Nosferatu - O Vampiro da Noite

Nosferatu - O Vampiro da Noite

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Sinopse

A narrativa acompanha o vampiro Conde Drácula, que atrai a visita do agente imobiliário Jonathan Harker ao seu tétrico e afastado castelo, tornando-se sua vítima potencial, assim como sua noiva, Mina.


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Crtica Cineweb

22/09/2015

Na melhor piada do antecessor de uma das estreias desta semana, Hotel Transilvânia 2 (2015), a versão animada do Conde Drácula fica inconformado ao ver uma espécie de Crepúsculo – lembre-se que a produção foi lançada em 2012, mesmo ano em que a saga juvenil se encerrava – com a maneira que os humanos retratam os vampiros. Neste caso, tanto o emissor quanto o objeto desse discurso são resultados da massificação dessa figura mitológica que dilui não sua importância, mas sua significação a partir do tempo.
 
Esse é só um dos motivos a qual fica o alerta para quem for assistir ao Nosferatu – O Vampiro da Noite (1979) de Werner Herzog, que volta aos cinemas brasileiros, especialmente nas capitais, em cópias digitais restauradas: livre-se dos seus olhos viciados da contemporaneidade e permita-se mergulhar neste clássico.
 
O conselho é firme, pois a sensação é que, diante de uma exposição pornográfica da violência, sejam nos atuais filmes de terror, ação e afins ou mesmo nos noticiários sensacionalistas, o público fica imune ao “erotismo” e passa a ignorar as sutilezas que antes lhe causavam tanto espanto. O próprio cineasta alemão afirmou, certa vez, que tinha a “impressão de que as imagens que nos rodeiam hoje estão desgastadas; eles são abusivas, inúteis e esgotadas”. Por isso, a necessidade do espectador, diante de uma obra ímpar como essa, entender que não há o susto gratuito, mas a construção de uma tensão que é muito mais amedrontadora do que imagina.
 
O longa de Herzog é tecnicamente um remake do inigualável Nosferatu (1922) de F. W. Murnau, com a diferença de que o filme mudo não tinha direitos autorais para usar os nomes dos personagens de Drácula(1897) de Bram Stoker, apesar de se inspirar no famoso romance, enquanto a produção setentista pode usufruir mais do livro, já em domínio público na época. Contudo, mais do que isso, trata-se da homenagem de um contemporâneo do Novo Cinema Alemão, apesar de não se considerar um membro do movimento, a sua cara lembrança do Expressionismo Alemão, seja na filmografia do próprio Murnau ou de outros expoentes, como Robert Wiene e seu memorável O Gabinete do Dr. Caligari (1920) e o primeiro período de Fritz Lang.
 
Na história localizada em Wismar, na Alemanha imperial do século XIX, Jonathan Harker (Bruno Ganz, protagonista de Asas do Desejo, longa de 1987 de Win Wenders, e A Queda! As Últimas Horas de Hitler, filme de 2004 mais conhecido pelo público jovem) tem a oportunidade de negociar um imóvel na cidade para um recluso nobre que vive na região da Transilvânia, na época pertencia ao Império Austro-Húngaro e hoje está na Romênia. Mesmo com a preocupação da esposa Lucy (Isabelle Adjani, premiada atriz francesa, indicada ao Oscar por A História de Adèle H., de 1975, e Camille Claudel, 1988) e alertado dos perigos pelos ciganos que encontrou pela estrada, o corretor seguiu firme em seu caminho até encontrar o misterioso Conde Drácula (Klaus Kinski, ator fetiche de Herzog, com que tinha uma relação tão conturbada que realizou o documentário Meu Melhor Inimigo, em 1999, para retratar isso), o que causará consequências terríveis não só para ele.
 
Embora haja certa fidelidade às passagens do clássico de 1922, as diferenças vão além da simples introdução de diálogos na trama, antes somente orquestrada. Primeiro diz ao seu espírito de época, pois o Expressionismo era resultante do período entre guerras e seu trauma da derrota na Grande Guerra, enquanto o longa de 1979 carrega o peso que o povo alemão tem sobre os ombros após o país sair perdedor da Segunda Guerra, com a mancha moral das atrocidades do nazismo e ainda permanecer dividido por um muro até então. Daí, a peste negra associada com o vampirismo ganhar tanto destaque na versão de Herzog, como metáfora do passado da nação, assim como a força destrutiva da natureza na presença aterrorizante dos ratos se relacionar a um instinto humano incontrolável.
 
Isso porque, se Murnau já colocava os desejos sexuais reprimidos como subtexto em seu terror pioneiro, Werner torna este conteúdo como seu guia ao se centrar na figura feminina da narrativa. Embora o amor de Jonathan e Lucy seja propagado por ambos, a paixão deles não é concretizado no decorrer da película. Assim, o corretor encontra na sua viagem a fuga da rotina que tanto procurava, já que estava cansado daqueles canais, enquanto a mente da esposa passa a habitar cada vez mais seu universo fantástico.
 
No seu pesadelo na abertura, a mulher vem como mais uma das personagens sonhadoras que o cineasta tanto dedica sua filmografia. Mas se seus protagonistas costumam ter um certo idealismo como norte, aqui, Lucy vem satisfazer a seus desejos mais ocultos, ainda que se coloque em sacrifício para o marido e à comunidade devastada. É o que fica claro no clímax, em que tanto ela, quanto o solitário Drácula, atingem seus objetivos, mesmo de maneira torta. Aliás, a dor da falta de amor de Nosferatu se amplia na atuação verdadeiramente assustadora de Kinski – se ele deixou o diretor de cabelo branco por seu gênio, como brinca o realizador alemão, é capaz de lhe arrepiar todos os pelos, se o espectador assim permitir.
 
No mais, vale dizer que a versão em DCP apresenta ótima qualidade de imagem e o som estourado na introdução e a supressão de trechos da legenda ocorridos durante a sessão da imprensa, podem ter sido corrigidas a tempo do relançamento.

Nayara Reynaud


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