O preço da verdade - Dark waters

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Sinopse

Rob Bilott é um advogado corporativo especializado em defender grandes empresas, até que um pequeno fazendeiro o procura pedindo ajuda para processar a DuPont que, há anos, pode estar contaminando a água da região.


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Crítica Cineweb

29/01/2020

Num primeiro momento, e talvez durante boa parte do tempo, O preço da verdade – Dark Waters nem parece um filme de Todd Haynes. Quando se pensa nos longas desse diretor, o que vem à cabeça é a experimentação estética e narrativa (vide Não estou lá, Carol, Longe do Paraíso, e Velvet Goldmine). Aqui, temos um longa um tanto convencional, sisudo. Mas se aprofundando mais, percebe-se que o tema perene do cineasta está aqui: a  ovelha negra, o deslocado que chega para enfrentar o establishment – basta conferir seus protagonistas: Bob Dylan; uma dona de casa frustrada que abandona o marido por uma moça mais jovem; a dona de casa frustrada que se envolve com o jardineiro negro, nos anos de 1950; o representante do glam rock dos anos de 1970.
 
Em O preço da verdade, o estranho no ninho é um advogado que, em meados dos anos de 1990, está prestes a se tornar  sócio numa grande empresa de advocacia, especializada em defender grandes corporações, que bate de frente com a gigante DuPont. Com roteiro baseado numa história real, aqui temos a clássica história de Davi versus Golias, mas contada e atuada com tanto brio que Haynes e seu elenco – especialmente Mark Ruffalo como o protagonista, e Anne Hathaway, como sua mulher – que o filme exala frescor.
 
A transformação de Rob Bilott, o advogado, é gradual, e ocorre na medida em que ele descobre que a empresa estava há anos envenenando as águas de uma pequena cidade na Virgínia Ocidental. O protagonista não é um advogado ambiental, na verdade, ele nem sabe muito bem como lidar como uma questão dessas. Mas também não tem como fingir que nada está acontecendo e, para lutar contra isso, terá de bater de frente com seus superiores, pois a firma não está acostumada a processar grandes empresas – o escritório defende essas grandes empresas.
 
Filmes em que um personagem faz uma grande denúncia de assuntos sociais datam dos anos de 1960, nos dias de glória do cinema político, com Costa-Gavras, passando por Todos os homens do presidente; Norma RaeSilkwood, Retrato de uma coragem; O Informante, até chegar ao começo dos anos 2000 com Erin Brokovich – Uma mulher de talento. Esse percurso também é marcado pela transformação da visão que se tem do mundo corporativo, quando as grandes empresas começaram a ser expostas, assim como seus malefícios para a sociedade. Nesse sentido, o gênero construiu, com o tempo, uma espécie de modelo narrativo, facilmente apontado, e, na mesma medida, confortável. Haynes não reinventa nada aqui, mas joga com os moldes que lhe são dados, contando com um ator do calibre de Ruffalo, que injeta energia e nuances num filme que, em mãos menos hábeis, seria apenas um thriller interessante.
 
Ao centro de O preço da verdade, há uma questão de saúde pública. Começa com os dejetos que a DuPont lança nas águas da cidade – jurando que não faz mal – até chegar no Teflon que praticamente todo mundo tem ou já teve em casa, e os males que faz à saúde. É um caminho que Billot percorre em sua investigação para processar a empresa. As paradas dessa estrada são bem conhecidas: pequenas vitórias momentâneas, frustrações, afastamento da família para cuidar do caso, algumas das vítimas morrem, o tempo passa.
 
Haynes remete nesse filme a um de seus primeiros longas A Salvo, de 1995, no qual Julianne Moore interpretava uma mulher com alergia ao mundo. Poderia ser uma doença real ou psicológica, mas há um senso de desconforto o tempo todo. Aqui, não há nada de fictício na condição de saúde dos e das envolvidas, nem nos crimes ambientais. É um filme baseado em fatos reais, e num artigo de 2016, de Nathaniel Rich, que mesmo trazendo conforto do Davi vencendo o Golias, deixa um resíduo de desconforto, porque essa história não é apenas sobre uma pequena comunidade, e a vitória não impede que todos nós ainda estejamos enfrentando os efeitos dos males causados pela DuPont e seu Teflon. 

Alysson Oliveira


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