Ponto cego

Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

A apenas três dias de terminar sua condicional, Collin testemunha uma policial matando um jovem negro a sangue frio. Com o fantasma desse episódio o atormentando, ele reavalia sua amizade com seu melhor amigo, um sujeito bastante nervosinho cujo comportamento pode comprometer a liberdade do protagonista.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

26/09/2018

Poucos filmes são capazes de captar a tensão racial dos EUA contemporâneos como Ponto cego. Mais do que colocar como protagonistas um personagem negro e outro branco, e investigar como a sociedade trata cada um deles, o longa traz em sua forma a linguagem de hip hop – possivelmente o melhor gênero musical a decantar o tema. O longa foi escrito pelos músicos e atores Rafael Casal e Daveed Diggs, que interpretam os protagonistas Miles e Collin, respectivamente.
 
Collin é negro e sabe o que isso significa, morando em Oakland, uma cidade que é um caldeirão de tensão racial. Foi nela que no primeiro dia de 2009, um policial matou Oscar Grant, um jovem negro desarmado, cuja morte inspirou o filme Fruitvale Station: A última parada. Colin tem tudo isso em mente e Ponto cego começa com o protagonista saindo da prisão numa condicional. Quase um ano depois, a três dias de terminar essa condicional, precisa ficar longe de qualquer encrenca, sua liberdade é preciosa. Ele trabalha numa empresa de mudanças ao lado de seu melhor amigo, Miles. Embora eles sejam grandes companheiros, há inegavelmente uma tensão prestes a explodir entre eles.
 
A poucos dias de terminar sua condicional, Collin assiste um policial (Ethan Embry) matando um jovem negro desarmado. O mundo de Collin desaba, e tudo que tentou manter nos trilhos até então, se perde, diante do seu medo de ser envolvido com o rapaz perseguido pela polícia ou mesmo no assassinato. Os poucos dias que ainda restam da pena servem como um momento de reflexão sobre sua existência e a relação com Miles, que leva uma vida menos regrada do que a dele, mas, por ser branco, nunca precisou se preocupar muito.
 
Mais do que um cenário, a cidade de Oakland é um personagem aqui, com sua história e um processo de gentrificação que afeta a vida de todos, especialmente das pessoas comuns. Diggs e Casal são nativos da cidade, e amigos de longa data. É pelos olhos deles que vemos a transformação local e a banalização da história. Uma cena, numa festa na casa de um hipster, é reveladora, quando o dono da casa mostra uma mesa feita de um pedaço de caule de uma árvore local de mais de um século.
 
Diggs ficou famoso por sua interpretação de Thomas Jefferson e Marquês de Lafayette, no musical premiado da Broadway Hamilton, e na tela, ele é uma força da natureza. Seu Collin é um sujeito cuja raiva é contida. Sua revolta contra o sistema e as injustiças não pode ser externada porque qualquer excesso pode levá-lo de volta à prisão. Neste sentido, o personagem de Casal é o contraponto, nada fica dentro dele. Na tela, os dois músicos-atores surpreendem com presença e força dramática, transitando entre a tragédia e a comédia.
 
A amizade entre os dois personagens, por mais que eles façam vista grossa a isso, é tóxica, e traz à tona o que há de pior em cada um – um comportamento infantil e responsável. Ao contrário da maioria dos filmes que celebram a infantilidade do homem adulto americano, Ponto cego encena o confronto entre Collin e Miles, que parece uma batalha de rappers. Mas é no clímax do filme que o ritmo emerge com toda sua força, revelando o quão potente pode ser no confronto e em sua capacidade de questionar a sociedade.
 
Por mais que a parceria no roteiro e nas atuações entre Diggs e Casal sejam a força motora do filme, nada funcionaria sem a direção precisa de Carlos López Estrada, estreante em longas, cujo trabalho capta referências do gênero – desde Faça a coisa certa, de Spike Lee, até o próprio Fruitvale Station, de Ryan Coogler – transformando-as em algo novo, repleto de pungência, urgência e relevância. Ao lado deo ainda inédito no Brasil Infiltrado na Klan, também de Lee, Ponto cego é, possivelmente, o filme mais importante sobre a questão racial nos EUA neste ano.
 
O título Ponto Cego vem do experimento da psicologia conhecido como o vaso de Rubin, no qual uma imagem fornece uma ilusão ótica em que é possível ver um par de rostos em perfil ou um vaso, mas nunca as duas coisas ao mesmo tempo. Aqui, o ponto cego é aquele que vai além do branco e do preto. É um filme que pede para que vejamos além dos estereótipos e preconceitos, que encontremos algo além do que nos é dado como fato.

Alysson Oliveira


Trailer


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