Meia hora e as manchetes que viram manchete

Meia hora e as manchetes que viram manchete

Ficha tcnica

  • Nome: Meia hora e as manchetes que viram manchete
  • Nome Original: Meia hora e as manchetes que viram manchete
  • Cor filmagem: Colorida
  • Origem: Brasil
  • Ano de produo: 2014
  • Gnero: Documentário
  • Classificao: Livre
  • Direo: Angelo Defanti
  • Elenco:

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Sinopse

No "Meia Hora", tabloide carioca de manchetes bem-humoradas e abordagens inusitadas, tiro vira ‘pipoco’ e facção criminosa é ‘bonde sinistrão’; bandido escondido ‘tá malocado’, vivo ‘toca o terror’, e morto ‘levou ferro’; a polícia, quando invade, ‘dá sacode’, quando atira, ‘senta o dedo’, quando prende, ‘mete em cana’; cadeia fica melhor como ‘tranca’, ‘jaula’ ou ‘xilindró’; ladrão de galinha é "vagabundo" e estuprador é "monstro"; o exterior é tratado de "no estrangeiro"; e mulher bonita ganha adjetivos hortifrutigranjeiros como morango, melancia, maçã, cereja e jaca.


Nota Cineweb

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Crtica Cineweb

04/08/2015

Lançado em 2004, pelo grupo proprietário do jornal O Dia, como um concorrente direto do popular Extra, o tabloide Meia Hora logo se tornaria um sucesso comercial instantâneo. Com o passar dos anos, cativaria cada vez mais a atenção pública pelo humor ácido e, às vezes, polêmico, empregado nos textos e, especialmente, em manchetes e capas que se tornaram famosas. Não só no Rio de Janeiro, diga-se de passagem, graças ao poder “viralizador” na internet. Uma dessas primeiras páginas, justamente a do dia seguinte da derrota da seleção brasileira de futebol para a Alemanha por 7 a 1, na última Copa do Mundo – um fato que, por si só, foi a piada pronta de 2014 –, levou o periódico a ganhar um prêmio Esso no ano passado.

Contextualizando este fenômeno editorial carioca, o documentário Meia Hora e as manchetes que viram manchete (2014), de Angelo Defanti, estreou na última edição do Festival do Rio com salas lotadas, sendo sucesso de público igual ao seu objeto, garantindo-lhe agora a distribuição em circuito comercial. Ao partir de um estudo de caso de um jornal específico para abordar certos aspectos da mídia contemporânea, o filme segue um caminho inverso da amplitude do panorama e discussão levantados por Jorge Furtado em O Mercado de Notícias (2014), mas, ao mesmo tempo, serve como complemento ao debate sobre o modus operandi do jornalismo brasileiro atual.
 
Em aproximadamente 80 minutos, são apresentadas uma série de entrevistas com quem está por trás do Meia Hora, intercalando ex-editores com colunistas ou a antiga dona do grupo e o publicitário da agência ligada ao lançamento do periódico. Eles falam sobre o humor característico do jornal e destacam as primeiras capas icônicas, como a do episódio de agressão doméstica envolvendo Luana Piovani e Dado Dolabella e a da não-convocação do jogador Adriano para a Copa, além daquelas sobre mortes de celebridades, que, junto com futebol, sexo e violência, são as predileções da editoria.
 
Antes, no entanto, traçam um histórico de seu “irmão mais velho”, O Dia, e de todo o mercado editorial carioca para apresentar suas origens, mas esquecem de ampliar o olhar, mesmo que brevemente, para mostrar que ele não é o primeiro nem o único jornal popular do Brasil. O paulistano Notícias Populares, que circulou entre 1963 e 2001, ganhou a alcunha “espreme que sai sangue” e criou manchetes e notícias lendárias, como a do Bebê Diabo. Porém, nem chega a ser citado no documentário – na verdade, seu logo apenas aparece de relance em um gráfico sobre vendas de exemplares na década de 1990. Ainda que a escolha seja no foco sobre seu objeto de estudo e seus concorrentes diretos e indiretos no Rio de Janeiro, outras ausências também são sentidas neste aspecto.
 
Os depoimentos em estúdio, com um fundo simples e cinza, destacam a possibilidade que a obra tinha de explorar os bastidores da redação ou de mostrar quem é realmente o leitor do jornal. A partir de um edital para um curta, Defanti viu no assunto que tinha em mãos a chance de fazer um longa, chegando a cogitar uma abordagem diferente ao acompanhar os estagiários da publicação. Contudo, preferiu que as capas fossem as grandes estrelas do filme, e vem delas e, em parte, dos entrevistados, o bom humor do documentário. Com exceção do ótimo uso do grafismo e de sacadas inteligentes da edição, não há muito esforço da direção em imprimir  comicidade ao tema, mesmo o diretor sendo experiente em usá-la como temática ou instrumento em seus trabalhos documentais ou ficcionais em curta – Othelo (2005) e A Melhor Idade (2011), por exemplo.
 
Por outro lado, Angelo tenta manter um certo equilíbrio em sua visão sobre o jornal, embora o tempo em tela de quem o faz seja maior do que o de quem o analisa; no caso, os dois professores especialistas Muniz Sodré e Sylvia Debossan Moretzsohn. Isso porque o grande cerne da discussão ética sobre a linha editorial do Meia Hora vem na conclusão, especialmente com a crítica na questão de palavras e imagens que reiteram o discurso favorável às ações violentas da polícia, militar ou civil, fluminense, frente à defesa dos jornalistas de que fazem também primeiras páginas de protesto em favor da população.
 
Deixando assim a cargo do espectador a opinião sobre o tabloide, o filme também injeta na plateia outros questionamentos sobre as demais publicações, ao mostrar como os mecanismos do Meia Hora são igualmente utilizados em outros jornais, ainda que com outra roupagem, dando a entender o quanto há de preconceito em achar que certo “tipo de jornalismo” é feito apenas para as camadas mais pobres da população. Por isso, quando levanta a dúvida se a imprensa e a mídia em geral têm de entregar o que o público quer ou o que ele precisa, Meia Hora e as manchetes que viram manchete se apresenta como um documentário que deve ser visto não apenas por profissionais, estudantes e pesquisadores da área, mas principalmente pelos leitores, ouvintes e telespectadores.

Nayara Reynaud


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