A Estrada [1954]

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Crítica Cineweb

16/01/2003

O italiano Federico Fellini não negava a solidariedade pelo mais fraco nem escondia o fascínio pelo universo infantil. Em entrevista a Giovanni Grazzini, ele declarou-se arrependido por não ter feito um filme com 30 crianças de 2 e 3 anos vivendo numa casinha na periferia de Roma. Tanto a solidariedade como o espírito infantil se fundem em A Estrada (1954), seu quarto longa-metragem, vencedor do Oscar de filme estrangeiro e Leão de Prata no Festival de Veneza.

Apesar do cenário - uma Itália empobrecida após a II Guerra Mundial, com influência ainda do neo-realismo -, o filme não tem conotações políticas nem mergulha mais profundamente nos dramas sociais, o que motivou algumas polêmicas levantadas pela esquerda da época.

Gelsomina (Giulietta Masina) é vendida pela mãe, por algumas poucas liras, ao artista mambembe Zampanò (Anthony Quinn). A dupla cai na estrada, ganhando dinheiro em apresentações em pequenas cidades, nas quais Gelsomina é a responsável pelos toques de tambor e Zampanò é um arremedo de Hércules. Mas o rude Zampanò menospreza as habilidades da jovem, dorme com outras mulheres e a trata com desprezo. Ainda assim, Gelsomina se mantém fiel ao seu homem, tanto que recusa convites para trabalhar em um circo, entrar para um convento ou fugir com o equilibrista O Louco (Richard Basehart) que acaba por convencê-la de que Zampanò, no fundo, a ama.

Sobre Giulietta, sua mulher, Fellini declarou certa vez: "Ela não é um rosto que escolhi mas uma verdadeira alma dentro do filme". Ele tinha razão. A performance tragicômica da atriz evoca algo do vagabundo vivido por Charles Chaplin. O olhar infantil de Gelsomina extrai do espectador um leve mal-estar, um sentimento de culpa pela inocência traída que nos emociona e nos lança no meio do caminho entre o riso e as lágrimas.

Além de Nino Rota e sua certeira trilha sonora, outros fiéis colaboradores de Fellini trabalham em A Estrada, como os roteiristas Tullio Pinelli e Ennio Flaiano. O diretor dizia que ao lado deles não tinha a sensação de estar trabalhando e que os temperamentos dos dois eram bastante diferentes mas complementares. "Pinneli é um sério autor de peças e Flaiano, um cronista apaixonado pelos costumes italianos", declarou também a Grazzini.

Duas seqüências traduzem com maior força a beleza cinematográfica da obra: aquela em que Gelsomina encontra a procissão e aquela em que o malabarista caminha sobre a corda bamba esticada no alto de dois prédios. Mas é a riqueza humana que eleva o filme ao patamar de obra-prima. O diretor não busca a beleza ética nem estética em seus personagens. Quer, na verdade, o âmago daquelas personalidades marcadas pela incomunicabilidade mútua, o desconforto do duro Zampanò diante do amor incondicional da pura Gelsomina. O próprio Fellini desvenda sua busca em
A Estrada: "Deve haver uma maneira de melhorar a relação entre homens e mulheres".

Cineweb-17/1/2003

Luara Oliveira


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