A Época da Inocência

A Época da Inocência

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Sinopse

Newland Archer é um jovem advogado na Nova York dos anos de 1870. Ele está prestes a se casar com May Welland, de uma família tão rica quanto a dele. Tudo muda quando conhece a prima dela, a condessa Olenska, uma mulher separada do marido.


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Crítica Cineweb

19/05/2020

Em seus famosos filmes sobre a máfia de Nova York, Martin Scorsese sempre penetrou num pequeno mundo fechado de gente rica e poderosa que dita as regras sociais, mesmo que na surdina, sem literalmente ocupar o poder. Nesse sentido, é possível que A Época da Inocência seja seu longa mais contundente, o mais mafioso de todos, pois observa por dentro a elite financeira e cultural de sua cidade tão amada. As figuras que ali circulam são tão – ou até mais - prejudiciais e tóxicas do que qualquer Frank Sheeran, de O Irlandês, ou James Conway, de Os Bons Companheiros.
 
Scorsese parte de um roteiro assinado por ele e Jay Cocks, baseado no romance homônimo de Edith Wharton, de 1904 – primeiro livro escrito por uma mulher a ganhar um Pulitzer para obras de ficção. A escritora fazia parte de uma das famílias mais ricas de Nova York do seu tempo, e assim podia circular livremente pela alta sociedade, observando as dinâmicas entre o old money e o new money. Alguém que chegue desavisado à sua obra poderá pensar que se trata de uma narrativa romântica sobre amores reprimidos e paixões em disputa. Não poderia haver engano maior. Sua temática é a maneira como o capital corrompe pessoas e molda as relações humanas – sejam familiares, de amizade ou amorosas. A troca de um pretendente por outro é a troca de uma fortuna pela outra.
 
Scorsese sempre se interessou pela Nova York do seu momento, seja no pós-Vietnã de Taxi Driver, ou na “juventude transviada” de Quem bate à minha porta. Em A Época da Inocência, votando às últimas décadas do século XIX, ele tem a oportunidade de investigar a formação social dessas pessoas que 100 anos depois seriam seu objeto de interesse. Ele ainda não havia feito Gangues de Nova York, que também observaria o mesmo momento histórico por outro ângulo.
 
O centro de A Época da Inocência é um triângulo amoroso formado por gente muito rica. Newland Archer (Daniel Day-Lewis), um jovem advogado promissor, está noivo da jovem May Welland (Winona Ryder), mas se apaixona pela prima dela, a condessa Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer), uma mulher separada do marido. Em mãos menos hábeis do que as de Wharton e Scorsese seria uma mera disputa entre paixões, mas aqui temos uma investigação da desigualdade financeira e social de uma época da história conhecida como The Gilded Age, A Era Dourada.
 
A ausência de pobres no livro e no filme também é reveladora. Eles existem enquanto serviçais, quando muito, e isso é um indício de exploração; aos menos destituídos, o destino era trabalhar nas fábricas. Em The House of Mirth – filmado por Terence Davies, e lançado no Brasil como A Essência da Paixão – essa dinâmica é ainda mais clara, uma vez que sua protagonista, uma espécie de ex-rica, acaba obrigada a trabalhar numa fábrica de chapéus. Aqui, o centro são pessoas cujos descendentes, meio século depois, perderiam fortunas na crise de 1929.
 
A "época da inocência", que dá título ao filme, é aquela da hipocrisia, e também a da tragédia da repressão social, emocional, amorosa. São figuras que se movem num mundo que precisará se reinventar inúmeras vezes – inclusive no século XXI. Scorsese mostra – ao som de um bela trilha de Elmer Bernstein – uma sociedade prestes a ruir, mas, pelas dinâmicas de aproximação e distanciamento aqui, muito claramente capaz de se reestruturar pouco depois da queda, às custas, é claro, do suor daqueles que estão fora de cena.

Alysson Oliveira


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