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Próximo das Paraolimpíadas, documentário “Paratodos” aposta em esporte e cinema acessíveis

Publicado em 24/06/16 s 18h42

Por Nayara Reynaud
 
“Praticamente, eu só treino, como e durmo, mas vai valer a pena”. A bem-humorada afirmação é de Terezinha Guilhermina, velocista que ganhou, em Londres, duas de suas três medalhas de ouro e considera estar mais preparada para 2016 do que quatro anos atrás, para fazer uma festa “mais bonita e colorida”, diz a atleta com suas unhas pintadas e mechas rosa no cabelo. O canoísta Fernando Rufino, mais conhecido pelo apelido de Cowboy, brinca que ela corre tanto que não conseguiria alcançá-la nem a cavalo. Paramentado de chapéu e tocando seu berrante, o tipo engraçado, que levou a dourada em Guadalajara em 2011, também relata o duro treinamento que o fez até perder o fôlego um dia desses.
 
Se você está tentando se lembrar de suas vitórias no atletismo e na canoagem das últimas Olimpíadas e Pan-Americano, respectivamente, vale ressaltar que falta um prefixo em algumas palavras que podem esclarecer sua memória, mas que não mudam o empenho e a rotina desses esportistas em relação aos outros: para. A tricampeã paraolímpica e o medalhista parapan-americano são alguns dos personagens de Paratodos, novo documentário de Marcelo Mesquita que revela o dia-a-dia daqueles que fazem do Brasil a sétima potência mundial paraolímpica, mesmo sendo o 72º país no Índice de Desenvolvimento Humano.
 
Por isso, a equipe da produção repetiu diversas vezes, durante a coletiva de lançamento do longa (na sexta, 17), que eles fazem parte do país que dá certo, que serve de bom exemplo. “Eles saíram do treinamento de manhã e vieram aqui para divulgar o filme”, relata o diretor sobre o comprometimento dos atletas, como a nadadora Suzana Schrnardof, que após conseguir baixar de classe por causa do avanço de sua doença degenerativa, conseguiu a tão sonhada vaga olímpica. “Eu sou uma pessoa muito obcecada por treino e o filme [do qual ela mal conseguiu ver a sua parte, de tão emocionada] mostra a nossa luta para chegar aos Jogos”, ela confessa, sendo seguida por Alan Fonteles, que até ficou com a visão turva pela intensidade da preparação: “A grande visibilidade que o filme vai dar é [mostrar] que esporte paraolímpico não tem coitadinho não, é esporte de alto rendimento”.
 
Aliás, foi a espetacular conquista do velocista brasileiro biamputado em Londres que inspirou o documentário. “Eu, particularmente, sou um fanático por esportes. Acompanho e tentei ser um esportista na vida. Venho de uma família que teve tenista profissional, mas nunca tive talento. Acabei no cinema”, confessa Mesquita ao explicar que, apesar de já ter ouvido falar, foi apenas em 2012 que assistiu às Paraolimpíadas pela primeira vez. Surpreso pelo tamanho do público na final dos 200m rasos e pela informação de que alguns atletas estavam a um segundo de Usain Bolt em seus tempos, o que mais chamou a atenção do cineasta e “está na primeira cena do filme foi a narração da prova, porque o locutor estava dizendo que ‘agora a gente vai ver o maior da história’ e aí de repente um brasileiro desbancou [o sul-africano Oscar Pistorius]”.
 
A façanha foi o estopim para que Marcelo começasse a pesquisar e decidisse realizar este trabalho de observação de vários atletas. “Eu e o Pepe [Sifreddi] temos o problema de iniciar os filmes sem saber se dá certo”, ele reconhece, descrevendo sua parceria intuitiva e exploradora com o roteirista, com o qual realizou Cidade Cinza (2013) e o auxiliou a fazer A Viagem de Yoani (2015), e as grandes proporções que o projeto ganhou nas gravações. “Quando a gente começou a filmar o Alan, ele estava no auge, depois quis tirar um ano sabático e acompanhamos toda a sua recuperação”, revela o diretor, que também descobriu o problema da classificação errônea acompanhando o tetracampeão mundial de paracanoagem Fernando Fernandes, assim como novos personagens, a exemplo de Cowboy e Susana.
 
“A gente escolheu filmar em competição”, atesta Mesquita, que driblou o orçamento justo, viajando com uma equipe de apenas quatro pessoas por vários países, a fim de acompanhá-las nesta narrativa, organizada em oito meses de montagem, que abre em Londres, em 2012, e termina em uma competição no Rio, às vésperas dos Jogos de 2016, em segmentos episódicos que têm a natureza de contos morais mistos de humor e carga dramática. Se nas gravações nos treinamentos a equipe poderia investir mais em estética, a preocupação maior durante as provas e jogos oficiais era não atrapalhar o atleta, embora alguns, como Cowboy, tenham utilizado a presença da câmera como forma de apurar a tão necessária concentração.
 
Por isso, o cineasta faz questão de frisar a importância de mostrá-los nas vitórias e nas derrotas. “Para mim, a beleza do filme é ver como eles reagem de forma humana. Com cinco minutos você para de olhar para a deficiência e passa a olhar a pessoa”, ressalta. Para a deficiente visual Teresinha, que também é psicóloga e faz curso de coaching esportivo, o projeto oferece uma oportunidade para os pais verem que seus filhos podem enfrentar suas deficiências levando uma vida como qualquer outra. O roteirista recorda uma declaração do agente da velocista, de que eles são e não são super-heróis, pois ao serem simplesmente pessoas normais, servem de espelho para aqueles que não enfrentam as mesmas dificuldades.
 
Assim, a ideia da produção é transcender o universo do documentário, algo já iniciado com “Um Dia Paratodos”, uma pré-estreia especial realizada em sete cidades brasileiras na terça (21), a preço de meia-entrada, e que pretende ser ampliado com sua exibição em escolas públicas. “Se a gente vai falar de inclusão, vamos falar do início, na educação. Você anda de cadeira de rodas na Paulista, mas tenta descer uma quadra; isso na maior cidade do país. Não é só uma rampa”, critica o diretor do longa, que está em negociação para ser comercializado em dois grandes canais de TV aberta.
 
Além disso, em todas as sessões no cinema, as cópias contam com todos os recursos de acessibilidade. O conteúdo está disponível no aplicativo Whatscine, que o público pode baixar através de instruções dadas nas redes sociais do projeto, em que é possível escolher entre audiodescrição, libras, linguagem de sinais e legendagem.
 

Nayara Reynaud

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