Oração do Amor Selvagem

Oração do Amor Selvagem

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Sinopse

Tiago chega com a mulher e a filha a um vilarejo catarinense, buscando tratamento para a esposa doente. Ali vai se ver envolvido com um velho místico, em torno do qual gravita uma comunidade, e um pastor intolerante.


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Crtica Cineweb

09/12/2015

Por mais que a intolerância religiosa seja um problema secular – tanto em seu sentido temporal quanto no fato de extrapolar o limite do embate de crenças, afetando diretamente a esfera civil – e continue gerando complicações nos mais variados pontos do planeta, das Cruzadas às atuais guerras civis na África, há uma impressão geral de que a questão nunca foi tão urgente quanto agora.
 
É certo que o fator midiático contribui nessa sensação, haja visto a atenção dada aos atentados do Estado Islâmico realizados na França durante este ano, alertando para os massacres corriqueiros impostos por este e outros grupos extremistas no Oriente Médio e no continente africano. Contudo, isso é ampliado toda vez que alguém entra nas redes sociais e se depara com notícias de ataques e discursos intolerantes até ver a guerra virtual em posts na sua tela, motivada por crenças religiosas – ou a falta delas – deturpadas em interpretações equivocadas para sustentar seu próprio preconceito ou outros motivos escusos.
 
Por isso, a história real ocorrida entre o final da década de 1970 e início dos anos 80, no interior de Santa Catarina, que inspirou a produção de Oração do Amor Selvagem (2015) torna o novo filme de Chico Faganello tão vivo aos olhos do público. O caso verídico de um epiléptico que foi considerado “possuído” pela população foi algo tão enlouquecedor, segundo o próprio diretor, que ele preferiu alterar os fatos e suavizá-los, até para evitar problemas com a classificação indicativa.
 
O longa apresenta Tiago (Chico Diaz), um forasteiro que chega com a filha (Camilla Araújo, muito segura em sua estreia, apesar dos nove anos de idade) em um vilarejo catarinense para procurar um tratamento para sua mulher doente. Sem médicos no lugar, ele encontra abrigo na comunidade do velho Otaviano (Adilson Maghá), um fazendeiro messiânico e místico, malvista na região. Apesar de ficar clara a natureza livre e atormentada do protagonista e de sua herdeira, essa primeira parte é confusa, não só por conta de um roteiro e uma direção intrincados que pouco revelam sobre aquela seita, às vezes de propósito e outras por ineficiência.
 
A trilha sonora de Zeca Baleiro também se mostra desencontrada neste início, vindo a se encaixar com sua intenção poética na narrativa somente no segundo ato, quando a trama em si encontra um rumo mais definido. Com a esposa morta e um futuro duvidoso para a filha, Tiago sai da comunidade e passa a ajudar a viúva Anita (Sandra Corveloni, capaz de tornar interessante uma personagem que carece de desenvolvimento) nas tarefas da fazenda dela. Mas o “estrangeiro” gera desconfiança nos habitantes do vilarejo por sua ligação anterior com Otaviano, pelo boato de ter matado um homem e nunca ter pisado na igreja do pastor Kurtz (Ivo Müller), líder religioso local que injeta mais ódio ao forasteiro quando ele se apaixona por sua irmã Miranda (Camila Hubner).
 
A performance vigorosa de Chico Diaz é também responsável por essa sobrevida que o filme ganha, ao alternar a perturbação e o carinho característicos de seu personagem com tanta habilidade. Ivo Müller, que já trabalhara com Faganello em seu primeiro longa, Outra Memória (2006), e se destacou em Tabu (2012), do português Miguel Gomes, opta por uma interpretação marcadamente teatral, mais no dizer dos diálogos do que no gestual, que pode incomodar em alguns momentos, embora carregue a figura deste pastor de uma artificialidade que condiz com sua hipocrisia moral frente aos seus recônditos desejos incestuosos.
 
Os resquícios de uma produção de baixo orçamento aparecem menos neste quarto trabalho do cineasta catarinense, que já dirigiu a ficção Muamba (2009) e o documentário experimental Espírito de Porco (2009), do que em anteriores, já que há uma consciência maior de se fazer cinema nele, diferente do tom educativo adotado em Outra Memória, por exemplo.
 
Contemplado ainda na fase de finalização pelo programa Carte Blanche, do Festival de Locarno de 2014, e exibido na edição deste ano da Mostra, em São Paulo, Oração do Amor Selvagem traz seu clímax apenas em uma derradeira e impactante sequência, capaz de gerar as mais diferentes reações no espectador e muitas discussões após a sessão. Porém, muito dessa força vem mais da empatia criada com o protagonista antes, do contexto atual e de uma óbvia ligação temática com o clássico O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte, do que da construção fílmica de Chico Faganello para a cena final.

Nayara Reynaud


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Comentrios:
  • 22/10/2016 - 17h04 - Por Oberdan Olá! alguém sabe se está disponível a venda do DVD?
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