O Escândalo

Ficha técnica


País


Sinopse

Roger Ailes é o executivo todo-poderoso por trás do crescimento da Fox News. Mas um grupo de jornalistas da emissora irá enfrentá-lo na justiça, por conta dos inúmeros casos de assédio e abuso sexual cometidos por ele.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

08/01/2020

O Escândalo do título nacional do filme refere-se aos diversos casos de abuso sexual cometidos pelo presidente do canal Fox News, Roger Ailes, que vieram à tona em 2016, depois que uma ex-âncora, Gretchen Carlson, entrou com um processo contra ele. Ou seja, é um longa bastante em sintonia com o momento histórico-social do movimento feminista. Mas existe aqui um certo descompasso entre forma e conteúdo.
 
Não há dúvidas de que diretor Ray Roach e o roteirista Charles Randolph estão com as melhores intenções, mas o problema já começa aí, nenhuma mulher envolvida nessa escritura. Um olhar feminino, bem provavelmente, faria a narrativa se armar de forma diferente. O que se tem aqui é um filme sobre a derrocada de um homem, e não sobre o empoderamento de um grupo de mulheres que toma coragem de denunciar o chefe abusivo. É uma diferença sutil, mas que diz muito sobre o olhar hegemônico para o assunto. 
 
Charlize Theron (produtora do filme e indicada ao Oscar de Melhor Atriz), Nicole Kidman e Margot Robbie interpretam as três personagens centrais: Megyn Kelly, Gretchen Carlson e Kayla Pospisil, duas figuras reais e âncoras do canal, e uma fictícia e recém-contratada com muita ingenuidade e ambição que a levarão ao topo, mas pagará um alto preço. Essa personagem inventada serve como uma espécie de mediadora, alguém na qual se pode dramaturgicamente inserir alguns incidentes nos quais talvez os produtores do filme tiveram receio de incluir as duas mulheres baseadas em pessoas reais, e sofrerem processos.
 
Kayla é a ingênua que será levada, pela secretária do chefe (Holland Taylor, que age quase como uma cafetina, garimpando na empresa jovens bonitas), ao escritório, sem saber exatamente o que a espera no encontro com o o homem mais velho e poderoso. Uma das cenas mais bem resolvidas aqui é a primeira vez que Ailes (John Lithgow) abusa de sua posição e pede para que ela levante o vestido e dê uma voltinha. É um soco no estômago de qualquer um. Muito da eficiência da cena se dá por causa de Robbie (indicada ao Oscar de coadjuvante), e sua transformação em segundos, de uma garota feliz com uma possível promoção até vítima de um abuso, quando finalmente percebe o que está em jogo ali.
 
O que o filme, no entanto, tem muita dificuldade em lidar é com política – seja a micro, a política de gênero no ambiente de trabalho, até algo mais macro, envolvendo Donald Trump, uma figura recorrente aqui, dado o seu tratamento misógino contra Megyn Kelly, em especial, ou o propagandismo reacionário da Fox News. Essa é a primeira ponta de um iceberg que vai se mostrando aos poucos em O Escândalo.
 
As personagens reais – como Kelly e Carlson – são um tanto engessadas, cujas criações, como se percebe, parecem se dar pisando em ovos. Por outro lado, Kayla é alguém que joga uma luz no filme. Sua trajetória – de jovem cristã e ingênua que precisa encarar o que sofreu para que possa seguir em frente – deveria ser o verdadeiro arco do filme, e não a derrocada de Ailes, de homem poderoso a profissional que acaba fazendo um acordo lucrativo com os patrões quando é demitido.
 
Dada a importância do tema, neste momento em especial, o diretor e o roteirista demonstram sentir o peso em seus ombros, salpicando por todo lado no filme frases de efeito (“Não sou feminista. Sou advogada”, diz Kelly numa das primeiras cenas), que acabam apenas vazias. Nenhuma do trio de personagens centrais tem sua história bem aprofundada.
 
A mais prejudicada aqui é Carlson, cuja acusação, que foi o estopim para a queda do chefe, só se deu depois de ser demitida. Da maneira como o filme a mostra, faz parecer que não havia tantos problemas em suportar abusos físicos e verbais, e a acusação foi apenas uma vingança por ter sido mandada embora – a figura real ter sua trajetória e carreira reduzidas apenas a isso –, enquanto Kelly brilha como a estrela aqui. Qualquer pessoa com bom senso sabe que é mais complexo do que isso, mas da maneira como ela é mostrada em O Escândalo, acaba sendo um desserviço. O excesso de personagens e o excesso de zelo fazem do filme algo aquém do que poderia ter sido.

Alysson Oliveira


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