Obra

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Sinopse

Arquiteto que comanda a construção de um prédio no terreno herdado de seu avô é avisado pelo mestre de obras que ali se encontra um cemitério clandestino, o que o leva a defrontar-se com segredos da família.


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Crtica Cineweb

11/08/2015

Imagem comum nestes dias de inverno em São Paulo, o nevoeiro que abraça a “selva de pedra” paulistana introduz Obra (2014) para o público, carregada de significações. Mistura das intempéries climáticas com a poluição enraizada nos céus da metrópole, a névoa ao mesmo tempo que encobre o centro urbano, não consegue esconder a sujeira que faz parte dela. E justamente tal imundície, que a memória, mesmo soterrada, faz senti-la presente no cotidiano da cidade, é o mote do primeiro longa do curta-metragista Gregório Graziosi.
 
A São Paulo que serve não só de cenário, mas de personagem em seus curtas não deixaria de ser a estrela aqui, assim como a fotografia a serviço da arquitetura – Mira  (2009) como melhor expoente disso –, o som ressoando a metrópole – ou deixando de soar, como em Saltos (2008) – e a presença de uma pessoa de idade – como já visto nos documentários Saba (2007) e Phiro (2008) – também não estariam de fora.
 
Esses elementos se misturam e, de certa maneira, personificam no arquiteto João Carlos (Irandhir Santos), que, à frente de um grande projeto realizado no terreno de sua família, é avisado pelo mestre de obras (Júlio Andrade) sobre a existência de um cemitério clandestino no local. A perturbação em sua mente e seu corpo se transforma no ótimo trabalho de desenho de som de Fábio Baldo, ainda mais porque o protagonista ainda sofre com uma dor nas costas que se agrava cada vez mais, em decorrência de uma hérnia hereditária. Uma clara metáfora ao legado familiar de segredos ocultos no passado do avô magnata, ao pai engenheiro (último trabalho de ator e cantor Marku Ribas, falecido em 2013) e agora ao arquiteto, que tem a esperança desta sequência se romper no filho que sua mulher (a inglesa Lola Peploe, filha do roteirista Mark Peploe e sobrinha/afilhada de Bernardo Bertolucci) está esperando.
 
À primeira vista, é mais um filme sobre a especulação imobiliária, um tema caro ao cinema nacional contemporâneo, especialmente à cena cinematográfica pernambucana, que esta obra tanto ecoa, especialmente, O Som ao Redor (2012), de Kleber Mendonça Filho, que vem mais rápido à mente por conta da presença de Irandhir. Sem deixar de remeter, mesmo que involuntariamente, aos colegas paulistas de ontem e hoje: do progresso que derruba a ética e os desejos de vida em São Paulo S. A. (1965), de Luís Sérgio Person, ao cemitério e crescimento vertical de Sinfonia da Necrópole (2014), de Juliana Rojas.
 
No fundo, a temática recorrente é o ponto de partida para uma discussão ainda mais onipresente na cinematografia brasileira, que é a opressão entre classes sociais. Mas se, por exemplo, o recente Riocorrente (2013) de Paulo Sacramento, mostrava uma cidade em ebulição, a ponto de literalmente incendiá-la, Gregório opta pelo caminho inverso para representar sua megalópole opressora: o diretor usa o hermetismo para apresentar a frieza de São Paulo, mas acaba por oprimir seu próprio discurso.
 
A fotografia em P&B de André Brandão, de enquadramentos esquadrinhados arquitetonicamente, não foi premiada no último Festival do Rio à toa. No entanto, Graziosi não consegue ultrapassar sua simbologia semiótica. O roteiro escrito por ele, junto com Paolo Gregori e José Menezes, peca ao não desenvolver a trama dos cadáveres, não necessariamente do jeito que o público espera, com tudo destrinchado e sem pontas soltas – seria aquilo apenas um depósito de desafetos da família ou uma vala comum usada na ditadura, por exemplo? –, mas da maneira que o assunto merecia, já que o fator mórbido se torna asséptico visualmente ou mesmo na vida do protagonista.
 
Para quem usava apenas o som ambiente, mesmo que amplificado, nos seus curtas, trabalhar com o som humano mostrou-se um desafio não ultrapassado para o cineasta. Os escassos diálogos soam artificiais, não tanto por uma postura antinatural dos atores, mas porque são compostos apenas por falas estruturais, que remetem claramente a várias interpretações da temática. No espaço entre elas, há apenas o silêncio cotidiano, acentuado pela incomunicabilidade comum aos homens daquela família, esquecendo-se das frases soltas e rotineiras que poderiam injetar um sopro de vida em personagens que nem beiram o realismo, nem o expressionismo.
 
O rigor demonstrado por Graziosi funciona em alguns de seus curtas, como os enquadramentos fixos somados a uma urgência sonora que revelavam cada detalhe das figuras esculpidas em concreto e, consequentemente, da história paulista em Monumento (2012). Contudo, na duração de um longa, ele se mostra repetitivo. É como se seu “filme-edifício” cuidasse apenas dos detalhes da construção e do que está escondido no subterrâneo de suas fundações, sem olhar realmente a vida dos que lá habitam ou o constroem. Assim, o discurso de Obra ecoa como nas paredes de um prédio inabitado, abandonado, e se perde ao chegar aos ouvidos e mente do espectador, apesar de seus olhos estarem maravilhados.

Nayara Reynaud


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