Aos teus olhos

Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

Rubens é um professor de natação infantil que sempre teve uma relação de amizade com seus alunos e alunas. Até o dia em que um deles o acusa de ter-lhe dado um beijo no vestiário, desencadeando um inferno na vida do professor.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

27/02/2018

Poucos filmes recentes lidam com tanta urgência com uma questão tão necessária da atualidade: a histeria coletiva gerada por rumores que se espalham na internet. Aos teus olhos, de Carolina Jabor (Boa sorte) parte de uma peça dos espanhol Josep Maria Miró, O princípio de Arquimedes, e investiga como a verdade é apenas o resultado da disputa de narrativas – e não necessariamente aquilo que é realmente e factualmente verdadeiro.
 
O protagonista é Rubens (Daniel de Oliveira, premiado no Festival do Rio por esse trabalho), um professor de natação infantil que se dá bem com seus alunos e pais, até que um dia acaba acusado por um garoto, Alex (Luiz Felipe Mello), de o ter beijado quando estavam no vestiário.  É uma fagulha que, não custa muito, gera repercussões desastrosas e irreparáveis.
 
O filme, cujo roteiro é assinado por Lucas Paraizo, é sagaz em sua construção narrativa, essencial para c riar o clima pretendido. A trama se revela aos poucos, jogando com novos fatos, que fazem girar a bússola da informação que o público recebe. Nenhum personagem é destituído de nuances – especialmente o professor, cujo comportamento pode ter alguns elementos reprováveis, como flerte com alunas adolescentes. Porém, a princípio, não parece que ele tenha assediado o garoto.
 
Os pais, interpretados por Marco Ricca (também premiado no Festival do Rio) e Stella Rabello, têm um comportamento questionável, mas também compreensível. Como manter a calma e a razão num momento em que seu filho revela que sofreu abuso? Mas sofreu mesmo? A criança, figura-chave na resolução da trama, é sempre, em qualquer obra, um ponto de vista pouco confiável – não que seja por maldade, mas, como diz o escritor Henry James em um de seus romances, a criança vê mais do que pode compreender.
 
Carolina Jabor caminha, com seu filme, num terreno pantanoso de verdades incertas e questões delicadas. Aos teus olhos poderia facilmente cair em clichês, ou redenções, mas ela e seu roteirista não se entregam a resoluções fáceis e são até ousados – especialmente com a saída honesta que acham para o filme. Sem vilanizar, nem martirizar o protagonista, o trio (roteirista, diretora e ator) buscam a construção humana de Rubens que, como qualquer pessoa, é fadado a contradições, medos e erros. É um dos acertos do filme ao tratar esse personagem sem protegê-lo ou jogá-lo na fogueira acesa pelos pais.
 
Esses pais, Davi e Marisa, mantêm uma relação um tanto tensa – o pai sempre é nervoso, o que deixa o filho Alex constantemente aflito. A mãe é a primeira a entrar em desespero quando o garoto conta sua história. Apesar de um tanto histérico, seu comportamento não é de todo injustificável; ela quer proteger o menino e age da maneira já clássica da atualidade – conta a história conforme chegou a ela num grupo de whatsapp e em redes sociais. A roda irreversível do tribunal digital começa a rodar, e, não custa muito, a vida de Rubens não é a mesma.
 
Muito já se alardeou sobre a tal pós-verdade, e Aos teus olhos é um filme que investiga exatamente isso, o que  sucede num mundo de certezas líquidas e pontos de vista em disputa. Quem é o dono da verdade aqui? Todos os personagens têm a sua e seus argumentos. Mas o filme não julga, muito menos condena, apenas expõe, com sagacidade, diversos pontos de vista e deixa que seu público tire sua própria conclusão.

Alysson Oliveira


Trailer


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