Ventos de agosto

Ventos de agosto

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País


Sinopse

Shirley é uma jovem que veio morar com a avó, quase centenária. Passa seus dias entre os cuidados com ela e o trabalho recolhendo cocos, além de um romance com Jeison. Num ambiente fechado numa realidade às vezes surreal - como o fato de que o mar costuma arrastar as sepulturas do cemitério -, os dois têm sonhos de futuro muito diferentes.


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Crítica Cineweb

10/11/2014

Premiado no último Festival de Locarno,o novo filme de Gabriel Mascaro consolidou a investida mais decidida até aqui do cineasta pernambucano, diretor dos documentários Domésticas e Um Lugar ao Sol, no caminho da ficção. Mas, ao mesmo tempo, as fronteiras de gênero permaneceram deliberadamente fluidas neste filme que, se incorpora referências (assumidamente, do documentarista holandês Joris Ivens, por exemplo), não se curva a um estetismo excessivo.
 
Como em todo seu trabalho de cineasta até este momento, Mascaro se empenha em criar um filme orgânico, e consegue, no sentido de aliar um aceno ao naturalismo na fotografia (responsável por sua comparação a Barravento, de Glauber Rocha, por um crítico italiano em Locarno) e também no uso de atores amadores das próprias locações (na praiana Porto da Pedra, em Alagoas) a uma tentativa de fabular, com o decisivo envolvimento dos moradores/atores.
 
Não que não houvesse alguns pontos de partida sinalizando esta viagem, particularmente as histórias relacionadas ao cemitério local que, por conta das fortes correntes marítimas causadas pelos ventos, fazem com que os esqueletos dos mortos sejam levados, muitas vezes, pelo mar, desencadeando um processo constante de ressepultamento.
 
Essa relação peculiar com a vida e a morte percorre todo o filme. Está no horizonte da jovem Shirley (Dandara de Morais), que veio de outra localidade para cuidar da avó, quase centenária – e que conta que vê seus pais todos os dias, em sonhos. Também ocupa, de certa maneira, o imaginário de Jeison (Geová Manoel dos Santos), que pensa muito na mãe que morreu. E que, mais tarde, mudará toda a sua rotina para tratar do destino de um morto, um forasteiro que chegou à ilha para estudar os ventos (interpretado pelo próprio Mascaro).
 
Só a organicidade explica como Mascaro conseguiu inserir, tão naturalmente, numa história à primeira vista tão minimalista, tantas questões como finalmente surgem na tela: o sexo, a vontade de fugir de um local isolado, com limitadas opções de vida, o trabalho braçal, as relações familiares, as histórias sobre os mortos, o isolamento em relação à figura de um Estado ou autoridade – que, quando acontece, se dá num registro muito próximo ao realismo mágico, com um saudável toque de humor, retratando a situação absurda de um prisioneiro deixado para trás numa cadeia.
 
O humor, aliás, infiltra-se neste filme denso, que se amplia em significados quanto mais se pensa nele.  

Neusa Barbosa


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