Os árabes também dançam

Ficha técnica


Avaliação do leitor

PéssimoRuimRegularBomÓtimo 1 votos

Vote aqui


País


Sinopse

Eyad, um menino de uma aldeia árabe em Tira, Israel, tem a oportunidade de estudar em um internato de prestígio em Jerusalém, e se esforça para se encaixar na cultura judaico-israelense do final de 1980. Ele desenvolve uma estreita amizade com Jonathan, que sofre de distrofia muscular, e é abraçado como um membro da família por Edna, mãe de Jonathan. O tempo passa e com os mísseis de Saddam Hussein pairando sobre o horizonte, Eyad conhece o amor e a decepção.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

06/10/2015

Os Árabes Também Dançam (2014) abre com seu protagonista, ainda garoto, caindo ao tentar consertar a antena da casa e deixando sua família preocupada de que algo mais grave pudesse ter acontecido. O menino Eyad (Razi Gabareen) não faleceu ali e o público pode acompanhar, através de sua jornada quando adolescente, um conto social sobre a questão da identidade do povo palestino e as dificuldades de integração e convivência dos árabes-israelenses em seu país. Porém, ao final de seu novo longa, Eran Riklis fecha o círculo, fazendo com que, de certa maneira, no papel e em seus sonhos, o jovem Eyad (Tawfeek Barhom) morra.
 
No prólogo sobre a sua infância na vila palestina de Tira, durante os anos 1980, o espectador observa a relação de identificação e admiração que o garoto estabelece com seu pai Salah, interpretado por Ali Suliman, o advogado de Lemon Tree (2008), excelente trabalho pelo qual o cineasta israelense recebeu o prêmio do júri popular no Festival de Berlim. Mas se naquele filme sobre uma palestina que luta contra o Estado para manter a sua plantação de limoeiros, Riklis abordava a difícil relação entre árabes e judeus em Israel pelo prisma territorial, com cada um ocupando seu espaço delimitado, aqui o diretor aprofunda a questão pelo ponto de vista de uma fronteira mais difícil de ser observada: a do preconceito.
 
O pai, que chegou a fazer faculdade, mas acabou trabalhando na colheita de frutas local por causa de seu ativismo político, deseja um futuro melhor para o seu filho, que demonstra sua inteligência desde pequeno. Assim, passados alguns anos, Eyad consegue entrar na Academia Israelense de Ciências e Artes, a melhor escola do país, para o orgulho de Salah. No entanto, a oportunidade não se mostra o melhor dos mundos para o adolescente, que enfrenta o bullying diário, que já começa no momento em que ele fala hebraico, por causa do forte sotaque árabe, e ainda assistir às aulas com conteúdos sob o ponto de vista judeu – aliás, a análise sobre os clássicos da literatura israelense gera uma da cenas mais impactantes da obra.
 
Seu consequente isolamento só é quebrado quando inicia uma amizade com a bela colega Naomi (Daniel Kitsis), que logo se mostra mais do que isso. Os dois precisam esconder o que sentem, pois a consternação em torno de uma relação inter-religiosa e interétnica é impraticável no país, ainda mais com o crescente aumento das tensões durante a década de 1990. Mas a delicadeza do relacionamento deles envolve o público e é um dos pontos mais fortes do longa, embora o clássico do Joy Division, Love Will Tear Us Apart, na trilha não seja um bom prenúncio.
 
A outra ferramenta de possível integração para o rapaz é Yonatan (Michael Moshonov), um jovem acometido por uma doença degenerativa, cujo avanço já o deixou na cadeira de rodas. Frequentando a casa dele para dar aulas de reforço como voluntário, o árabe acaba se tornando um grande amigo do judeu, especialmente quando seu estado de saúde se complica. Em certo grau, o preconceito une os dois, que possuem uma pequena semelhança à vista, porém, muito grande em seus documentos, o que reserva um desenrolar novelesco para o terceiro ato.
 
O roteiro de Sayed Kashua foi inspirado em seu livro semibiográfico – o jornalista e escritor árabe-israelense estudou naquela Academia nos anos 90, assim como o ator Tawfeek Barhom também tem uma história de vida parecida com o personagem, inclusive na questão amorosa –, porém, com mudanças no conteúdo, como o abrandamento do passado do pai de Eyad. Entretanto, seu texto é muito autocentrado e, com exceção dos jovens protagonistas, as figuras adultas carecem de desenvolvimento. Um exemplo é Edna, que é apenas mãe de Yonatan, e não tem passado, trabalho, nem amigos; mesmo assim, Yaël Abecassis domina a parte final do filme.
 
Os planos fixos de Riklis demonstram a imobilidade da sociedade israelense no que diz respeito à convivência entre os povos judeu e árabe e o desfecho poderia cair no fatalismo, se não ficasse a mensagem de que, pelo menos no fim, todos terão o mesmo destino nesta terra. Neste sentido, o cineasta que morou no Brasil de 1968 a 1971, em razão do emprego de seu pai no consulado no Rio de Janeiro, dá um passo à frente de Lemon Tree, que ainda permanece como sua melhor obra. No agridoce Os Árabes..., sua aposta é na tentativa de coexistência, mostrando as dificuldades para isso, sem se render ao sentimentalismo, enquanto cria uma fábula para uma questão mais universal: as múltiplas identidades que as pessoas assumem durante a vida para se sentirem aceitos.

Nayara Reynaud


Trailer


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança