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Werner Herzog faz conferência em São Paulo

Publicado em 26/09/19 às 19h43

Quem teve o privilégio de assistir à conferência de Werner Herzog em São Paulo  na quarta (25-9), no programa Fronteiras do `Pensamento, compartilhou uma noite iluminada, em que o celebrado diretor de Coração de Cristal, O Enigma de Kaspar Hauser, Nosferatu - O Vampiro da Noite e A Caverna dos Sonhos Esquecidos esbanjou vitalidade e pensamento crítico a respeito de muito mais do que cinema. A mediação foi da também cineasta Anna Muylaert. 
 
A Amazônia ocupa um espaço especial na vida de quem, como ele, realizou dois filmes na região: Aguirre - A Cólera dos Deuses e Fitzcarraldo. Herzog diz que a Amazônia “é onde está um pedaço do meu coração”. Manifesta o desejo de voltar para lá e fazendo mais um filme. Não conta os detalhes, porque ainda não está tudo acertado.
 
Em uma hora e meia, o enérgico homem de 77 anos que apenas em  2019 lançou três filmes - os documentários Meeting Gorbachev (exibido no Festival É Tudo Verdade), In the Footsteps of Bruce Chatwin e a ficção Family Romance, LLC - manifesta uma inesperada admiração por Fred Astaire. Em seguida, mostra um trecho de filme em que o ator/dançarino sintetiza a essência do cinema somando luz, sombra, música e movimento. Nem por isso, é um saudosista, mostrando-se conectado à era da internet. Já fez um filme para o Youtube (“From one second to the next”, parte de uma campanha para evitar acidentes na direção por causa do celular), assiste muitos filmes em streaming e, em sua bissexta porém marcante carreira de ator, estrelou The Mandalorian, série live action da marca Star Warsque estreia em novembro no streaming da Disney. 
 
Sua relação com a tecnologia, no entanto, tem nuances. Até hoje, ele não se convenceu a ter um celular, embora alegue razões culturais. “Prefiro os contatos diretos”, alega. Para Herzog, aliás, nosso século “verá a falência das utopias tecnológicas”, querendo com isso dizer que a tecnologia não resolverá, a seu ver, dilemas cruciais como a morte nem mesmo sua sobrevivência em Marte. 
 
Isso não quer dizer, porém, que não se deva aderir imediatamente à melhoria do planeta sem esperar pelos políticos, restringindo o consumismo e o desperdício de alimentos - que ele afirma ser de 45% de tudo o que se produz nos EUA. Voltando à Amazônia, mesmo perguntado sobre qual o caminho a tomar diante do avanço das queimadas, ele se recusa a dar lições. “A Alemanha, a França, a Polônia, todos queimaram suas florestas. Meu país veio queimando suas florestas desde a Idade Média, para dar lugar a pastos e à produção de grãos. Não posso vir aqui, imperialisticamente, dizer o que o Brasil deve fazer com suas florestas. Mas, evidentemente, essa destruição me entristece”.
 
Uma pergunta sobre fake news o leva a dar outra volta no tempo. “Isso não tem nada de novo, existe desde o tempo dos egípcios, quando deixavam escritos nas tumbas os feitos altamente exagerados dos faraós. O que temos que fazer é nos tornar espertos para detetar as fake news na internet”.
 
Retomando o cinema, ele defende a invenção ou recriação mesmo em se tratando de documentários, que têm sido mais a sua praia nos últimos anos.Para ele, usar certas estilizações no cinema não-ficcional corresponde a um esforço para trazer o espectador mais para perto do que ele chama de “êxtase da verdade”, levando o público a ver o filme num nível mais profundo. Se você o diz, Werner, está falado. E volte sempre!

Neusa Barbosa


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