O banquete

Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

Num apartamento luxuoso, está para ser servido um jantar, sob o pretexto de comemorar os 10 anos de casamento de Mauro, dono de uma revista, e Bia, uma famosa atriz. Mas a dona da casa parece ter uma agenda secreta, que coloca na mesa segredos, confissões e acertos de contas.


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Crítica Cineweb

15/08/2018

De algum modo, ainda que possa não ser esta sua primeira intenção, O Banquete, de Daniela Thomas, responde àquela velha questão – por que não fazemos filmes sobre a nossa elite? Roteirizado por ela mesma, este filme o faz, reunindo numa uma sofisticada mesa de jantar, jornalistas, atrizes, o dono de uma revista, advogados, todos se degladiando acidamente num jogo cifrado que a plateia não decifra inteiramente – nem mesmo ao final da projeção.
 
Uma das razões da sensação de estranheza que percorre o espectador é justamente esse desconhecimento dos códigos do duelo que aqueles personagens estão levando diante de nossos olhos, num microcosmo inacessível à maioria de nós, comuns mortais brasileiros. Nosso representante nesse huis clos deverá ser, portanto, Ted (Chay Suede), o garçom contratado para servir um luxuoso jantar num apartamento idem, sob o pretexto de comemorar os 10 anos do casamento do poderoso editor de uma revista, Mauro (Rodrigo Bolzan), e da famosa atriz Bia Moraes (Mariana Lima).
 
Os donos da casa são o casal formado pelo advogado Plínio (Caco Ciocler) e Nora (Drica Moraes), que é quem comanda o ritmo da festa, que parece conduzida por um cerimonial feroz de vingança. Afinal, Nora chamou entre os convidados a crítica de arte Maria (Fabiana Gugli), um dos muitos casos do editor, descrito em algum momento como “priápico”. Completam o time de convivas outro colunista, Lucky (Gustavo Machado) e, mais tarde, duas pseudo-intrusas, Claudinha (Georgette Fadel), assistente inseparável de Bia, e uma misteriosa Cat Woman (Bruna Linzmeyer), de máscara e tudo.
 
Filmado em tempo real, com longos planos-sequência, o filme é, certamente, um tour de force desafiante para os atores, que esgrimem uns contra os outros diálogos ácidos e carregados de duplos sentidos, quando não de sexualidade explícita – todo mundo ali conhece todo mundo, se não diretamente, sabe a fundo seus segredos.
Em torno disso, insere-se também um sentido político. Afinal, o tempo da história é o do curto governo de Fernando Collor de Melo, lembrando-se que ainda vige então uma Lei de Imprensa draconiana, moldada na ditadura, que pode ser usada contra Mauro, passível de prisão por ter escrito uma carta aberta ao presidente que logo mais seria ceifado por um impeachment.
 
A semelhança desta situação com um incidente real, além da notória similaridade física do ator Bolzan com o recentemente falecido Otávio Frias Filho, deflagra um outro jogo, este para o espectador, que poderá tentar identificar a que personagens reais correspondem estes atuantes na trama – e muitos surgirão, o que pode ou não ser o mais importante a assimilar deste filme peculiar.
 
Em um texto divulgado à imprensa para o lançamento do filme, Daniela Thomas atribui a inspiração deste roteiro a vivências dela mesma, ainda criança, numa casa como a sua, que atraía personagens diversos para noitadas em que se falava de tudo e o álcool eventualmente liberava confissões e palavras de baixo calão. Em alguns momentos, é possível mesmo sentir-se como essa criança que assiste, sem tudo entender, a um feroz embate entre adultos, esgrimindo uns contra os outros segredos que os demais podem conhecer ou não.
 
Voltando ao primeiro parágrafo – se de um perfil de nossa elite se trata, é um perfil ácido e nada edificante de cidadãos poderosos, cuja menção a filósofos como Platão e Sócrates não encobre uma deslavada necessidade de submeter outros ao controle, intelectual ou eroticamente. O fato de que aqui seja uma mulher – Nora – quem comanda o ritmo da queda de máscaras e de uma aparente operação de vingança ilustra outra intenção declarada de Daniela Thomas, de abordar jogos de poder pendentes entre os sexos. Se assim é e se disso se trata – não há certezas por aqui -, pode-se dizer que o filme conseguiu parte de suas intenções. Mas é um jogo cifrado demais para poder afirmar inclusive isso.
 
Sobre intenções políticas, paira, misteriosa, uma das falas finais do filme, dirigida ao editor Mauro: “Levanta daí, porque se você não for preso amanhã, vamos mudar a merda deste país”. Será que eles mudaram mesmo e o resultado é este que estamos assistindo hoje?

Neusa Barbosa


Trailer


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