Vermelho sol

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País


Sinopse

Numa província argentina, em 1975, sob a aparência de normalidade, episódios estranhos se sucedem. Pessoas desaparecem de repente, uma casa fica abandonada e a cidade está sob intervenção. Nesse clima, chega à cidade o detetive Sinclair, que procura um advogado local, Claudio Morán, por causa de um destes desaparecimentos.


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Crítica Cineweb

24/07/2019

Para entender o pesadelo, é preciso seguir as pistas da véspera. É isso o que diz este inquietante e preciso suspense político argentino, escrito e dirigido por Benjamin Naishtat.
Ambientada numa província argentina em 1975, final do tumultuado governo de Isabelita Perón, a narrativa desenha a instalação de um clima de medo e opressão, por baixo de uma aparente normalidade. Quem melhor representa esta pseudo-normalidade é o advogado Claudio Morán (Dario Grandinetti). Figura conhecida e respeitada em sua comunidade, ele espera sua mulher num restaurante quando começa a ser incomodado por outro cliente (Diego Cremonesi). O incidente acaba em discussão e tem desdobramentos imprevisíveis.
 
Meses depois, o advogado leva adiante a rotina de seu escritório. Mas, desde a primeira cena, sabemos que nada ali é tão normal assim. Nas vizinhanças, há uma casa de classe média, abandonada, de onde vizinhos já levaram móveis e a maioria dos objetos. Mas um amigo do advogado quer mais - pretende armar, com a ajuda de Claudio, uma operação jurídica que permita aos dois apoderar-se da casa, cujos donos, ao que parece, nunca mais voltarão. Assim como desaparecem misteriosamente outras pessoas que Claudio procura numa cidade vizinha. 
 
Há um interventor na província e ele recebe cowboys norte-americanos para uma apresentação, numa região em que a cultura do faroeste paira à flor da pele. Ao final, uma troca de presentes - os americanos trazem um chicote, o interventor os brinda com um jogo para tomar mate. A coletiva de imprensa do interventor termina com uma saia justa para o único repórter que faz perguntas que desafiam o entrevistado a sair do discurso ensaiado sobre a lei e a ordem.
 
Entre os jovens desta comunidade de classe média, incidentes corriqueiros, como as reações do namorado ciumento de sua amada, Paula (Laura Grandinetti), a filha do advogado, sinalizam uma mentalidade fascista implícita. 
 
Essa rotina, solidamente organizada, sofre um abalo com a chegada de um detetive de um famoso programa de televisão, o chileno Sinclair (Alfredo Castro). Vem contratado por uma família local, justamente, para investigar o desaparecimento de um jovem, que nunca chegou ao seu destino, Popularmente, chamam o desaparecido de “o hippie”, já que seus hábitos destoavam do que a própria família entendia como regra. 
 
Algumas das melhores sequências deste filme afiado estão neste duelo surdo entre o detetive e o advogado, que permitirão o desenvolvimento ainda de uma outra camada em sua oportuna escavação em torno da hipocrisia social - e como ela funciona como um vetor para a entrada e a consolidação do fascismo. 
 
O diretor mostra-se hábil na construção de uma atmosfera tensa, criando momentum mesmo quando parece que nada está acontecendo. Sob a superfície tranquila, na brisa sutil do deserto, tudo, absolutamente tudo está acontecendo e sendo enterrado. E, quando todos se calam, a nova ordem autoritária vai imperar. Não por acaso, a ditadura militar argentina começava um ano depois, em 1976.

Neusa Barbosa


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