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Pedro Morelli e elenco comentam processo criativo de “Zoom”

Publicado em 31/03/16 s 15h35

Por Nayara Reynaud
 
Quando o produtor canadense-israelense Niv Fichman convidou, cinco anos atrás, um rapaz que conhecera como assistente de direção durante as gravações de Ensaio Sobre a Cegueira (2008) para criar um filme inventivo, talvez não imaginasse que Pedro Morelli levasse tão ao pé da letra o pedido de fazer “algo original”. O que o filho de Paulo Morelli lhe entregou foi um exercício estilístico de metalinguagem em seu primeiro longa solo, a coprodução Brasil-Canadá Zoom – antes, havia codirigido o drama Entre Nós (2013) com o pai.
 
“Ter três histórias é praticamente ter três filmes e eu tinha que orquestrar essas três para fazer sentido”, conta o jovem cineasta, que afirma que a ideia era não ter uma unidade entre os segmentos, para que fossem independentes. Por ser um multiplot (tramas múltiplas), ele ainda precisou focar nos protagonistas de cada trama, sem muitos floreios, “e sempre que possível fazer a interação entre as histórias acontecer; fazer um personagem influenciar na história do outro, porque essa é a graça do filme: como quem brinca com uma boneca vodu fica mudando o destino do outro personagem”, reforça.
 

 

E se cada segmento apresenta estéticas diferentes, com a “coisa mais indie, a câmera travada, tudo simétrico e o acting mais duro” da parte da Emma – designer e quadrinista interpretada pela canadense Alison Pill –, e a suposição do que o Edward – cineasta vivido pelo mexicano Gael García Bernal – faria em seu filme de arte over, conforme destaca Pedro, o maior desafio para ele foi a animação.

 

 

 

Classificando como surreal o trabalho realizado por cinco meses, com 25 ilustradores e mais de 20 mil frames, as gravações realizadas em 8 das 26 diárias totais tiveram suas peculiaridades. No cenário, todo cinza, havia só alguns objetos de referência para os atores, que tinham dificuldades para entender as direções. Gael, por exemplo, escolhido por ter “traços identificáveis” quando animado, queria saber para que lado ficava o mar, relembra o diretor.
 
Apesar de ter levado em conta o israelense Valsa com Bashir (Ari Folman, 2008), o tcheco Alois Nebel (Tomás Lunák, 2011), e o norte-americano O Homem Duplo (Richard Linklater, 2006), é Waking Life (também deste último, 2001) que realmente serviu de referência. Apesar do processo e do estilo parecidos, a equipe da produção de Linklater desenhou quase todos os frames, pois desenvolveram um software que ligava alguns quadros, enquanto os brasileiros fizeram “todos os frames, para passar a sensação de ser feito à mão”, explica Morelli, que fez questão do traço mais solto por se tratar de um quadrinho. No entanto, quando perguntado se faria uma nova animação, ele afirmou que não: na próxima, prefere filmar só “atores conversando numa sala, plano e contraplano”, disse rindo.
 
Experiências internacionais
Um dos segmentos de Zoom acompanha a modelo Michelle, vivida por Mariana Ximenes, que tenta se tornar uma escritora e volta ao Brasil para buscar inspiração para seu livro. As sequências rodadas em Trindade, vila de Paraty, no Rio de Janeiro, foram proveitosas para Jason Priestley. Na pele do marido ciumento da pretensa romancista, o astro da série Barrados no Baile (1990-2000) realça que o tempo passado na locação foi incrível, pois “parecia muito real, muito autêntico” o que encenavam ali.
 
Da mesma maneira, a atriz brasileira considera muito enriquecedora a experiência de trabalhar com um elenco e uma equipe de várias nacionalidades como a que encontrou nas gravações no Canadá. O desafio para ela foi, contudo, o de atuar em outra língua. “É outro raciocínio quando você vai para o inglês, porque falar é uma coisa, mas interpretar...”, diferencia Ximenes, que teve o auxílio de uma coach aqui no Brasil e outra lá. Além disso, o elenco fez um laboratório com a famosa preparadora Fátima Toledo, no qual, segundo Claudia Ohana que encarna a selvagem Alice, a dona da pousada local, “o Pedro pediu que [o trabalho] fosse o mais natural possível”.
 
Para o diretor era necessário um elenco inteligente para entender a ironia do longa, especialmente as variações da história. “Meu personagem muda de um marido ciumento para um cara mau de filme de ação”, explica Priestley, que se surpreendeu ao ler o roteiro por ser diferente de tudo que já tinha feito: “[é] divertido, esperto; um discurso real sobre a nossa sociedade hoje, padrões de beleza, mídia, cinema”. Morelli acrescenta à visão do ator canadense o fato que a premissa para todas as tramas era justamente a da perda da própria identidade, por conta desses padrões. “Todas as personagens são marionetes e vítimas dessa sociedade em que todos têm de ser perfeitos; todos são controlados, assim como nós”, declara.
 
Por isso, o jovem cineasta acredita que o momento da produção nacional permite essa liberdade de brincar com os gêneros, mesmo com a produtora Andrea Barata Ribeiro considerando que é mais difícil “fazer o público ir ao cinema, ver algo mais sofisticado, diferente do feijão com arroz atual”. De qualquer modo, o diretor tem sentido uma boa resposta da plateia jovem nas exibições em festivais, como o de Toronto e a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no ano passado. Espera-se o mesmo com a estreia comercial no Brasil nesta quinta (31-3) e o lançamento conjunto nos cinemas e em home vídeo nos Estados Unidos e Canadá no verão de lá, entre julho e agosto – Europa e Ásia devem vir na sequência.
 
No entanto, nenhum espectador será mais importante para Pedro Morelli do que foi David Bowie. Poucas semanas antes da mixagem do filme, a equipe tentava comprar os direitos autorais da música Oh! You Pretty Things do astro inglês – morto em 10 de janeiro deste ano –, mas não tinha dinheiro suficiente. “Até que mandaram o filme pro David Bowie, ele assistiu, gostou e liberou pela grana que a gente tinha, que era cinco vezes menos. E isso foi a coisa mais gratificante de todas até agora”, relembra orgulhoso o diretor fã do cantor.

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