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O aprendizado da delicadeza em “A Família Dionti”

Publicado em 17/09/15 às 15h26

 Primeiro longa da competição em Brasília, A Família Dionti, de Allan Minas,  adentrou um território que mistura poesia, realismo mágico, cultura popular e o universo adolescente, ainda que não seja, a rigor, um filme voltado exclusivamente ao público infanto-juvenil.
As admirações literárias deste diretor carioca de primeira viagem na ficção (em 2010, realizou o documentário A Morte Inventada) saltam aos olhos a cada passo, tanto no desenrolar do roteiro, de sua autoria – e Minas também é escritor – como nas inspirações poéticas visíveis nos diálogos, de Manoel de Barros a Guimarães Rosa.
Filmado ao redor de Cataguases (MG), lugar mítico na história do cinema nacional por conta do pioneiro Humberto Mauro, A Família Dionti tem nos seus protagonistas adolescentes, talentos locais, um de seus trunfos: Murilo Quirino (Kelton), Bernardo Santos (Serino) e Anna Luiza Paes (Sofia). Em torno deles, talentos refinados, como Antonio Edson, do grupo Galpão, Gero Camilo, Bia Bedran, Fernando Bohrer e Neila Tavares.
 
 Produzido a partir de um edital carioca de baixíssimo orçamento (R$ 400.000,00), o filme viabilizou-se a partir de uma série de apoios fundamentais, como o do Polo da Zona da Mata mineira, da universidade inglesa National Film and Television, que participou da finalização e efeitos especiais, e de um fundo latino do Festival de Tribeca, Nova York, que rendeu uma soma adicional de US$ 10.000.
Saindo desse desafio econômico, o filme revela uma aposta na “diversidade”, palavra usada pelo diretor no debate de hoje, sobre como será o trânsito desta história junto a uma plateia adolescente urbana, fixada em telas de celulares e computadores e dominada e dominante na internet – este, um universo ausente da história, ambientada no sertão mineiro, em torno de uma família formada por Josué (Antonio Edson), pai que cria sozinho dois filhos adolescentes, Kelton e Serino, depois que a mulher literalmente evaporou, como água, como uma nuvem. Um destino insólito que ameaça colher também o filho caçula, Kelton, quando este se apaixona por uma jovem forasteira, Sofia.
 
 Despertar a fantasia
Para o diretor, a história pode se comunicar justamente por “resvalar para o imaginário coletivo”, onde se misturam referências como Mazzaropi, a roça, o realismo mágico. Tudo isso, para o diretor de arte do filme, Oswaldo Lioi, também não dista tanto assim da realidade, pelo contrário. “Esse lugarejo que mostramos no filme existe mesmo, desse jeito. Inclusive há cenários, como o armazém, que nós nem tivemos que mudar quase nada”.
Com referências cinematográficas que passam por Marcelo Gomes e Abbas Kiarostami, Allan Minas (nome real) também simpatiza com a ideia da “incompletude”. “Quando a gente compõe um quadro, mostra uma coisa, mas algo fica de fora, solicitando que o espectador complete”. Sem dúvida, o mais importante será acionar os sentimentos da plateia que, na sessão de ontem (16), mostrou-se muito receptiva ao filme. De repente, A Família Dionti pode ser um estímulo para redespertar um sentimento muito aviltado nos tempos de hoje, o de compartilhar a delicadeza.
 
Curtas
Embora tendo crianças em suas histórias, os dois curtas da competição, ambos paulistas, flertaram com o filme de gênero e mais no terreno dramático ou de terror.
O primeiro, Command Action, de João Paulo Miranda Maria, que teve sua première mundial na Semana da Crítica de Cannes, focaliza uma feira livre, visitada por um menino (David Martins), que deve comprar comida, mas é distraído de sua missão por diversos personagens conhecidos ou não, levando a uma virada na trama. Todo o curta é conduzido por um estranhamento, que decorre da opção de criar um som contrastante ou fora de quadro, um trabalho bastante eficiente do sonoplasta Léo Bortolin.
O segundo, À Parte do Inferno, de Raul Arthuso, mergulha no terror a partir do aparecimento de uma mancha no armário da casa de uma família de classe média de São Paulo, que começa a crescer e mostra uma comunicação telepática com diversos sem-teto, que se reúnem diante do local. A afinidade com filmes como Trabalhar Cansa e mesmo O Som ao Redor, salientada no debate, foi assim comentada pelo diretor, que também é roteirista e crítico: “O filme partiu desta crise das grandes cidades, que não é só paulista. Vários filmes estão respondendo a estes conflitos urbanos”.

Neusa Barbosa, de Brasília


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