Paz para nós em nossos sonhos

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Sinopse

Em um dia de verão, um homem, sua atual companheira e sua filha chegam à sua casa de campo para um final de semana. Após a morte de sua mãe, a jovem de 16 anos mora com o pai, que pouco lhe dá atenção. Ele, por sua vez, está cansado de sua rotina diária de trabalho e não sabe mais como encontrar forças para continuar a viver. Sua mulher, uma violinista sem qualquer prazer pela vida, está confusa sobre o que deve priorizar: a música, o amor ou sua carreira. Apesar do amor que sentem um pelo outro, o relacionamento dos três está à beira de um colapso.


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Crítica Cineweb

24/05/2016

Um tiro ecoa pela floresta, fazendo um bando de veados correr por entre as árvores, assim como um adolescente que desce o terreno desviando dos pinheiros. Registrada pelo habitual e sublime observador Sharunas Bartas, esta cena abre o novo longa dele, Paz Para Nós em Nossos Sonhos, apontando a ideia, já debatida pelo expoente do cinema lituano, de uma natureza perturbada pela presença humana que evidencia a discussão desta obra sobre uma natureza humana perturbada pelas convenções sociais.
 
A contemplação característica do cineasta já foi motivo de comparação com o russo Andrei Tarkovsky e o húngaro Béla Tarr, mas também torna sua filmografia pouco acessível ao grande público. Mesmo sendo premiado no Festival de Berlim por Três Dias (1992), seu debut sensível sobre a falta de lugar e identidade da Lituânia após o fim da União Soviética, e homenageado com uma retrospectiva no último Indie Festival, este é o primeiro filme dele a ser distribuído comercialmente no Brasil, um ano após sua exibição na Quinzena dos Realizadores em Cannes.
 
Como de costume, a sinopse é mínima e basta saber que um pai (vivido pelo próprio Bartas), acompanhado da filha adolescente (Ina Marija Bartaité, igualmente herdeira do diretor) e de sua atual companheira, uma violinista em crise (a musicista Lora Kmieliauskaite, confirmando a predileção do lituano por atores não-profissionais), procuram refúgio em sua casa de campo. O longa mostra a estadia deles na região de Vilnius, durante o verão, embora a frieza do cenário não demonstre, além das relações conturbadas de seus vizinhos no local.
 
Com seus roteiros extremamente minimalistas, nos quais deixa aberto ao elenco a naturalidade do improviso, o script de Paz... rende-se a diálogos maiores para os padrões de Sharunas, especialmente em sua segunda metade. De uma discussão sobre música, o texto segue para questões mais universais que revelam as dúvidas existenciais dos personagens, do cineasta, e, claramente, de todo ser humano. Até porque, como o pai diz à filha em uma dessas conversas, “os humanos sempre duvidam”.
 
Aliás, são cenas como essas que mostram que este último trabalho de Bartas é seu filme mais pessoal. Intérpretes e personagens se confundem quando a menina deseja falar de sua mãe, fazendo com que Ina Marija, filha do cineasta com sua musa inspiradora, a atriz Yekaterina Golubeva, falecida em 2011, rememore a imagem materna por palavras, além do vídeo e das fotos dela que aparecem na produção. Na trama, o vácuo deixado pela morte da mãe abre um abismo na relação entre pai e filha. Por sinal, há um vazio entre todos nesta história, na qual a gélida paisagem fotografada por Eitvydas Doshkus vem preencher este espaço.
 
Os personagens estão tão isolados dentro de seus próprios dramas que não possuem nomes. Trata-se de uma escolha que imputa neles uma condição de representantes da humanidade e, ao mesmo tempo, de qualquer indivíduo, da mesma maneira que denota seu confronto com a própria identidade. A jovem estar sempre correndo, roubando tomates ou um rifle, com o vigor e o furor arrebatadores da adolescência é um exemplo, tal qual a violinista, que demonstra seu estado de perturbação já em sua desastrada apresentação no recital logo na abertura, quando começa a relativizar as regras da sociedade. Entretanto, essa é uma constatação básica, já que Paz Para Nós em Nossos Sonhos suscita uma leitura muito particular em cada espectador sobre o mundo gelidamente real e silenciosamente etéreo de Bartas

Nayara Reynaud


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Comentários:
  • 14/04/2019 - 10h20 - Por Saturnino Intimista do início ao fim... Aquele retrato na cena em que a garota chega na casa de campo é celestial.
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