas estas nuances, familiares, sociais, políticas, com rara complexidade, não se esquecendo de incluir a família da vítima numa cena absolutamente tocante.
 
É um humanismo duro este romeno, também absolutamente imprescindível no cinema moderno – ainda mais que as situações retratadas neste filme tem inúmeros pontos de contato com vários outros países, o Brasil entre eles.

Neusa Barbosa


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