A Acusada

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Sinopse

Depois da morte de um bebê sob seus cuidados, uma enfermeira acaba sendo acusada pela morte dele e também de alguns idosos. O caso causa grande controvérsia na justiça e, anos depois, acontece uma reversão das expectativas.


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Crtica Cineweb

15/10/2015

Não é preciso um exercício de memória muito grande para o leitor se recordar de ao menos um dos vários casos policiais que mais causaram comoção nacional nas últimas décadas mas depois uma radical reversão de expectativas. O Brasil já presenciou essa situação, por exemplo, no famigerado caso Escola Base, ocorrido em 1994, em que o inquérito policial e a cobertura de imprensa, apressados e parciais, foram responsáveis por um dos julgamentos públicos mais absurdos da história do país. As denúncias de abuso infantil fecharam a escola e marcaram profissional e socialmente os indiciados injustamente, que chegaram a ser ameaçados de linchamento. Acusada (2014), candidato da Holanda que entrou na lista de pré-selecionados do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro da última edição, resgata um acontecimento de repercussão semelhante, embora o erro lá tenha sido mais grave, já que a dúvida apareceu com anos de atraso, após as decisões da Justiça.
 
Paula van der Oest, que já teve outro trabalho indicado à Academia norte-americana, a comédia Zus & zo (2001), começa seu novo longa com a protagonista Lucia de Berk (Ariane Schluter, de A Montanha Matterhorn), ou apenas Lucia de B., como ficou conhecida nos noticiários – além de ser o nome original do filme –, encarcerada em uma van. Imageticamente, ela abre com a condenação pública prévia que boa parte da população holandesa conferiu à enfermeira, acusada de assassinato e tentativa de homicídio de sete bebês e idosos. Graças à comoção gerada pelo circo midiático montado em torno do processo do “Anjo da Morte”, a mulher foi também condenada judicialmente.
 
A trama volta a setembro de 2001, para apresentar sua protagonista como a enfermeira, cuja frieza em suas relações interpessoais não se refletia no trato da enfermeira com seus pacientes, e a antagonista Judith Jansen (Sallie Harmsen, de O Sequestro de Heineken), uma assistente de promotoria novata, ansiosa para mostrar serviço logo no primeiro caso. Com a morte de um bebê sob a sua tutela, o administrador do hospital (Barry Atsma) afasta Lucia e, com base nas declarações de suas colegas de trabalho e um segundo laudo necrológico que indica envenenamento, passa a acusá-la desta e de outras mortes no hospital e em seus trabalhos anteriores.
A jovem Judith ajuda a promotora Johansson (Annet Malherbe) a pegar elementos para traçar um perfil psicopata para de Berk, chamada de bruxa, a partir de seu passado com abusos e prostituição infantil, o gosto por livros de serial killer, sua predileção por tarô e frases aleatórias no diário da acusada, que, mesmo frágeis, levaram a mulher à prisão perpétua.
 
A direção de van der Oest é eficiente na criação de um clima de suspense, apesar do final ser de fácil acepção já pelo que está implícito no material de divulgação do filme. A câmera de Guido van Gennep movimenta-se suavemente, em especial nas cenas iniciais no hospital, conferindo uma tensão genuína, que, infelizmente, não encontra força equivalente nas sequências do tribunal. A seu favor está a opção por não abusar do sentimentalismo no retrato de uma tragédia pessoal tão contundente.
 
A paleta de cores cinzenta que dá o tom do filme demonstra tanto o olhar frio da obra para o assunto retratado, quanto se refere à sua gélida protagonista, cujo comportamento acabou se voltando contra ela na concepção externa que fizeram dela. Destoa, porém, dos flashbacks amarelados, cuja abordagem se assemelha mais à dramatizações de programas vespertinos. Fora da dualidade criada entre acusada e acusadora, o roteiro de Monique Kramer e Tijs van Marle é esquemático e ganha força porque a história real é interessante por si só, além da performance de Schluter conferir a profundidade suficiente para uma protagonista cuja empatia não está tão evidente.
 
Em certo sentido, a mesma mídia que condenou Lucia agora faz um mea culpa em forma de filme, introduzindo a fictícia figura da assistente de promotoria. A urgência em mostrar serviço, em julgar alguém, cega Judith a ponto de ela pegar qualquer elemento e transformá-lo a favor de seu discurso. Não é a toa que a personagem não possui nenhum detalhamento como pessoa, pois, embora a falta de um passado e uma personalidade possa gerar certo estranhamento, a mesma reflete a mudança da opinião pública no caso, assim como representa a esperança na equidade da Justiça, tão abalada na Holanda após o controverso processo.
 
Se a fala dela sobre a utilização do perfil de suspeitos nos julgamentos norte-americanos pode causar uma risadinha no espectador, a comicidade se torna tragicômica quando se percebe as distorções se repetem, dia após dia, nos tribunais virtuais das redes sociais, desde as pequenas causas aos mais complexos casos em discussão. 

Nayara Reynaud


Trailer


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