Desculpe o transtorno

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Sinopse

Vivendo há muito tempo com o pai, no Rio, Eduardo volta a S. Paulo devido à morte da mãe. A volta desencadeia uma divisão de personalidade, em que surge nele a identidade de "Duca", um carioca relaxadão, que se interessa pela atriz Bárbara, que ele conheceu no aeroporto. Problema é que ele tem namorada controladora em SP.


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Crtica Cineweb

08/09/2016

Eles não se conheceram em uma aula de jazz, e sim no aeroporto – e nem dava para ver os olhos sempre imensos e verdes dela, pois a fantasia de coelhinho de pelúcia rosa do seu precário trabalho escondia o seu rosto. Não houve conversa no ICQ, mas foto no Instagram abalando um relacionamento. Não fizeram uma dúzia de amigos novos e com eles um canal no YouTube, embora alguns dos que já tinham ou que conheceram na terapia em grupo se pareçam com os membros do programa Porta dos Fundos.
 
Esta é a história de Eduardo, Duca e Bárbara, personagens de Desculpe o Transtorno, novo filme de Tomás Portella, estrelado por Gregório Duvivier e Clarice Falcão. Contudo, há uma semana, na sessão de imprensa, já era um desafio inicial ao espectador, por essa mania humana de criar desejos em cima da vida alheia, desassociar a trama fictícia da imagem de seus intérpretes, então um casal durante as filmagens, realizadas dois anos atrás. Agora em seu lançamento, a tarefa se torna ainda mais difícil com a crônica de amor, agradecimento e/ou marketing escrita pelo ator e humorista na Folha de S. Paulo para a ex-parceira de vida e de trabalho, que ganhou grande repercussão na mídia e nas redes sociais.
 
No meio disso tudo, existe uma simpática comédia romântica brasileira e seus clichês. Após uma breve introdução do protagonista em sua juventude no Rio de Janeiro, com a separação dos pais sendo um episódio traumático que definiria a sua vida a partir dali, Duvivier é apresentado como Eduardo, que decidiu morar com o pai (Marcos Caruso) em São Paulo. Hoje adulto, está integrado ao clima da cidade, segue fielmente os passos paternos em uma empresa de patentes e namora há anos a fútil e gourmetizada Viviane (Dani Calabresa, cuja contribuição no texto, assim como outros atores principais, fica clara na piada de Santo André).
 
No entanto, ao ser obrigado a voltar ao Rio por causa da morte de sua mãe, o rapaz entra em crise e desenvolve um transtorno dissociativo de identidade, dando margem ao surgimento do Duca, um tipo carioca tranquilão e despreocupado, extensão do que era em sua infância, que cruza com uma carismática Clarice Falcão na pele de Bárbara - uma atriz frustrada que faz bicos de promotora de vendas fantasiada, entregando balões por aí. A imagem pré-concebida de cada uma das cidades sustenta a construção das duas personalidades do protagonista e de alguns coadjuvantes, assim como a fotografia, cenografia e figurino marcam as diferenças da milimetricamente organizada e reta rotina paulistana e a curvilínea e displicente vida no Rio.
 
Os produtores assumiram durante a coletiva de imprensa que a produção foi pensada primeiramente para ser um “filme de ponte aérea”. Depois, a trama da dupla personalidade foi introduzida, sem que a discussão sobre o transtorno fosse um objetivo principal – e o modo como eles brincam com a definição do Wikipedia deixa isso implícito. Só que, em ambas as esferas, o longa se mostra menos efetivo que o romance à distância de Ponte Aérea (2015), de Júlia Rezende, e o caráter psicológico de Entre Abelhas (2015), pois falta ousadia ao roteiro de Tatiana Maciel, Célio Porto e Adriana Falcão ao lidar com os estereótipos regionais e chavões do gênero que tenta desconstruir.  
 
A sensação é que Portella, que começou com a comédia Qualquer Gato Vira-Lata, passou pelo terror Isolados e o policial de ação Operações Especiais, e agora volta bem ao mesmo terreno com um toque mais romântico e reflexivo, não explora o potencial que tem em mãos em relação aos temas e elenco – que tem Rafael Infante como amigo de Eduardo/Duca e breve participação de outros colega ou ex-integrantes do Porta dos Fundos. A obra fica, por assim dizer, no meio do caminho ao fazer mais do mesmo dentro da comédia romântica que tanto conhecemos, mas sendo assim mesmo uma produção diversa quanto ao seu gênero e tom cômico dentro da cinematografia brasileira.
 
Ainda assim, o cineasta consegue manter equilíbrio suficiente para se comunicar com o público, indo das piadas de referência aos noveleiros à trilha sonora singelamente romântica, que não conta com músicas da Clarice, também cantora, mas com a inédita Canção do Filme, de Fernanda Takai, e Tudo Bem, Tanto Faz, de Marcelo Jeneci e Laura Lavieri. Contudo, o fator de identificação é o principal agente neste caso, já que a multiplicidade de “personas” diferentes que todo mundo encarna em cada grupo de convivência não está muito distante do drama do Eduardo e seu Duca. 

Nayara Reynaud


Trailer


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