Um doce refúgio

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Sinopse

Em crise na meia-idade, Michel resolve dar um tempo de sua vida e do casamento embarcando numa viagem de caiaque. Todo o seu planejamento vai sendo superado pelas surpresas e encontros de novos personagens.


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Crtica Cineweb

28/09/2016

A Tocata e Fuga em Ré Menor de Bach que abre Um Doce Refúgio não é apenas um prelúdio alegórico para a grande escapada de Michel, protagonista interpretado por Bruno Podalydès, que também dirige e roteiriza o filme. Antes disso, é a tradução, tal qual sua paixão por aviões, deste sentimento de angústia que o aflige, a ponto de desejar tanto se desligar de sua vida que se arrisca em uma viagem de autodescoberta a bordo de um caiaque.
 
Se anteriormente o interesse deste artista gráfico – cujo chefe é vivido por Denis Podalydès, irmão do cineasta e seu parceiro por trás das câmeras em outros trabalhos – estava nos ares em vez das águas, a origem vinha do livro de Antoine de Saint-Exupéry, Voo Noturno. Desde então, ele alimentava o fascínio pelo correio aéreo colecionando tudo sobre o serviço – enquanto ele mesmo é uma pessoa aérea, como demonstram seus sonhos e delírios intercalados na trama, nem sempre de forma efetiva. Mas em um dos seus devaneios, Michel encontra no palíndromo “kayak” uma chance de reverter também o sentido de sua vida, e o filme, de ganhar em ritmo e humor.
 
Com a benção da complacente esposa, Rachele (Sandrine Kiberlain), a viagem com a pequena embarcação por um rio da região da Borgonha vem como a solução para a crise de meia-idade do personagem. No entanto, a expectativa de um road movie fluvial é frustrada logo que ele fica “preso” na primeira parada, onde acampa nas dependências de um restaurante, comandado por Laëtitia (a indicada ao César por este papel, Agnès Jaoui, de O Gosto dos Outros) e que coleciona tipos bem peculiares, incluindo até uma participação especial do veterano ator Pierre Arditi como um esquentado pescador.
 
É interessante como o longa brinca com essa ideia de que todo o planejamento se desfaz pelo curso do rio, assim como despe o abarrotado Michel das coisas não essenciais neste caminho. Contudo, quando o final relembra seu dilema existencial, após a narrativa se deixar levar por uma comicidade atraente ao público, fica evidente que Podalydès, que entre suas direções tem um segmento de Paris, Te Amo (2006) e Adeus Berthe: O Enterro da Vovó (2012), não consegue dar ao seu protagonista a mesma profundidade dos trabalhos em 3D do designer.
 
A bem da verdade, as mulheres são as personagens mais interessantes, ainda que subaproveitadas: a esposa espirituosa, a decidida dona do restaurante e a garçonete com suas emotivas memórias (Vimala Pons, de Tudo Sobre Vincent) servem para o fetiche deste homem. Mas a maneira como o cineasta e ator desconstrói a primeira, por exemplo, para tentar justificar as ações de seu próprio Michel, é muito baixa e vil.
 
Este problema se repete na essência do protagonista, já que, fora os colegas de trabalho um pouco babacas, não há grandes desculpas para ele desgostar tanto de sua vida a não ser pelas próprias escolhas. Por isso, por mais que o drama existencial traduza este desejo universal de fuga, fica sempre aquela ideia de que sair por aí em busca de si mesmo é privilégio para poucos – e, aqui, um leve divertimento para muitos.

Nayara Reynaud


Trailer


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