A lição

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Sinopse

Nadezhda é uma professora em dificuldades financeiras, que corre o risco de perder a própria casa, caso não arrume urgentemente dinheiro. Quando acontece um roubo na classe em que ela leciona, ela decide que irá investigar quem foi o responsável.


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Crítica Cineweb

10/06/2015

A partir de uma notícia local, totalmente inesperada, sobre a atitude de uma professora – da qual não é possível falar, sem dar spoilers –, os diretores búlgaros Kristina Grozeva e Petar Valchanov resolveram voltar no tempo e supor o que poderia ter acontecido a ela antes de tal fato, humanizando a figura desta docente e, simultaneamente, satirizando-a.
 
A história fictícia originada do acontecimento absurdamente real se transformou no primeiro longa-metragem da dupla, A Lição (2014), que, longe do que se espera, não traz nenhuma lição de moral ao público a não ser de que a moral pode ser muito relativa, dependendo da situação e de quem está envolvido nela: você ou o “outro”. E em tempos em que as redes sociais se tornam um verdadeiro tribunal de julgamento instantâneo e implacável da sociedade contemporânea, o filme serve como uma espécie de freio. Tanto que sair de sua exibição já preenchendo o quadro negro no final – a qual não vemos, só escutamos o som do giz – com uma opinião formada sobre a obra ou o seu tema, sem a mínima chance de processamento e discussão, é não compreendê-la.
 
A película começa justamente dentro da sala de aula, quando o sumiço do dinheiro de uma aluna faz Nadezhda (Margita Gosheva) iniciar, com a rigidez e correção que lhe são habituais durante as classes, uma caça ao ladrão dentro da turma, que ela continuará no decorrer dos dias seguintes. O curioso, no entanto, é que logo depois de ver a professora de inglês obrigando os estudantes a fazerem uma vaquinha para a colega comprar o lanche, o espectador vê o saldo quase zerado da conta bancária de Nade, que além de lecionar faz “bicos” como tradutora, pelos quais não recebe. Mas isso não é uma grande surpresa, pois a situação dos professores de lá não é muito diferente dos daqui.
 
Não só isso, quanto a crise, a burocracia e todas as outras dificuldades colocadas no caminho da população da Bulgária – tal qual o trailer quebrado na frente da casa da protagonista – são facilmente identificáveis pela plateia brasileira ao ver a trama, que é praticamente universal. Casada com um homem (Ivan Barnev) que, apesar de ser um bom pai para a sua filha, é um marido do tipo “encosto”, Nade se vê sozinha na tentativa de evitar que sua casa seja leiloada dentro de três dias pelo atraso no pagamento da hipoteca. Para isso, lança-se em uma jornada em que tem de lidar com seu próprio orgulho e os ressentimentos do passado ao procurar seu pai (Ivan Savov) e colocar seus princípios em jogo ao recorrer a um agiota (Stefan Denolyubov).
 
A espiral de desgraças que recaem sobre a personagem é de deixar qualquer mocinha de novela no chinelo. Mas, diferente do exagero no melodrama, a direção adota um estilo mais naturalista, que remete ao neorrealismo, ao cinema romeno contemporâneo – talvez o mais acessível e celebrado do Leste Europeu na atualidade – e aos irmãos Dardenne. Aliás, em relação ao último trabalho desses belgas, Dois Dias e Uma Noite (2014), a comparação é constante, seja pela protagonista feminina em dificuldades financeiras que corre contra o tempo para reverter sua situação ou pela abordagem técnica com a constante câmera na mão na fotografia de Krum Rodriguez.
 
Uma estética crua que se revela até na ausência de trilha sonora e que pode levar parte do público a considerar o filme misógino. Mas a autenticidade que Gosheva, uma das poucas atrizes profissionais em um elenco prioritariamente não-profissional, imprime em Nade é que faz o espectador pensar no quanto as agruras da personagem são o reflexo daquelas aflições que ele mesmo sente ou que assiste nas ruas. A opção no casting também contribui para o tom documental investido pela dupla de diretores e roteiristas, que já tiveram experiência com este tipo de registro.
 
Grozeva e Valchanov se conheceram e começaram a parceria na universidade em Sofia, capital da Bulgária, produzindo curtas e produtos televisivos desde então. Mas foi com o curta Jump (2012), em que já colocavam alguém de origem humilde em apuros, que os dois ganharam destaque no circuito de festivais. A Lição, que ganhou o prêmio Novos Diretores em San Sebastián, é o primeiro filme de uma trilogia baseada em notícias, na qual o próximo trabalho seguirá o destino de um vigia que encontra milhões em dinheiro na ferrovia e devolve a quantia. Se seguirem o mesmo caminho que começaram a trilhar neste longa, os cineastas têm tudo para colocar a Bulgária no mapa dos cinéfilos.

Nayara Reynaud


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