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Theo Angelopoulos defende o “otimismo dentro da melancolia”

Publicado em 28/10/09 às 11h43

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Conhecido no Brasil por filmes como A Eternidade e Um Dia – que lhe deu a Palma de Ouro em Cannes em 1998 -, Paisagem na Neblina (88) e Um Olhar a Cada Dia (95), o cineasta grego Theo Angelopoulos veio a São Paulo como um dos principais convidados da 33ª Mostra Internacional de Cinema.

Finalmente, ele atendeu a um convite sempre renovado dos diretores da Mostra, Leon Cakoff e Renata de Almeida, que este ano concederam ao cineasta o Prêmio Humanidade – que foi dado anteriormente a Wim Wenders e Manoel de Oliveira. Angelopoulos recebeu o prêmio na noite de ontem (27-10), pouco antes da sessão de Trilogia: A Poeira do Tempo – um dos filmes inéditos no circuito comercial brasileiros que a Mostra exibe nesta que é a segunda retrospectiva do cineasta grego realizada pelo festival paulistano (a primeira foi há 13 anos).

Em entrevista ao Cineweb, o ágil e suave Angelopoulos, 74 anos, demonstra ser bem mais descontraído do que sugerem seus filmes densos e contemplativos, sempre impregnados de reflexão política e histórica. Ele conta ter ido assistir a uma roda de samba (o “Samba da Vela”, na avenida João Dias, zona sul da cidade) e prefere conversar só depois de ter se servido de um uísque com soda. Em seguida, comentou os principais temas de sua obra e como está a preparação de seu novo trabalho, a terceira parte da Trilogia, iniciada em 2004 (O Vale dos Lamentos).

Cineweb: Em todos os seus filmes, há sempre uma ligação profunda entre a História e o destino individual dos personagens. Como o sr. define esta relação?

Theo Angelopulos: A vida de todas as pessoas é condicionada pela História. Minha vida foi. Quando tinha 4 anos, havia a II Guerra Mundial. Quando tinha 9, a guerra civil na Grécia. A guerra muda toda a vida de uma pessoa, o amor, o lar, a casa. Um dia, meu pai sumiu e achávamos que ele tinha sido executado. Procurávamos o cadáver. Minha mãe me levava pela mão e o procurávamos. Numa tarde, ele voltou. Não tinha sapatos. Havia escapado e andou por três dias para voltar para casa. Então, a grande História teve muito peso na minha vida pessoal. Não tenho como fugir disso naquilo que faço. Na Europa, muitas vezes se quer esquecer a História, mas ela não nos esquece.

Cineweb: Hoje em dia, poucos cineastas seguem este seu caminho.

Theo Angelopoulos: Sim, porque as novas gerações não viveram todas estas guerras. Pensam que a História não existe. Agora, com a crise mundial, viram como isto é verdade, porque a crise pertence à grande História. É econômica, mas faz parte da História. O trabalho, as relações dentro da família, a criminalidade, tudo isto é resultado de uma crise que, como a grande História, afeta nossa vida de todas as maneiras.

Cineweb: Mas, fora da Europa, as guerras continuam a acontecer.

Theo Angelopoulos:Exatamente. Para os iranianos, os paquistaneses, os marroquinos. Recentemente, visitei um vilarejo no Afeganistão. Há milhares de pessoas que partem dali. Eles atravessam a fronteira iraniana, cruzam a Turquia. A máfia turca os joga no mar e a máfia italiana exige que paguem para escondê-los em caminhões. Nós europeus não passamos mais por essas situações, mas eles sim, vivem tudo isso. As mesmas mulheres de preto vistas em O Vale dos Lamentos estão lá hoje.

Cineweb: O sr. procura marcar a identidade da Grécia nos seus filmes?

Theo Angelopoulos: Procuro projetar uma imagem da Grécia que está de acordo com seu passado. A Grécia antiga, da filosofia, da poesia. É preciso que não se esqueça este passado. Ele existe ainda. Penso que se fosse citar apenas um livro, seria A Odisséia, de Homero.

Cineweb: Por que?

Theo Angelopoulos: A ideia de viagem que existe nos meus filmes é a mesma que existe nesse texto. É verdade que os gregos são um povo de viajantes. Eu costumava discutir com Tarkovsky (o cineasta russo Andrei Tarkovsky), porque ele insistia que a nostalgia era uma palavra russa e eu dizia que não. É grega. No final, ele concordou (riso). É uma palavra muito bela. A nostalgia é a falta de casa. A casa é onde nos sentimos em equilíbrio. A viagem é também minha casa. Outras vezes digo que as histórias que conto são minha casa. Todos os dois são pontos de equilíbrio.

Cineweb: Como o sr. cria seus roteiros?

Theo Angelopoulos: Quando viajo de carro, atravesso paisagens – eu não guio, mas vou com um amigo fotógrafo, que vem sempre comigo e não fala, isto é importante. A janela está aberta e as paisagens passam. É durante estas viagens que nascem todos os meus filmes.

Cineweb: Por que o sr. sempre filma no inverno, na chuva, na neve?

Theo Angelopoulos: Sempre comentam isso, porque a Grécia é vista como um país solar. Mas é uma paisagem interior essa que projetamos. É uma projeção de paisagens interiores. É assim que muitas vezes se transforma a realidade.

Cineweb: O sr. cria sempre personagens femininas muito fortes. Qual a sua identificação com as mulheres?

Theo Angelopoulos: É porque penso que as mulheres são mais fortes do que os homens. Eu tive uma mãe terrível, num certo sentido. Meu pai era um homem muito bom, mas tão bom que achava todo mundo maravilhoso. Então foi necessário que minha mãe lutasse. Ela conservou a família como tal e que nos ensinou a lutar. Minha avó era também uma mulher muito forte. As mulheres de minha família eram assim. Minha mulher também é muito, muito forte (risos). O Mediterrâneo é a cultura da mãe. Não só na Grécia, mas também na Itália.

Cineweb: E a terceira parte da Trilogia, o sr. já a desenvolveu?

Theo Angelopoulos: Neste momento, eu escrevo o roteiro. Mas nada está definido. Será um filme aberto ou fechado? Não sei o que vai sair. Não posso controlar. Há poucos dias, eu estava em Marselha. Havia vários jornalistas. Um deles me disse:“O senhor sabe que não temos direito de sermos pessimistas. È preciso ser otimista. É preciso crer que com o otimismo podemos avançar”. E eu disse: “Sim, amo o seu otimismo, mas prefiro a minha melancolia”. Veja a política europeia atual, com Berlusconi, Sarkozy, Merker também. Que se pode pensar? Não se pode ser muito otimista. É preciso ser otimista dentro da melancolia.

Cineweb: Mas creio que, por dentro de sua melancolia, há sempre muita esperança, não?

Theo Angelopoulos: Isto me lembra uma historinha com Michelangelo Antonioni. Ele havia feito o filme “O Grito”. Os jornalistas observaram que se tratava de um filme pessimista, que terminava com um suicídio. Ele respondeu: “Vocês tem razão, mas o fato de ter feito o filme é um fato positivo”. Penso a mesma coisa. Fazer filmes não é uma profissão, não foi jamais uma profissão, para mim, é minha vida, minha respiração. Continuar a fazer filmes é um ato positivo.

ALEXANDRE, O GRANDE (MEGALEXANDROS), de Theo Angelopoulos (210'). GRÉCIA, ITÁLIA. Falado em grego. Legendas em francês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 ANOS.

CINEMA DA VILA - 03/11/2009 - 14:00 - Sessão: 1179 (Terça)

CINEMATECA - SALA PETROBRAS - 04/11/2009 - 17:00 - Sessão: 1284 (Quarta)

O APICULTOR (O MELISSOKOMOS), de Theo Angelopoulos (120'). GRÉCIA, FRANÇA. Falado em grego, francês. Legendas em francês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 ANOS.

FAAP - 28/10/2009 - 11:00 - Sessão: 610 (Quarta)

A ETERNIDADE E UM DIA (MIA AIONIOTITA KAI MIA MERA), de Theo Angelopoulos (130'). GRÉCIA, FRANÇA, ITÁLIA. Falado em grego, inglês. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 ANOS.

CINE OLIDO - 04/11/2009 - 17:00 - Sessão: 1315 (Quarta)

PAISAGEM NA NEBLINA (TOPIO STIN OMICHLI), de Theo Angelopoulos (180'). GRÉCIA, FRANÇA, ITÁLIA. Falado em grego. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 ANOS.

MATILHA CULTURAL - 29/10/2009 - 14:00 - Sessão: 732 (Quinta)

O PASSO SUSPENSO DA CEGONHA (TO METEORO VIMA TOU PELARGOU), de Theo Angelopoulos (140'). GRÉCIA, FRANÇA, ITÁLIA, SUÍÇA. Falado em francês, inglês, grego. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 ANOS.

FAAP - 28/10/2009 - 15:00 - Sessão: 611 (Quarta)

MATILHA CULTURAL - 29/10/2009 - 17:20 - Sessão: 733 (Quinta)

TRILOGIA - O VALE DOS LAMENTOS (TRILOGIA: TO LIVADI POU DAKRYZEI), de Theo Angelopoulos (185'). GRÉCIA, FRANÇA, ITÁLIA. Falado em grego. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 ANOS.

CINEMATECA - SALA BNDES- 04/11/2009 - 14:30 - Sessão: 1281 (Quarta)

TRILOGIA II: A POEIRA DO TEMPO (I SKONI TOU HRONOU), de Theo Angelopoulos (125'). GRÉCIA, ITÁLIA, ALEMANHA, FRANÇA, RÚSSIA. Falado em inglês, russo, alemão, grego. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 ANOS.

FAAP - 28/10/2009 - 19:00 - Sessão: 612 (Quarta)

UM OLHAR A CADA DIA (TO VLEMMA TOU ODYSSEA), de Theo Angelopoulos (176'). GRÉCIA, FRANÇA, ITÁLIA, ALEMANHA. Falado em inglês, grego, búlgaro, albanês, sérvio, romeno. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 ANOS.

HSBC BELAS ARTES - SALA 2 - 04/11/2009 - 14:00 - Sessão: 1310 (Quarta)

Neusa Barbosa


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