A garota do livro

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Sinopse

Jovem editora se vê num dilema quando precisa relança um romance: a trama é inspirada em sua relação com o próprio autor.


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Crítica Cineweb

19/05/2016

Por um acaso, o filme A Garota do Livro (2015) estreia no Brasil na mesma semana do lançamento nacional de Alice Através do Espelho (2016), blockbuster com o qual guarda muitas conexões, que vão além do nome compartilhado por suas protagonistas.
 
O primeiro longa de Marya Cohn não faz à toa uma alusão direta à Alice no País das Maravilhas, com o mesmo batismo de sua figura principal e uma breve aparição da escultura dedicada ao livro clássico no Central Park. São indícios de uma referência ao polêmico relacionamento de Lewis Carroll com Alice Liddell: o possível caráter pedófilo levantado por alguns pesquisadores da aproximação do escritor inglês da menina que o inspirou a criar sua obra-prima vai de encontro com a relação de apropriação e abuso retratada aqui no mundo editorial atual.
 
O cenário é a Manhattan contemporânea e a Alice da vez é a Harvey, uma jovem editora interpretada por Emily VanCamp, mais conhecida por seu trabalho na TV, em séries como Revenge (2011-2015) e Everwood (2002-2006), e agora como a Sharon Carter de Capitão América. Com um chefe (Jordan Lage) que faz dela mais uma secretária do que uma caça-talentos literária, ela também não consegue desenvolver sua vertente de romancista por causa de um constante bloqueio criativo. Sua confusão profissional se repete na bagunça de seu apartamento e na sua vida pessoal, entre casos de uma noite só, um affair com o ativista político Emmett Grant (David Call) e a figura controladora do pai (Michael Cristofer) – quanto à carreira e a escolha do cardápio, pois ele era extremamente permissivo quando lhe convinha.
 
Quando recebe a tarefa de cuidar do relançamento de “Olhos Despertos”, Alice sofre com a reaproximação do autor do best-seller, Milan Daneker (Michael Nyqvist, protagonista da trilogia sueca de Os Homens que Não Amavam as Mulheres). A razão de seu desconforto é revelada aos poucos, através de pontuais flashbacks que mostram a jovem em seus 15 anos, quando conheceu o escritor que se propôs a ser o seu mentor. Porém, logo fica claro e o título não deixa de anunciar que ela é a tal garota da história, considerada uma versão feminina de Holden Caulfield, o rebelde de J. D. Salinger em O Apanhador no Campo de Centeio.
 
Cohn, que antes só havia dirigido o curta Developing (1994) com a então menina Natalie Portman, contou até com uma campanha de crowdfunding no Kickstarter para angariar fundos e finalizar o seu debut, que apresenta resultados bem significativos como um típico drama indie norte-americano. Seu roteiro dosa o impacto do trauma passado na vida atual de Alice, em uma boa evolução com a edição no vai e vem temporal. Se o pai e o chefe ficam estereotipados, ela tem o cuidado de manter a dubiedade de Milan, trabalhada com cuidado por Nyqvist, para deixar no ar se as ações dele são premeditadas ou se ele perdeu a noção do que está fazendo.
 
Neste sentido, as cenas do escritor com a adolescente, vivida com propriedade por Ana Mulvoy-Tem, da série teen Mistério de Anubis (2011-2013), são desconfortáveis ao público, mas nunca ofensivas. O que há de ultrajante mesmo é o terceiro ato, em que Marya sucumbe a um final aparentemente agradável, com resoluções fáceis, um blog digno de filme juvenil e um viés machista que anulam a trajetória de provável independência da personagem. É possível imaginar a hipótese de o desfecho ser algum tipo de projeção de “felicidade” da própria protagonista ao escrever seu livro, mas não é algo que se sustente firmemente. Contudo, ela tem a seu favor a performance de Emily VanCamp, que na vulnerabilidade desta moça de quase 30 anos consegue cativar a empatia do espectador em acompanhar suas aflições.

Nayara Reynaud


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