Casadentro

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País


Sinopse

Dona Pilar é uma velha senhora que vive no interior, longe da capital peruana, com suas empregadas. Sua filha vem visitá-la, trazendo a própria filha e a neta, para o aniversário de 81 anos da matriarca, que se torna uma ocasião para colocar em choque diferentes pontos de vista familiares.


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Crítica Cineweb

22/06/2015

Na mitologia inca, várias deusas têm a palavra mama, que significa “mamãe”, em seu nome, a exemplo de Pachamama, a Mãe Terra, e de Mama Ocllo, a deusa da fertilidade da lenda do lago Titicaca, na fronteira da Bolívia com o Peru. Com uma tradição tão forte de reverência à maternidade, dá para entender o porquê do tema ser o cerne da produção peruana Casadentro (2013), ainda que, à primeira vista, o filme pareça apenas uma imersão na rotina do envelhecimento.
 
O longa de estreia de Joanna Lombardi Pollarolo – filha do premiado cineasta Francisco J. Lombardi –, exibido na edição de 2013 da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, após ser premiado pelo júri e pela crítica no Festival de Montreal, acompanha discretamente o cotidiano na casa de Pilar (Elide Brero). A senhora prestes a completar 81 anos vive em uma grande casa, em uma província a algumas horas da capital, Lima. Como companhia, ela só tem as empregadas Consuelo (Delfina Paredes) e Milagros (Stephanie Orúe), além da sua inseparável cachorrinha Tuna (Sullana é o nome real do animal), centro das atenções de todas.
 
O dia-a-dia daquele lar é alterado – levemente nas aparências, mas imensamente em um olhar mais aprofundado – quando sua filha, Patricia (Grapa Paola), vem visita-la por ocasião de seu aniversário, trazendo consigo sua própria cria, Carla (Anneliese Fiedler), seu genro (Giovanni Ciccia) e sua pequena neta. Assim afloram, nas três gerações de mães dessa família, uma sucessão de pesares da maternidade ou das relações familiares, como a culpa, a dor do esquecimento e o ciúme.
 
Trata-se, portanto, de uma obra extremamente feminina, não só pela direção e temática, mas pelo recorte dos personagens. Pedro, único homem presente na película, praticamente só lê, dorme e reclama que está cansado da viagem, para aumentar a irritação da esposa, que está incomodada com o choro de seu bebê, a quem segue em ritmo descompassado. No entanto, não se esperem grandes feitos: toda a ação da história ocorre dentro da casa – ou da propriedade, indo ao máximo à garagem e ao quintal. Lombardi acompanha contemplativamente o decorrer daquelas corriqueiras tarefas domésticas e conversas que despretensiosamente se desenrolam em cafés da manhã e revelam muito do microcosmo daquela família.
 
Por isso, o registro quase documental, em que a câmera de Inti Briones se mantém fixa, em planos médios – os close-ups e planos de detalhes são extremamente pontuais –, para observar os acontecimentos decorridos em quase dois dias naquele ambiente. A escolha deste único cenário e a imobilidade disto, somada à fotografia, revelam no substrato outra leitura do filme, sob a ótica das questões sociais no Peru e que devem ficar ainda mais claras para quem vive lá ou conhece o país, mas que também se encaixam em um panorama de toda a América Latina.
 
Uma senhora que literalmente guarda tudo como verdadeira relíquia, em uma grande casa onde o mobiliário remete ao de décadas atrás – começando pela televisão antiga, que mal funciona –, e que sempre quer se fazer importante dentro daquele universo doméstico, é como um retrato de uma aristocracia que luta para parecer ainda relevante dentro da sociedade contemporânea. E vale dizer que essas singelas insistências da protagonista em se manter ativa rendem os momentos de maior identificação com a plateia, já que Pilar remete muito a mães e avós que o público reconhece.
 
Por outro lado, Consuelo, uma espécie de governanta, e sua ajudante Milagros são apresentadas somente enquanto empregadas, mas nada se sabe sobre suas vidas fora daquele ambiente; no máximo, no caso da mais jovem, que ela deseja a todo custo avisar alguém – seu namorado, talvez, mas não é certo – que ela não terá folga e não poderá se encontrar com esta pessoa. É como se o que há de pessoal nelas não importasse para seus patrões, e igualmente para uma significativa parcela da população.
 
Joanna faz um ótimo trabalho com o elenco ao imprimir tanto naturalismo naqueles personagens, mas quando tece, no roteiro e na direção, uma contemplação sobre o envelhecimento, perde um pouco o prumo. O ritmo do filme era para ser propositadamente lento, como espelho da condição daquelas pessoas, e consequentemente causar incômodo. O problema é que, para a maioria dos espectadores, ele gera desconfortos mais físicos e psicológicos – seus quase 90 minutos de duração parecem bem mais longos durante a exibição – e menos reflexivos do que era esperado.

Nayara Reynaud


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