A Mostra de cada um
50 anos se passaram e a Mostra Internacional de São Paulo continua por aqui, firme e forte. Mudou de endereço e de tamanho mas sobrevive nas memórias que tenho da minha própria vida.
Descobri a Mostra no final dos anos 1970, nem creio que na primeira edição, quando ela ainda se realizava no auditório do MASP, com duas dezenas de filmes – todos inéditos por aqui e muito disputados. Uma das imagens mais marcantes na cidade, naquela altura, eram as filas enormes nas ladeiras em torno do MASP – aquelas filas que rendiam, como até hoje, conversas infinitas sobre os filmes e também sobre a política. Naquela época, se falava muito sobre uma ditadura que se encaminhava para o fim mas ainda pesava sobre nós, dificultando a chegada dos filmes, assim como a alfândega, naqueles dias pré-digitais, censurando sessões e interrompendo o festival, como aconteceu em 1984.
Nesses primeiros anos artesanais, aconteciam situações de sessões com filmes de rolos trocados – o rolo final passando no meio, seguido do intermediário, fazendo o público hesitar se tinha presenciado um erro ou se não havia captado uma habilidosa ousadia de montagem. Também acontecia de alguns filmes chegarem sem legendas, com línguas menos conhecidas, como o romeno. Aliás, foi na Mostra que descobri esse cinema que nos deu a conhecer Radu Mihaileanu ( e seu incrível O Trem da Vida), Cristi Puiu, Radu Jude, Cristian Mungiu e outros. Assim como o cinema iraniano, que chegou por aqui trazido por Leon Cakoff, que nos apresentou a família Makhmalbaf. Depois viriam Abbas Kiarostami, Jafar Panahi, Bohman Gohbadi e tantos outros.
Com a Mostra aprendemos uma globalização que se enraizava na cultura e não na economia e nos ensinava a conjugar uma diversidade de olhares que, não raro, nos aturdia. Saíamos do cinema sem entender claramente tudo o que havíamos visto, mas era uma incompreensão muito empolgante.
Lembro ainda do impacto que senti ao assistir Stalker, de Andrei Tarkovsky (1979), uma jornada existencial num ambiente de ficção científica que nunca mais deixou de me impressionar. Da mesma forma, Convite à Viagem, filme de Peter del Monte que ganhou o prêmio de público da 6ª Mostra, em 1982, e me deixou aturdida, sem fôlego, com sua fascinante história de dois irmãos incestuosos. O que era aquilo?
Também na Mostra descobri Marion Hänsel e seu hipnotizante Entre o Inferno e o Profundo Mar Azul (1995). Mais tarde, tive a oportunidade de conhecer pessoalmente a adorável Marion numa das Mostras, assim como Theo Angelopoulos, um intelectual poético, de quem nunca esquecerei o sublime A Eternidade e um Dia.
Outro desses encontros que tive foi com Wim Wenders, que proporcionou à Mostra um de seus maiores cults, com a exibição, em 1988, de Asas do Desejo – um sucesso mundial cuja cópia, uma das poucas disponíveis no mundo, chegou à sala minutos antes do horário da sessão, depois de uma tumultuado epopéia no transporte internacional.
E como esquecer Manoel de Oliveira, o mestre português cuja grandeza e versatilidade descobri com outro choque, Os Canibais (1988), prosseguindo com Non, ou a Vã Glória de Mandar (1990), e cuja obra extensa e singular nunca mais deixou de me fascinar?
A Mostra atravessou tudo, a escassez de recursos, driblada com a energia de seus organizadores, a batalha com a censura do período militar, os percalços de um país em que a cultura tem que assumir um caráter guerrilheiro para se manter. Felizmente, ganhou um patrocínio mais efetivo com a Petrobras, que esperemos não seja novamente perturbado por nenhuma mudança política hostil à cultura.
Nesse meio século, a Mostra foi amadurecendo, e nós com ela. Mudou de endereço, estendeu-se a várias salas da cidade, atraindo público de outros estados, gente que tirava (ainda tira?) férias para assistir suas atrações imperdíveis, que não se achava em nenhum outro lugar, bem antes do streaming. Mesmo hoje, com o streaming, ela sobrevive de seu garimpo, de seu olhar atento para a produção mundial, sempre abrindo brechas gratificantes. Todos nós somos filhos dela. Longa vida à Mostra!


Tive a sorte de acompanhar a estréia mundial de
Um dos últimos expoentes do Cinema Novo, Cacá Diegues atravessou trabalhando como diretor e produtor seis décadas de cinema brasileiro: tarefa para os fortes, num cenário marcado por uma ditadura militar, o fechamento da Embrafilme, a reconstrução democrática do País e da indústria cinematográfica e inúmeros embates culturais, ideológicos e mercadológicos.