O mercado de notícias

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Sinopse

Em 1625, o dramaturgo inglês Ben Jonson escreveu a peça "O Mercado de Notícias", em que discutia e já antecipava diversos dilemas do jornalismo, então em seus primórdios. Através da peça e entrevistas com 13 jornalistas brasileiros, o diretor Jorge Furtado investiga os critérios, falhas e a importância da imprensa na realidade atual do Brasil.


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Crítica Cineweb

05/08/2014

Sempre muito original, o cineasta Jorge Furtado foi buscar numa peça teatral da Inglaterra elisabetana do século 17 um paralelo para estabelecer uma perspectiva histórica para a aguçada discussão sobre critérios, falhas e importância da imprensa no Brasil em seu novo documentário O Mercado de Notícias.
 
Concorrente na seção principal do Festival É Tudo Verdade e multipremiado no Cine PE, em Recife, o filme de Furtado empresta o título da própria peça – O Mercado de Notícias, de Ben Jonson (1572-1637) -, que surge no mesmo momento histórico em que começam a circular os primeiros jornais. Já ali se estabelecem os desafios da própria atividade, a partir da constatação de que não há fatos brutos na natureza. Todo e qualquer acontecimento, então, é passível de seleção, análise, interpretação. Portanto, também de erros jornalísticos.
 
Dentro dessa discussão, o documentário debate a própria essência do jornalismo, ou seja, a obrigação de escolher o que publica ou não, o que cobre ou não, a necessidade de encontrar a novidade, de revelar histórias, equilibrando essa urgência com outra, não menos crucial: a da própria sobrevivência econômica e comercial. Um aspecto que leva alguns a apostarem no sensacionalismo e, em última análise, no antijornalismo, para garantir altas tiragens e grandes receitas publicitárias.
 
Entre outros riscos implícitos à atividade, os jornalistas sempre dependem das fontes e elas, como se sabe, não raro têm seus interesses – que precisam ser “filtrados”, como observa no filme Geneton Moraes Neto.  
Há uma indiscutível atualidade na discussão proposta por O Mercado de Notícias no Brasil atual, em que a imprensa tantas vezes pauta o debate político. Sempre foi assim? Depoimentos lembram que, até o golpe de 1964, havia uma identificação entre jornais e partidos – cada um tinha o seu. Depois, praticamente todos se unem na resistência ao regime autoritário, que finalmente atingiu os interesses gerais, pela censura. Depois da redemocratização, em 1985, tornam-se não raro, muito conservadores.
 
Diretor da revista Carta Capital, o veterano Mino Carta não se esquiva a definir: “A mídia brasileira é um partido político”. E o que é pior, não se aceita como agente político, escondendo-se por trás de uma suposta isenção, ao mesmo tempo em que elege escândalos e personagens a quem crucificar impiedosamente e outros de quem oculta ou relativiza os pecados.
 
Menciona-se ainda outras mazelas, como erros crassos e trágicos - sendo o caso da Escola Base o maior da memória recente, talvez. Outros são lembrados: o “quadro de Picasso”, denunciado numa repartição do INSS, que não passava de um pôster, desses que se compram em qualquer museu; e a famosa “bolinha de papel” da última campanha presidencial do candidato José Serra. Se tivesse sido feito mais recentemente, certamente o documentário poderia incluir a cobertura catastrofista que precedeu a Copa do Mundo.
 
Saindo de um modelo de documentário dependente exclusivamente de entrevistas, Furtado intercala as conversas com treze experientes jornalistas brasileiros com trechos de uma encenação da própria peça, a partir de uma tradução feita por ele mesmo e pela professora Liziane Kugland. O recurso permite uma certa leveza, porque permite a inserção de comentários cínicos pertinentes aos tópicos em debate.
 
Para quem, no final de contas, tiver a impressão de que Furtado é contra o jornalismo, ele mesmo contra-argumenta, alegando, no material de divulgação, que seu filme é “uma defesa do bom jornalismo, sem o qual não há democracia”. 

Neusa Barbosa


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Comentários:
  • 10/08/2014 - 22h20 - Por Ana Paula Deve haver uma boa razão para ele não ter sido ouvido, creio eu, mas a falta que o Alberto Dines faz no documentário é imensa.
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