Winter sleep

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Sinopse

Aydin é um velho ator aposentado, consagrado depois de uma carreira de sucesso. Agora, dedica-se ao hotel herdado do pai, encravado nas montanhas da Capadócia. Nesse ambiente isolado, ele se debate em crises familiares, com a mulher e a irmã. E também tem um conflito com um inquilino em atraso, cujo filho atirou uma pedra contra seu carro.


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Crítica Cineweb

24/05/2014

Grande vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 2014, o drama turco Winter Sleep tem um perfume do teatro sutil do russo Anton Tchecov, ao apoiar-se nos dilemas interiores, que se desenvolvem revelando contundentes conflitos pessoais, familiares e sociais através do manejo afiado da arquitetura da palavra.

 
Não por acaso, o protagonista, o ator aposentado Aydin (Haluk Bilginer), dono de um hotel encravado no esplêndido cenário das montanhas geladas da Capadócia, está neste momento pensando em escrever uma grande história do teatro turco – que ele nunca começa, numa indecisão típica dos personagens tchecovianos.
 
O que se passa em suas conversas com a mulher Nihal (Melisa Sözen) – décadas mais jovem e de quem ele se distanciou –, a irmã divorciada, Necla (Demet Akbag), o imã Hamdi (Serhat Kiliç), o inquilino em atraso Ismail (Nejat Isler) e outros percorre esse grande teatro da vida, evocando situações de luta de classes, conflitos familiares, religiosos, dominação, machismo, acomodação, rebeldia, sentimento de fracasso. Não falta também um aceno ao huis clos das relações entre homens e mulheres que Ingmar Bergman visitou tão profundamente, mas aqui sob o acento mais ríspido do diretor turco Nuri Bilge Ceylan.
 
Diretor maduro e consagrado por filmes como Era uma vez em Anatólia, Distante, Três Macacos e Climas, Ceylan atinge um ponto de maturidade com este filme longo e muito envolvente. Como naqueles trabalhos anteriores, um dos pontos fortes está no comando da narrativa, que evolui em camadas circulares, agregando núcleos que se complementam. O protagonista Aydin é o patriarca de um mundo fechado em si mesmo, nesse hotel isolado em montanhas de difícil acesso, aonde turistas estrangeiros encontram a dose exata de aventura, tranquilidade e exotismo. É possível aventurar-se em caminhadas, ou cavalgar nessa região de beleza dura, pétrea, que parece encerrar em sua própria configuração ao mesmo tempo a força da natureza e seu lento, mas inexorável processo de transformação.
 
A própria história profissional de Aydin, pontuada por sucessos no palco, a esta altura de sua vida parece uma espécie de peso, por contraste a um certo imobilismo atual. Aydin sabe onde esteve, mas para onde vai agora? Ele está no alto de sua montanha, mas talvez dali ele só possa descer.
 
Por trás de uma índole aparentemente sólida, controlada, vivem também demônios interiores, que Aydin libera a conta-gotas, mas em golpes certeiros, especialmente pela palavra, que ele domina muito bem. Suas farpas são disparadas em artigos que ele escreve para uma pequena publicação local, o que sua irmã vê com desdém – por que ele perde tempo com isso?, indaga ela. As conversas diárias com a irmã são igualmente verdadeiros duelos, que esquadrinham a história pessoal de ambos e onde se apontam os ressentimentos mútuos e o veneno ambíguo das relações familiares e das diferenças de papeis masculinos e femininos.
 
A cobrança ao peso da proteção não raro um tanto opressiva de Aydin sobre as mulheres da casa sobressai mais aguda e feroz em sua abalada relação com a jovem mulher. Ressentida de seus controles, Nihal está se rebelando, ainda que um tanto caoticamente, ao abraçar como causa pessoal a recuperação de escolas da região, o que a aproxima de um professor da sua idade – e causa ciúmes não assumidos no marido.
 
Toda esta tensão é tecida com fúria, mas também sutileza, construindo um emaranhado de relações em que também se imiscui o conflito de Aydin com seus inquilinos em atraso, Ismail e seu irmão, o imã Hamdi – este um homem servil, que usa o escudo da religião para delimitar um comportamento também manipulador, que revela a surda guerra de classes entre sua família pobre, em que o irmão está desempregado, e o clã de antigos proprietários.
 
Um incidente peculiarmente revelador desta guerra acontece quando o pequeno filho de Ismail atinge com uma pedra o carro em que viaja Aydin, traduzindo a revolta que toma conta do pai. Um episódio que implica desdobramentos que permitem ao diretor explorar os limites das intervenções benemerentes na resolução dos dilemas profundos que abalam a sociedade turca. O cavalo selvagem capturado por Aydin simboliza de maneira exemplar como se dá, dentro dele, a síntese entre as muitas forças contrárias e mesmo contraditórias que sacodem seu espírito. O filme viaja nestes múltiplos detalhes e abre-se ao desvelamento de um universo rico e inesgotável, capaz de comportar várias visitas e não menos leituras.

Neusa Barbosa


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