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Diretor e elenco comentam produção de "O Escaravelho do Diabo"

Publicado em 15/04/16 s 10h21

Por Nayara Reynaud
 
Foi na escola, entre seus 12 e 13 anos, que Carlo Milani leu O Escaravelho do Diabo e se encantou pela história. Seria uma história como a de milhares de leitores do título mais famoso da célebre coleção Vaga-Lume, cujos livros fizeram parte da vida de gerações de estudantes brasileiros, se, décadas depois, este menino não tornasse a trama que tanto o fisgou em filme. “A família da autora foi nossa parceira”, revela o diretor de TV estreante em longas, que, há 12 anos, obteve os direitos de adaptação da obra dos parentes da mineira Lúcia Machado de Almeida (1910-2005), fácil e improvavelmente, com um “contrato de boca” e sem nenhum dinheiro inicial.
 
Durante todo o tempo de desenvolvimento do projeto, os desafios de O Escaravelho do Diabo (2016) ficaram claros, em especial sua tarefa de contemplar os leitores da época do lançamento dos contos folhetinescos na revista O Cruzeiro, em 1953, e da publicação do livro, em 1972, além de agradar ao público de hoje.
 
A principal consequência disso foi a mudança de perspectiva do protagonista, antes um estudante universitário de medicina, para um Alberto Maltese pré-adolescente, da mesma idade de Carlo quando conhecera a obra. “Para atualizar e lançar mãos dos gadgets, com o nível de envolvimento que ele tem na investigação, nos pareceu mais interessante que fosse um menino e não um adulto”, justifica o cineasta novato, que, por conta disso, teve de dobrar a atenção para evitar uma classificação indicativa maior que 12 anos, até porque o garoto vê uma cena de assassinato logo na primeira virada do filme. Ainda assim, ele fez questão de assumir a essência de suspense da história como carro-chefe de seu trabalho, pois via um nicho a ser explorado, já que, em sua opinião, Meu Tio Matou um Cara (2004) é o mais próximo que o gênero se aproximou do público infanto-juvenil.
 
Para a produtora Sara Silveira, que foi durante anos braço direito de Carlão, o falecido cineasta Carlos Reichenbach (1945-2012), o projeto foi a oportunidade de fazer “seu primeiro filme de público” e de produzir “obras mais próximas de cooperar com um Brasil melhor”, atentas às suas novas preocupações com a educação. Por isso, ela e seu novo parceiro, Milani, acreditam que assuntos discutidos em segundo plano pelo longa, como a questão do bullying, possam ser abordados por professores em sala de aula.
 
Esse tema, aliás, é o que mais chama a atenção de Thiago Rosseti, ator de 13 anos que estrela seu primeiro longa, logo como protagonista aqui. Em uma seleção de 50 meninos, o diretor viu algo de especial no garoto com experiência em comerciais e alguns curtas e participações em novelas na carreira. Surpreendentemente, o diretor comenta brincando: “Esse era o ruim. Tinha dois [atores na etapa final do casting] muito bons, mas falei que era esse moleque errado que ia dar certo”. Carlo preferiu que o menino não lesse o livro para não influenciá-lo na composição de seu personagem, ainda mais pela alteração de idade de Alberto.
 
Thiago, no entanto, não precisou buscar muito para construir seu protagonista. “Quando eu era menor do que hoje, eu tinha essas características de ser agitado e inquieto”, relembra o agora adolescente, cuja energia se reflete em suas referências – adora Paul Walker e Vin Diesel por causa da série Velozes e Furiosos, que já assistiu umas 50 vezes com o irmão – e suas lembranças do set. Divertiu-se ao ter de desmaiar e andar de moto em cena, mas sentiu realmente medo nas sequências da morte do irmão e na briga com ele. O amadurecimento veio do aprendizado com um colega de elenco muito especial: “Ele me ensinou muita coisa que vou levar para o resto da vida”, diz o garoto agradecido pela ajuda de Marcos Caruso, que interpreta o delegado Pimentel, em suas cenas de tensão.
 
O veterano, por sua vez, adorou trabalhar com o novato. “Se eu tenho 43 anos de profissão, ele tem 43 dias”, diz Caruso ao destacar o quanto a inexperiência do menino contribuiu para que os dois desenvolvessem as cenas com um frescor na hora da gravação, já que, além de também não ter lido o livro, afirma ter uma criança dentro de si. Para quem sempre esteve com o público infantil ao iniciar novas etapas de sua carreira, seja atuando ou escrevendo no teatro ou na televisão, este é um trabalho que o enriquece. “A criança me desestabiliza e me faz crescer como artista, porque ela não tem muletas, vícios e, principalmente, autocensura; é espontânea”, assinala Caruso.
 
Com um personagem em mãos que descobre ser acometido por uma grave doença – demência com corpos de Lewy, cujos sintomas se assemelham ao mal de Alzheimer e de Parkinson –, o ator ressalta a sua escolha de não abusar do peso dramático da situação como algo habitual. “Sempre trabalho o drama com a chave da comédia e, na comédia, com a chave do drama”, afirma Caruso, que se interessou pelo projeto justamente pela união de gêneros em um longa para jovens.
 
A produção também foi bem recebida pela população e as autoridades das cidades do interior paulista onde gravou, como Amparo, Holambra, Jaguariúna, Campinas e Monte Alegre do Sul. Nesta última, Carlo se alegra por ter tido o aval de um “padre cabeça aberta” que permitiu as filmagens da cena de incêndio em uma pequena igreja local. Contudo, as dificuldades de captação que enfrentou em seu primeiro filme o fazem cogitar apenas uma colaboração em outros projetos da coleção Vaga-Lume, talvez produzindo uma versão de O Caso da Borboleta Atíria, outra história da mesma autora que ele vislumbra em forma de animação. Mas não demora muito para o diretor admitir. “Eu queria muito filmar O Mistério do Cinco Estrelas [de Marcos Rey]” diz rindo Milani, sem ver a hora de levar as leituras de sua infância para as telas.

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