Se Deus Vier que Venha Armado

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País


Sinopse

Damião é um presidiário que sai da prisão no Dia das Mães e pretende visitar o irmão, um mecânico evangélico, que está prestes a se casar, mas também tem uma missão a cumprir para o crime organizado. Jefferson é um PM escalado para uma patrulha, que é atacada. Em retaliação, um inocente é morto pela polícia e mais vingança está a caminho.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

14/10/2015

“Policial e bandido, crime organizado. E, nesse inferno, se Deus vier, que venha armado”. Esses são alguns dos versos da música – tema de um álbum homônimo – do Pavilhão 9, banda de rap metal brasileira de grande relevância nos anos 1990, que não só dá nome ao filme Se Deus Vier que Venha Armado, como reforça a voz do estreante Luis Dantas em seu ensaio audiovisual sobre a violência urbana em São Paulo, um jogo mortal em que bandidos e mocinhos se confundem e a população é a grande vítima.

O primeiro longa do professor universitário e curta-metragista parte de duas histórias de vinganças pessoais, na tentativa de abarcar o abismo social que acaba aproximando as ações de criminosos e policiais, especialmente sob pressão, quando coloca como pano de fundo um episódio tão traumático para a população paulista.
Enquanto acompanha a saída temporária do detento Damião (Vinícius de Oliveira, de Central do Brasil e da série Santo Forte) no Dia das Mães – o fato de a mãe adotiva dele já ter morrido é uma ironia exposta nos próprios diálogos –, quando reencontra seu irmão mais velho, o correto Josué (Clayton Mariano), e seu velho amigo Palito (Ariclenes Barroso, de Tatuagem) e se apaixona pela bela atriz e voluntária de uma ONG, Cléo (Sara Antunes, de Primeiro Dia de um Ano Qualquer). A trama segue também o jovem PM Jeferson (Leonardo Santiago) em sua primeira incursão nas ruas, mas de maneira desigual.
 
O soldado novato é colocado na patrulha do sargento Mauro (Giulio Lopes) em uma favela. Quando a viatura é atingida, seu superior começa uma caça às bruxas que cruza com um inocente. É quando a missão dada ao presidiário por uma facção criminosa, responsável por uma série de rebeliões e atentados naquele fim de semana, se transforma em algo pessoal para ele – uma vingança que fica clara na virada do final catártico. Assim, a representação dos policiais, não longe de alguns estereótipos do cinema de gênero, é prejudicada ainda mais quando se dedica tanto tempo à história de Damião, até em sua parte  road movie, que também tem lacunas narrativas.
 
Nunca é dito claramente, mas é evidente que o filme se inspira nos ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital) no estado de São Paulo, ocorridos em 2006 – vide a escolha da data – e em 2012, quando uma nova onda aconteceu concomitantemente às filmagens. Contudo, se em Salve Geral, o diretor Sergio Rezende tentava dar conta do primeiro e grande ato que parou a capital paulista e aterrorizou outras cidades do litoral e interior, mas se perdia no meio de tantas frentes narrativas e certa ficcionalização novelesca e apressada, Dantas prefere outro caminho.
 
Se Deus Vier... utiliza o acontecido apenas como um catalisador de uma guerra urbana cotidiana, representada através de seus poucos personagens, símbolos de agentes presentes na periferia, aqui apresentada de forma mais realista com as gravações em bairros das regiões extremo oeste e zona sul da metrópole – além do trecho filmado em Mongaguá. Porém, repete-se aqui a sensação do filme anterior de não conseguir expurgar o trauma de quem vivia em São Paulo naqueles dias de maio: das famílias de policiais, agentes penitenciários e detentos em agonia, passageiros de ônibus correndo dos veículos incendiados, motoristas presos no trânsito, cidadãos voltando a pé para casa, moradores de áreas periféricas amedrontados pela polícia, crianças acuadas dentro de suas escolas...
 
De qualquer modo, seu incisivo retrato de uma situação, infelizmente ainda atual, confere à obra uma efervescência que gerará interesse tanto agora, em seu lançamento comercial, quanto ocorreu em sua passagem em festivais, como o Cine Ceará e o FestAruanda, em que foi premiado.
 
Apesar das premiações, o projeto, que já se prolonga há oito anos, teve de esperar um edital – o terceiro, já que também foi contemplado por um durante o desenvolvimento do roteiro e por outro para captação da produção – para ganhar uma distribuição somente agora.
 
No entanto, o atraso é benéfico para Ariclenes, que, além de roubar a cena aqui, desponta como um ator-revelação, com mais dois longas em que trabalhou a serem lançados em breve: Aspirantes, filme previsto para estrear em março de 2016, ganhou o troféu Redentor no último Festival do Rio pela sua performance de uma contenção e força soberbas em seu primeiro protagonista; e Jonas, ainda sem data fechada, mas com grande potencial comercial. Aliás, é com ele que Luis Dantas dá seu recado final ao som de Oitavo Anjo do Dexter. Se a situação se mostra claudicante, a salvação vem pela arte, na qual se inspira e usa para passar sua mensagem.

Nayara Reynaud


Trailer


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