Riocorrente

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País


Sinopse

Três personagens engolidos por uma metrópole à beira do colapso. Um jornalista descrente com a imprensa, um ex-ladrão de carros que está a ponto de explodir em violência, e uma mulher dividida entre os dois.


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Crítica Cineweb

29/05/2014

Riocorrente, primeiro longa de ficção do documentarista, montador e produtor Paulo Sacramento, pulsa com a urgência daquelas obras em sintonia com seu tempo. Sua primeira exibição foi no Festival de Brasília de 2013, depois na Mostra de São Paulo – de onde saiu com o prêmio da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), somente agora ganhando o circuito de cinemas.
 
O longa de Sacramento – que em seu currículo registra o excelente documentário O prisioneiro da grade de ferro – tem um quê de profético, mostrando-se capaz de figurar um curso da história da luta de classes no Brasil que desaguou, em parte, nas manifestações de rua um ano atrás, contando também com um pouco de sorte. Mas o que realmente conta aqui é a urgência com que Riocorrente faz um retrato de uma sociedade que mais parece uma panela de pressão, prestes a explodir – e, quando isso acontecer, vão voar destroços para todos os lados.
 
Ao mesmo tempo que é um filme extremamente paulistano, em sua essência revela-se universal ao falar de opressões múltiplas. A cidade de São Paulo é uma personagem, e a imagem do pôster do longa – que mostra o rio Tietê em chamas – já se tornou icônica, materializando exatamente o tom contundente do filme.
 
Essas chamas que consomem São Paulo no pôster simbolizam aquelas que devoram os personagens centrais. Marcelo (Roberto Audio) é um jornalista em conflito com o próprio trabalho. Carlos (Lee Taylor), um ex-ladrão de carros, é uma verdadeira bomba ambulante. Renata (Simone Iliescu) é a mulher dividida entre os dois que busca no sexo algo que preencha a cratera existencial que a destrói. A cidade, sempre presente, sempre opressora, parece rir do desespero de cada um. O quarto personagem é um garoto de rua apelidado de Exu (Vinicius dos Anjos), cuja relação com Carlos transita entre a paternal e a fraternal.
 
Há um diálogo benéfico entre Riocorrente e O som ao redor, de Kléber Mendonça Filho, desde a forma como os dois diretores ocupam e filmam os espaços, até a capacidade de compreensão de cada um da tensão entre os diferentes extratos da sociedade. Porém, se o longa de Mendonça é mais sutil, o outro se pauta pela urgência, pela iminência da explosão. Cada um a seu modo, ambos antecipam parte do que aconteceu no País em meados de 2013.
 
O pós-apocalipse que, aos poucos se concretiza em Riocorrente é o retrato de nosso tempo, pela descrença no poder institucionalizado e na imprensa. No entanto, Riocorrente sugere uma conscientização e a mudança de rumos, ainda que duvidando que uma ruptura pudesse ser feita de forma serena. Existiria retrato mais perspicaz da atualidade ?

Alysson Oliveira


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