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O som do silêncio no cinema de Marco Dutra

Publicado em 23/09/16 s 15h48

 “Uma das coisas legais de vir ao cinema e ver um filme numa sala boa é a experiência sensorial, e o som é parte dessa experiência”, justifica o cineasta Marco Dutra (foto ao lado) sobre a importância do som em nas suas obras, como visto, ou melhor, ouvido no novo O Silêncio do Céu. E Rodrigo Fonseca, da RT Features, conhece bem a sua dedicação nesse quesito, desde Quando Eu Era Vivo (2014), que também produziu. “O Marco é meticuloso na pós-produção. Ele dá muito trabalho pra gente como produtor, no bom sentido”, brinca, depois de tecer vários elogios ao diretor durante entrevista coletiva.
 
 Atuando desde Trabalhar Cansa (2011) com a mesma equipe de edição da Confraria de Som & Charutos, do seu amigo de faculdade Daniel Turini e de Fernando Henna – seu début, codirigido com Juliana Rojas –, Dutra teve liberdade de explorar ainda mais o desenho sonoro, especialmente na caracterização dos veículos de cada personagem. “Quando eu falava do som dos carros, eles entendiam também. Cada um tinha que ter uma personalidade. O mais difícil foi o do Néstor [a caminhonete], porque era o mais dramático. E o som desse motor é uma combinação de vários motores – se não me engano, seis –, que eles gravaram produziram para chegar a uma combinação com uma presença cênica muito boa. Depois, na mixagem, ficou mais divertido ainda escolher de onde você vai ouvir”, detalha.
 
O trabalho de som, premiado no último Festival de Gramado, destaca igualmente o silêncio do título, o que fez até o realizador optar por retirar da montagem final a trilha orquestrada, que estará disponível em serviços de streaming, e investir “na ideia do silêncio mesmo, dos sons do universo, da casa, do viveiro, das vozes em over,  do que estava de fato em cena e não em uma orquestra que vinha de Deus”. Do trabalho dos compositores Guilherme e Gustavo Garbato restaram algumas músicas pontuais, como a versão de Corcovado, que toca no rádio.
 
Porém, a canção de Tom Jobim também é cantada pelos protagonistas, por “culpa” de seus intérpretes. Carolina Dieckmann e Leonardo Sbaraglia sempre a cantarolavam nos intervalos das filmagens, e o ator argentino queria cantá-la em português. Em uma diária com “tempo de sobra”, o diretor inventou a cena com a música, como um “acesso a outro tempo desse casal”. E à intimidade dos dois, que não é vista no filme, muito focado na crise de ambos, que culmina com o estupro de Diana, sobre o qual eles preferem se calar.
 
Conexão Brasil-Uruguai
Quando Fonseca diz que Marco é um diretor múltiplo, pois vai do desenvolvimento à pós-produção, não está só rasgando seda, como se diz. O cineasta realmente gosta de se envolver nas várias etapas do trabalho, exceto agora que abriu mão de escrever o roteiro, que ficou a cargo dos argentinos Lucía Puenzo e Sergio Bizzio, autor do livro Era el Cielo, no qual a produção é baseada, e do capixaba Caetano Gotardo. “Foi uma troca muito intensa entre Lucía, Sergio e Caetano. Eu supervisionei tudo e pude me colocar com firmeza nesse filme; não me senti fora nunca”, afirma, frisando que, por não ter a responsabilidade do crédito, possuía uma frieza analítica para ver o texto.
 
Aliás, a entrada do roteirista brasileiro se deu quando se cogitava filmar O Silêncio do Céu no Brasil, com o personagem de Sbaraglia sendo o estrangeiro, ideia depois abandonada. “Mudamos por questões de produção e acho que foi uma decisão bem feliz fazer este filme no Uruguai, em língua espanhola,” considera Rodrigo. Ele diz que o agente de vendas via um futuro maior para o longa se os diálogos fossem em inglês – por sinal, o filme já está garantido no catálogo do Netflix.
 
Caroline Dieckmann entrou no projeto quando se pensou em rodar o filme no Brasil. O produtor considera muito positivo o fato de ela não ter se assustado com a mudança de idioma e, principalmente, em participar da complicada cena inicial, a do estupro.
 
Carolina revela que a maior dificuldade de atuar em outro idioma foi encontrar o tom natural, principalmente com o espanhol, com acento “cantado”. “Minha personagem era totalmente introspectiva e não me permitia ter esse acento. Foi um trabalho minucioso para que eu não ficasse na mão na hora de filmar, mas eu gostei [risos]”, relembra. O colega argentino afirma estar “muito contente por entrar no mercado brasileiro com O Hipnotizador [a série da HBO, onde trabalhou, em parte, com a mesma equipe] e O Silêncio do Céu.”
 
Paula Cohen, por sua vez, diz que essa coprodução latina lhe foi muito familiar. A atriz, que interpreta Elisa, a amiga da protagonista, possui dupla nacionalidade por ter pais uruguaios, mas ter nascido em plena avenida Paulista e se criado em São Paulo. “Fazer esse filme foi um presente delicioso, por poder ir para o Uruguai e contracenar com artistas de lá”, conta. O elenco multinacional também inclui o filho do astro argentino Ricardo Darín, Chino Darín, e os uruguaios Alvaro Armand Ugon,  o ator, dramaturgo e diretor de teatro Roberto Suárez e Mirella Pascual, de quem é fã desde Whisky (2004).
 
 A composição dos personagens foi só uma das preocupações de Marco, que também se dedicou a estruturar a narrativa levando em conta dois pontos de vista, o da Diana e do Mario, até na encenação. “A questão do ponto de vista era fundamental pra mim, para esse filme fazer sentido, porque os dois estão vivendo uma situação de trauma.Mas não é o mesmo trauma, apesar de ser ao redor do mesmo evento: a consequência não é a mesma para os dois”, ressalta o cineasta. Ele revelou ainda a importância dos signos visuais: o cacto como “símbolo fálico espinhudo” e a “pedra no meio da mesa da qual ninguém nunca fala”.
 
Ecos dos silêncios
Foi Caetano Gotardo quem trouxe, indiretamente, o nome brasileiro do filme no diálogo final. “A questão é que ‘Era o Céu’ [tradução literal do livro], para todos nós, não parecia o título correto em português; intuitivamente, a gente achava isto, por causa da sonoridade. (...) A gente começou a falar sobre as possibilidades de título, surgiram várias ideias e ganhou O Silêncio do Céu, porque a palavra silêncio para o filme é tão importante”.
 
O silêncio está em Diana, assim como em Mario, e justificá-lo, segundo Sbaraglia, foi a parte mais difícil do papel. Essa preocupação vinha do fato de o protagonista ser muito bem descrito no livro, em todas as fobias que o impediam de agir, especialmente no momento do estupro. “Aí está a grande dificuldade de passar o que está muito bem contado em uma novela para a linguagem cinematográfica”, pontua Leonardo.
 
Esse crítico ponto silencioso em uma relação era a premissa da história quando Fonseca comprou os direitos do livro, em que viu reflexos pessoais em sua própria vida. Mas o produtor sabe que o filme vai ganhar outro tipo de dimensão no Brasil de hoje, por conta da discussão sobre a violência contra a mulher.
 
Carolina comenta o desafio da forte cena inicial, que ela pretendia interpretar apenas no final das filmagens para conseguir um clima de mais intimidade com a equipe e por conta da nudez. Mas filmar a cena logo no início acabou ajudando no decorrer das gravações, criando uma conexão emocional entre todos. “Eu vejo essa cena com muita alegria, desde que li o roteiro, na primeira conversa que tive com o Rodrigo e o Marco, e vendo hoje como ela foi tratada. Apesar de ter sido uma cena dura e triste, tenho muito orgulho de tudo o que se refere a ela”, observa Dieckmann.

Nayara Reynaud


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