Detroit em Rebelião

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Locais de filmagem


Sinopse

Durante 5 dias de 1967, a cidade de Detroit foi tomada por protestos raciais e tumultos nas ruas. No meio deles, alguns policiais invadem um hotel, em busca de um suposto atirador, levando a uma violência mortal.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

25/08/2017

Única mulher vencedora do Oscar de direção (em 2008, por Guerra ao Terror), a norte-americana Kathryn Bigelow tem particular predileção por escavar períodos conturbados da história de seu país. Foi assim em Guerra ao Terror e A hora mais escura, expondo as entranhas da campanha dos EUA no Iraque e no Afeganistão. Novamente o faz em Detroit em Rebelião, desta vez explorando as cicatrizes mal curadas na drástica repressão a uma rebelião de fundo racial na então quinta cidade dos EUA em 1967.
 
Toda vez que a diretora, mais uma vez escudada nas pesquisas e no roteiro de seu habitual colaborador, Mark Boal, se lança ao passado, está procurando pistas para explicar o presente – o que fica claro já nas sequências iniciais, em animação, que procuram resumir a situação de desigualdade e pobreza que criava um caldo de exclusão e violência nos bairros negros de Detroit.
 
A efervescência desta situação crônica encontrou um estopím na repressão a uma festa privada em que a polícia, mais uma vez, recorreu à violência – ainda que o pretexto para a proibição fosse apenas que o local, um clube particular de portas fechadas, não tinha licença para venda de bebidas. Terminando em pancadaria de vários convidados pelos policiais e diversas prisões, o incidente foi seguido por ferozes distúrbios de rua, que se prolongaram por dias, transformando vários bairros negros da cidade em praças de guerra, com saques a lojas, depredação de patrimônio, carros blindados patrulhando as ruas e toque de recolher.
 
Aos poucos a diretora vai individualizando os personagens do episódio que vai galvanizar sua história, no motel Algiers. Invadindo o local em busca de um atirador – na verdade, uma arma de brinquedo -, policiais da força estadual e da Guarda Nacional submeteram alguns homens negros e duas moças brancas a uma verdadeira noite de terror, da qual alguns não escapariam com vida.
 
Ali dentro estão, entre outros, o operário Fred Temple (Jacob Latimore), o cantor Larry Reed (Algie Smith) – cujo show decisivo perante uma gravadora foi interrompido pelos tumultos -, um paraquedista condecorado no Vietnã, Karl Greene (Anthony Mackie).
 
Quem comanda o show de violência são os policiais Krauss (Will Poulter), Demens (Jack Reyner) e Flynn (Ben O’Toole), cujos piores instintos parecem ter sido acirrados pela presença de duas moças brancas, Julie (Hannah Murray) e Karen (Kaitlyn Dever), como que sentindo-se atingidos numa espécie doentia de “defesa de honra branca” pela opção delas por companhias negras. Este clima se acentua à medida que a noite avança, em que os policiais recorrem a espancamentos e torturas morais sob o pretexto de identificar o atirador, sob os olhos omissos dos colegas da Guarda Nacional. Uma outra testemunha é um guarda negro, Melvin Dismukes (John Boyega), que fazia a segurança de uma loja próxima e acompanhou a ação policial dentro do Algiers.
 
Com uma duração aproximada de 45 minutos, a sequência do Algiers materializa aquela que é provavelmente a maior qualidade da diretora – a capacidade de colocar seu espectador o mais dentro possível dos acontecimentos, podendo compartilhar do ponto de vista das vítimas e de toda a sua tensão e medo. São cenas quase insuportáveis, como devem ter sido para aqueles que as viveram.
 
Comparadas com este que é o coração do filme, as sequências do julgamento dos policiais – e também de Dismukes, a quem se quis atribuir responsabilidades por estar armado – parecem quase anticlimáticas. O que é natural – elas estão aqui para salientar o mecanismo que sustenta a impunidade nestes casos, deixando, no entanto, a tarefa de comparações com o presente recente, em casos como Michael Brown, em Ferguson, Tamir Rice, em Cleveland, e tantos outros, a cargo do próprio público.
 
Lançado nos EUA em agosto, Detroit em Rebelião teve bilheteria modesta e a diretora recebeu críticas por, alegadamente, não ter colocado mulheres negras no centro da narrativa e não ter oferecido contextualização suficiente. Numa entrevista ao jornal The New York Times, Kathryn – uma mulher branca, do norte da California – destacou as pesquisas realizadas por seu roteirista, que chegou a entrevistar sobreviventes do Algiers, como Larry Reed e Melvin Dismukes e que, a seu ver “não fazer nada não era uma opção”. Ou seja, quem quiser fazer outro filme sobre um tema sobre o qual certamente se tem tanto a dizer, que o faça.

Neusa Barbosa


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