Ponto Zero

Ficha técnica


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País


Sinopse

Primeiro longa do gaúcho José Pedro Goulart, que já trabalhou com Jorge Furtado, prima pela ousadia estética e em sua estrutura ao contar o drama de um adolescente aflito por uma crise familiar e por um acidente.


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Crítica Cineweb

19/05/2016

“Quando vejo meus pais brigando, eu não quero crescer”. É um básico verso do clássico de Tom Waits e dos Ramones, I Don’t Want to Grow Up, mas poderia ser a frase motriz de Ponto Zero (2015), alegoria cinematográfica das dores do crescimento que a adolescência traz sempre consigo. E para o jovem protagonista, este processo é acelerado de forma ainda mais desenfreada por causa de sua asfixiante situação familiar. Mesclando um estudo psicológico do personagem com um virtuoso exercício estético, o primeiro longa de José Pedro Goulart soa um tanto pretensioso, mas carrega uma ousadia que não pode ser ignorada.
 
Com mais de 30 anos de carreira na publicidade, ele estava já há algum tempo afastado do cinema, quando realizou curtas, como o clássico O Dia em que Dorival Encarou o Guarda (1986), no qual divide a direção com Jorge Furtado, e também esteve à frente de um dos segmentos do projeto Felicidade É (1995), premiado no Festival de Gramado. Volta agora, porém, com grande vigor em seu debut, no qual já vem trabalhando no roteiro há 10 anos, e faz dele uma obra que se distancia bastante do cinema gaúcho conhecido pelo público, particularmente os trabalhos de seu colega Furtado, e até do panorama nacional atual.
 
Dividido em dois grandes atos, o filme traz um drama familiar na sua primeira parte. Ênio (Sandro Aliprandini) é um garoto de 14 anos que sofre tanto pela frieza no tratamento que recebe do pai (Eucir de Souza, em atuação precisa como uma figura paterna bem diferente da que fez em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de 2014), um radialista que mal passa o tempo em casa, quanto pelo desespero de sua mãe (Patricia Selonk, de longa carreira no teatro, carrega os resquícios do palco no tom mais exagerado), que percebe a existência de casos extraconjugais do marido. Justamente por isso, ela transforma o filho em uma presença masculina substituta em casa e em sua vida, aumentando a carga de amadurecimento dele.
 
Em um ato de rebeldia, o adolescente rouba o carro do pai na calada da noite e sai em busca de um respiro que não encontra em casa. Contudo, sua alforria noturna se torna um desastre após um acidente que desperta e materializa suas maiores aflições em uma segunda parte delirante. Tudo isso sob uma intensa chuva, que não serve apenas de metáfora para a angustia do jovem, desesperadora também para o público, mas também como um agente narrativo naquela noite trágica, já que, para o diretor, a água é um personagem dentro da obra.
 
Da mesma forma, o nome do filme pode carregar vários sentidos em seu sentido de origem ou mudança: na cópia anterior, o título vinha em destaque na hora do acidente, pois Goulart identificava ali um momento limítrofe, mas ele alterou depois ao acreditar que o ponto zero é o limite do longa, em seu início e seu fim. Com um processo um tanto diferenciado de produção, em que todas as cenas foram gravadas na mesma ordem cronológica apresentada na tela e o roteiro só foi revelado em partes, antes de cada filmagem, o jovem e estreante Aliprandini consegue sustentar um personagem difícil, que pode afastar a plateia por sua apatia.
 
O que nada tem de apático em Ponto Zero é o seu visual, que impressiona pelo apuro da fotografia de Rodrigo Graciosa ao captar a escuridão da noite e da alma de Ênio, assim como pela engenhosidade da direção de Goulart, excelente no plano-sequência do garoto correndo desesperado pela rua e exagerada nos inserts surreais de Porto Alegre. A trilha sonora de Léo Henkin as complementa e alimenta a tensão, mas as lacunas no roteiro do cineasta pesam ao não criar uma unidade entre os dois atos, que parecem dois médias-metragens em um longa, através de seus simbolismos e metáforas.

Nayara Reynaud


Trailer


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