O sétimo selo

O sétimo selo

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Sinopse

Na Idade Média, o cavaleiro Antonius Block volta para casa, depois das Cruzadas. Tudo à sua volta é desolação. Ele desabafa seus sentimentos com uma figura vestida de negro, que encontra numa igreja. O estranho é ninguém menos do que a Morte. Então, o cavaleiro lhe propõe um jogo de xadrez em troca da própria vida.


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Crtica Cineweb

21/07/2015

E quando, enfim, abriu O Sétimo Selo (1957), fez-se silêncio no cinema por mais de uma hora e meia. Esta imersão que o clássico de Ingmar Bergman (1918-2007) provoca há quase 60 anos poderá ser revivida com a versão restaurada em DCP, com ótima qualidade de som e imagem, que chega ao circuito comercial brasileiro. É a chance dos amantes do cineasta sueco reverem o filme nas telonas e de um novo público redescobrir um diretor de que tanto ouviu falar, mas que, às vezes, não teve chance de assistir a um de seus trabalhos.
 
Fado inevitável de qualquer ser humano, a morte, que sempre assombrara Bergman, cuja filmografia reserva um importante espaço ao tema, foi personificada no longa. O protagonista Antonius Block (Max von Sydow), retorna à Suécia após passar 10 anos batalhando nas Cruzadas e, quando está refletindo sobre a sua vida em uma praia, se depara com a Morte (Bengt Ekerot). Para fugir ou ao menos adiar o seu destino final, ele a desafia em uma partida de xadrez que perdura por toda a sua jornada naquela terra medieval: se conseguir vencê-la, o cavaleiro sobreviverá; se não, seu oponente cumprirá a tarefa.
 
Êxtase do existencialismo e neoexpressionismo bergmaniano, com seus monólogos e primeiros planos característicos, a obra traz outras questões recorrentes no trabalho do cineasta, como a presença de Deus e das religiões na vida das pessoas. Filho do capelão do rei, tirou dos afrescos de Albertus Pictor (1440-1507) que decoram a igreja em que o pai era sacerdote, especialmente de A Morte Jogando Xadrez – além de se basear na peça de própria autoria, O Retábulo da Peste, escrita para suas aulas de teatro –, a inspiração para Sétimo Selo, chegando até a colocar o pintor como personagem em uma cena da produção de orçamento modestíssimo. Da infância sob a tutela do rígido pastor luterano, marcada por traumas físicos e psicológicos de proibições e castigos, surgiram as dúvidas que expõe na tela, no contraponto entre o cavaleiro crente, ainda que questionador, e o escudeiro cético (Gunnar Björnstrand) como duas faces de si mesmo.
 
Se a sua fé era confusa, Ingmar não hesitou em usar tudo que aprendeu sobre o cristianismo a favor de seu discurso filosófico. Do Apocalipse de São João retirou não só o título do filme e a citação inicial como também a simbologia dos Sete Selos para traçar um paralelo entre as trevas medievais retratadas na trama e o terror do pós-guerra que os europeus sentiam naquela década de 1950 – e o espectador pode fazer o mesmo nos tempos atuais. Segundo uma passagem do último livro da Bíblia, quando certo pergaminho selado sete vezes tiver cada um deles rompido, presságios diferentes do fim do mundo serão vistos sobre a Terra. Porém, o diretor não tenta criar aqui um alarmismo e sim metáforas dos armagedons sazonais e diários que a humanidade enfrenta.
 
Examinando melhor, é possível notar, por exemplo, como os Selos apocalípticos que remetem a um grande combate e ao martírio dos fiéis se relacionam diretamente na película com as Cruzadas, “batalhas santas” da Idade Média entre cristãos e muçulmanos, da mesma maneira que se encaixam no subtexto da Segunda Guerra Mundial, seja com a estigmatização dos judeus pelos nazistas ou com o temor de um conflito nuclear iminente na sequência – seriam os cogumelos das bombas atômicas os sinais do céu profetizados tal qual a tempestade do final da produção? Igualmente, a peste negra, a fome e a desigualdade citadas no Livro Sagrado se encontram nos tempos medievais retratados, é correlata à penúria do pós-guerra e se repetem, da mesma ou de diferentes formas, ainda hoje.
 
Reflete-se nesse breve panorama a quantidade de possibilidades de interpretação da obra, nenhuma delas errada, pois se trata de um filme de fruição e decifração inesgotável: é possível enxerga-lo por um viés mais, ou menos, religioso, histórico, sociológico ou simbólico, a exemplo da partida de xadrez – este, por sua vez, alegoricamente com suas seis peças mais a sétima, o próprio enxadrista – que traz a metáfora da tentativa humana de enganar e escapar da Morte, sendo que o xeque-mate da vida é a única certeza que se tem. Jean-Luc Godard, de quem Ingmar não gostava, disse certa vez que Bergman filmava para encontrar as respostas para as suas perguntas; mas engana-se quem acredita que o cineasta simplesmente entrega o que encontrou ao público, como certezas prontas.
 
A arte como salvação com a – Sagrada? – família de saltimbancos (Nils Poppe como Jofs e Bibi Andersson como Mia, além do bebê) em seu Juízo Final é o único caminho que ele oferece claramente em O Sétimo Selo. E quando deixa ao espectador a tarefa de se autoanalisar a partir de um filme que, embora pareça inacessível, ainda se mantém muito íntimo e atual por todos esses anos, Bergman nada mais faz do que sublimar a sétima arte em todo o seu alcance.

Nayara Reynaud


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