O estranho que nós amamos

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Locais de filmagem


Sinopse

Durante a Guerra Civil americana, um soldado da União ferido encontra abrigo num internato para mulheres, no sul Confederado. A presença do desconhecido desperta uma série de emoções conflitantes nas mulheres de várias idades que ali se encontram.


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Crítica Cineweb

07/07/2017

Sofia Coppola apropria-se do romance de Thomas Cullinan, A Painted Devil, que inspirou o filme de 1971, de Don Siegel, O Estranho que Nós Amamos, para compor uma obra intensamente autoral, por mais que o título e boa parte dos detalhes permaneçam os mesmos.
 
Premiada como melhor diretora no Festival de Cannes 2017, Sofia mostra sua marca a partir de uma singular inversão de ponto de vista. No filme de Siegel, essa visão é a do cabo McBurney (Clint Eastwood), um yankee ferido, sobre as mulheres sulistas que o acolheram em plena Guerra da Secessão. No filme de Sofia, esse ponto de vista é dessas mulheres, como elas encaram este intruso e inimigo (aqui, interpretado por Colin Farrell) e que, por isso, parece mais opaco e frágil do que no filme anterior.
 
No filme de 2017, o público sabe que pensa e sente cada uma dessas mulheres, moradoras de uma escola para moças e deixadas para trás no auge da Guerra Civil. Elas têm idades e emoções diferentes, desde a diretora local, miss Martha (Nicole Kidman), uma professora tímida, Edwina (Kirsten Dunst), e alunas como a adolescente fogosa Alicia (Elle Fanning) e outras na transição da meninice para a adolescência - caso de Amy (Oona Lawrence), a garota de 12 anos que encontrou o inimigo ferido e decidiu que era seu dever cristão ajudá-lo, apesar de tudo.
 
Embora, a rigor, muitos dos acontecimentos nos dois filmes sejam os mesmos, na obra de Sofia há uma leveza muito maior, uma empatia pela solidão dessas mulheres, que são capazes de administrar todas as tarefas, inclusive a lavoura, e, ao mesmo tempo, são despertadas de seu isolamento pelo estranho, levando-as a participar, cada uma a seu modo, de um ambíguo jogo de sedução.
 
No filme de Siegel, há uma agressividade e rancor muito maiores – o próprio estranho é muito mais direta e agressivamente conquistador, predador mesmo. Este tom é dado, por exemplo, na iluminação desta primeira versão, que tem a aparência de um conto gótico, mais escuro e contrastado. No filme de Sofia, há uma distinção bem nítida entre a primeira parte, banhada de uma luz clara, que escurece progressivamente a partir de uma crise aberta com o soldado por uma atitude impulsiva dele, que frustra as expectativas gerais.
 
Por tudo isso, quem visse o filme de Sofia sem ter assistido à outra versão teria uma apreensão diferente da história. Inclusive no detalhe de que Farrell mostra-se mais humano e vulnerável e, às vezes, quase se pode sentir pena dele. A individuação de cada mulher é também feita com mais rigor.
 
Uma ausência notável na nova versão é a da figura da escrava – aqui, aliás, não há qualquer escravo à vista, todos fugiram. Esta opção da diretora mantém fora do foco a discussão da escravidão, um dos motivos da guerra, e que desta forma apoia-se todo no duelo entre este homem (que, de algum modo, simboliza todos os homens) e essas mulheres, cada uma usando um arsenal de recursos variados para lidar com ele. Ficando assim restrito esse foco, há o reforço à ênfase no isolamento e nas emoções primais que ele encoraja e até condiciona.
 
No filme de Sofia, a violência é igualmente menos gráfica, mais sugerida do que efetivamente mostrada nos mínimos detalhes, como faz Siegel. A diretora, mais uma vez, confia na ênfase da sutileza e assina um filme mais afinado à sensibilidade contemporânea.

Neusa Barbosa


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