A ovelha negra

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País


Sinopse

Kiddi e Gummi são dois irmãos que não se falam há 40 anos, embora ocupem propriedades vizinhas e se dediquem à mesma atividade, a criação de carneiros. Seu único meio de contato é um cachorro, que leva e traz mensagens escritas que os dois eventualmente trocam. Um dia, uma grave epidemia ameaça os rebanhos da região.


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Crítica Cineweb

08/02/2016

País insular localizado bem ao norte da Europa, a Islândia é uma nação quase desconhecida e não só para os brasileiros. Entre seus marcos nacionais estão a cantora Bjork, a banda Of Monsters and Men, o programa infantil LazyTown (2004-2007) e o impronunciável vulcão Eyjafjallajökull, cujas cinzas impediram o funcionamento de vários aeroportos europeus em 2010.
 
Mas o cinema local começa a se transformar em um novo produto de exportação e A Ovelha Negra (2015) é exemplo disso: o longa ganhou o prêmio principal da mostra Un Certain Regard do festival de Cannes de 2015 e foi o candidato islandês para a corrida do Oscar deste ano entre os filmes estrangeiros, da qual, injustamente assim como o brasileiro Que Horas Ela Volta?, ficou de fora até da lista de pré-selecionados.
 
Quando o filme foi exibido na última edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo – que, além de dedicar grande parte da programação à cinematografia nórdica, teve o filme compatriota Pardais como o mais premiado –, o diretor Grímur Hákonarson usou o fato de só haver um site de atores na Islândia para explicar à plateia o quanto a sétima arte ainda engatinha em alguns aspectos por lá. Mas seu trabalho, minimalista tanto no realismo quanto no absurdo da história inspirada em casos reais de pastores locais, demonstra um precioso equilíbrio entre melancolia e humor, rigor estético e singelo apelo emocional.
 
O cineasta usa sua experiência como documentarista para retratar o dia-a-dia dos criadores e seus rebanhos de carneiros e ovelhas, mais populosos na ilha do que os humanos, enquanto mescla o registro com um tom fabular para apresentar a história de dois irmãos e vizinhos que não se falam há 40 anos - o porquê, sabiamente, nunca é esclarecido. A rivalidade entre eles transparece nas competições entre seus animais, porém, quando o carneiro vencedor do razinza Kiddi (Theodór Júlíusson, de Sobrevivente, de 2012) é diagnosticado com Scrapie, doença letal para os ovinos, equivalente ao “mal da vaca louca” nos bovinos, através do alerta do amargurado caçula Gummi (Sigurður Sigurjónsson), a rotina de todo o vilarejo é modificada. Ambos, cada qual à sua maneira, tentam salvar suas criações do sacrifício decretado pelas autoridades.
 
Em seu segundo longa de ficção – o anterior foi Summerland (2010) –, Hákonarson apresenta uma direção segura, de execução limpa e humor pitoresco, como no caso do cachorro mensageiro dos irmãos e vizinhos em guerra. E se houve dificuldades para ele trabalhar com os ovinos, o mesmo não ocorreu com o elenco humano, que tem nos dois atores principais performances controladas e tocantes o suficiente para não cair em um estudo depreciativo dos personagens. Até porque, para o diretor, que afirmou preferir falar sobre “pessoas que lutam contra o sistema” em seus trabalhos, Gummi e Kiddi são “fazendeiros rebeldes”, que não aceitam as regras quando elas lhes tiram a base sobre a qual suas vidas foram construídas.
 
Por isso, Grímur e o diretor de fotografia Sturla Brandth Grovlen, do plano-sequência único do alemão Victoria, aproveitam toda a amplitude do cinemascope/widescreen para reforçar a imagem das duas figuras, que sempre foram solitárias, mas com o ocorrido, também ficam perdidas, em uma imensidão fria que marca o interior do país. Junto com a edição de Kristján Loðmfjörð, o cineasta usa planos longos e estende os momentos de silêncio para marcar isso também, mas os quebra com alguma situação inusitada da relação conflituosa e cômica entre os protagonistas, dosando o drama e a diversão.
 
Assim, uma história muito regionalista, dada a importância dos carneiros para a cultura nacional, ganha contornos universais na relação desses irmãos em disputa, ao mesmo tempo, teimosos e amorosos com seus rebanhos. No relacionamento tão próximo que ambos estabelecem com seu gado, onde os papéis são quase trocados em processo conjunto de “antropo-zoomorfização”, os animais servem de instrumento para discutir a própria humanidade. E se o final é o único momento em que o longa cede ao sentimentalismo, a concessão serve ao propósito da obra de levar à catarse da resistência, seja de seus princípios ou de um amor fraterno que se reaquece para não congelar na gélida paisagem islandesa.
 

Nayara Reynaud


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