Imagem e palavra

Ficha técnica


Avaliação do leitor

PéssimoRuimRegularBomÓtimo 0 votos

Vote aqui


País


Sinopse

Neste documentário experimental, o veterano cineasta Jean-Luc Godard investiga como se dá a relação entre a imagem e a palavra no nosso presente tão exacerbado de mercadorias, horrores e narrativas.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

06/03/2019

Sem cogitar tirar o pé da pós-modernidade, onde o fincou há boas décadas, em Imagem e Palavra, Jean-Luc Godard realiza seu filme mais acessível – talvez, menos hermético seja uma expressão melhor – em anos, e possivelmente o mais relevante em sua figuração do nosso presente. É preciso certo comprometimento para embarcar no longa – que, a pedido do diretor, não é totalmente legendado, parte do texto não é traduzida – ou uma dose de devoção ao cineasta. Mas, a bem da verdade, esse trabalho tem muito mais a dizer do que, por exemplo, o exercício de ego JLG por JLG - Auto-Retrato de Dezembro, de 1994.
 
A fragmentação que, há muito tempo, virou a bússola semidesgovernada de seus filmes é o que arma a narrativa (obviamente não ao modo clássico) aqui. A urgência do presente é a pulsão que dita o mosaico de imagens e textos e, às vezes, de silêncios. Dividido em capítulos, Imagem e Palavra traz novamente as mesmas imagens e palavras godardianas (que, embora possam não ser exatamente as mesmas de sempre, não deixam de ter um ar déjà vu) embaladas na urgência pedida pelo nosso tempo.
 
Ao destacar do contexto e obras originais fragmentos de filmes, produtos televisivos e afins, Godard resignifica interpretações e signos. As imagens cinematográficas vêm de longas como Interlúdio, A mocidade de Lincoln e Salò, ou Os 120 dias de Sodoma, ao lado de vídeos de terrorismo. O que monsieur l’auteur quer articular disso fica a critério do público. É óbvio que não está tudo jogado na tela de maneira gratuita, existindo um caminho de leitura e compreensão, mas este é amplo. Isso funciona como uma vantagem por um lado, dá liberdade ao público, e desvantagem por outro: qualquer coisa pode ser o que o observador quiser que seja. Talvez esteja aí a capacidade de Godard em figurar a pós-modernidade e seus excessos de liberdade de escolha: o mundo se tornou um grande supermercado e tudo – especialmente as pessoas – uma grande variedades de mercadorias. Cada um se dirige à gôndola que lhe convier mais.
 
Desde sua estreia, no final dos anos de 1950, ganhando notoriedade com Acossado, em 1960, Godard questionou a forma de narrar. Começou com filmes que contavam uma história e foi estilhaçando esse modelo ao longo de mais de meio século – com resultados nem sempre positivos, mas seus questionamentos e experimentos merecem respeito. Em Imagem e palavra, ganhador de um prêmio especial em Cannes de 2018, ele parece finalmente lapidar algo que tentou nos últimos anos – especialmente com Filme Socialismo (2010) e o intragável Adeus à linguagem (2014) –, ou seja, questionar a narrativa em seu cerne, especialmente a narrativa composta de imagens. Qual o papel da palavra num mundo bombardeado por imagens? É claro que o filme não vai – nem tem a obrigação de – responder, mas levantar a questão é um mal necessário neste século. 

Alysson Oliveira


Trailer


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança