Entre o Inferno e o Profundo Mar Azul

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Sinopse

Nikos é operador de rádio num navio mercante que chega ao porto de Hong Kong. A companhia dona do navio está em dificuldades e pôs a embarcação à venda. Enquanto espera a solução disso, Nikos mergulha nas cartas de uma mulher que ele deixou para trás. Sua solidão é também rompida pela garotinha Li, que insiste em prestar serviços domésticos em troca de comida.


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Crítica Cineweb

27/05/2020

Este filme esplêndido, candidato a cult, da diretora francesa Marion Hänsel, cria uma ligação entre dois seres náufragos e dá ensejo a um profundo processo de reumanização. É uma história ao mesmo tempo tão profunda e delicada, tão habilidosa no desdobramento de camadas múltiplas, que é possível recuperar a emoção original de tê-la visto uma primeira vez muitos anos depois. Foi o que me aconteceu.
 
Baseado num conto do escritor grego Nikos Kavvadias, o enredo é simples - narra o encontro entre o marinheiro greco-irlandês Nikos (Stephen Rea) e a garota chinesa Li (Ling Chu). Há uma espécie de orfandade, de desvalimento, envolvendo as duas personalidades Operador de rádio de um navio prestes a ser vendido, Nikos relê incansavelmente as cartas de uma mulher (voz de Jane Birkin) que há muito ele deixou para trás e o espera. Ele, no entanto, não consegue manter laços com ninguém. Nem mesmo seus companheiros de bordo são realmente próximos. Nikos parece apegar-se somente aos gatos que apadrinha no navio - e uma cena inicial exasperante dá conta da medida em que até este singelo afeto pode ser desafiado.
 
Enquanto o navio continua parado no porto de Hong Kong, à espera do desfecho comercial, aparece a bordo a menina Li. Carregando às costas o irmãozinho bebê, ela pede comida em troca de serviços domésticos. O capitão (Adrian Brine) e Nikos recusam, enxotam-na. Dentro de sua sabedoria, sua persistência suave, Li não faz o tipo de quem pode ser dissuadida facilmente, ainda mais porque está em questão sua sobrevivência. Cenário posto para a aproximação entre Li e Nikos.
 
Se há uma qualidade superior na forma como Marion Hänsel (corroteirista aqui, com Louis Grospierre) constroi um relacionamento está neste suceder de cenas sem muitos diálogos, em que contrapõe os sinais de um mundo sórdido e outro afetivo, capaz de sobreviver aos seus reveses. De um lado, está o rosto intenso de Stephen Rea, um verdadeiro mapa de aflições e desejos em turbilhão, e a história da família fraturada da menina, que vai sendo revelada aos poucos. De outro, estão as cartas, os gatos e a própria presença da menina e seu irmão em sua suave teimosia no direito de existir. Disso tudo emerge a troca, que surge da escuta mútua, da observação que conduz à empatia. Para Nikos, é uma jornada de reconexão. Para Li, um amadurecimento e uma lembrança.
 

Neusa Barbosa


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