21/04/2024

Agora, sem Rivette

2016 tá bravo! Primeiro Scola, agora o Jacques Rivette se vai.
 
Era um dos mais elegantes membros da Nouvelle Vague, aquela geração que passou da crítica à direção, calando a boca dos que repetem aquela velhíssima bobagem – que críticos são cineastas frustrados; Quase nunca são. Rivette, Truffaut, Chabrol, Rohmer e Godard, o último deles, não mesmo.
 
Para mim, a característica mais marcante de Rivette era a forma finíssima com que conseguia intercalar as artes na tela. A mais eloquente manifestação desse talento pertenceu a A Bela Intrigante (91), um magnífico e denso diálogo entre a literatura (o enredo se inspira em Balzac), pintura e o cinema, equilibrado ao longo de quatro horas que nunca são maçantes, em torno de um velho pintor (Michel Piccoli), sua mulher (Jane Birkin) e uma nova e sensual musa que posa com toda a sua carnalidade para ele (Emmanuelle Béart).
 
Um dos meus preferidos é Quem Sabe? (2003), em que a trama brinca sobre as relações entre o teatro e um homem e uma mulher (Sergio Castellito e Jeanne Balibar). Seu último filme, inédito aqui comercialmente, 36 Vues du Pic Saint Loup (2009), igualmente adorável, flerta com o cinema e o circo, e escalava novamente Jane Birkin e Sergio Castellito.
 
Saudade. Mas quero crer que os cineastas sublimes são eternos.

Saudade de Ettore Scola

Tive a honra de conhecer Ettore Scola pessoalmente, numa noite, creio que em 2000, quando cobria o Festival de Veneza e, junto com amigos críticos, o descobrimos jantando no mesmo restaurante que nós. Conversamos com ele – era irresistível tentar – e ele, gentilmente, tirou uma foto conosco (essa aí ao lado), que guardo até hoje como um troféu desta minha profissão, tantas vezes ingrata e incerta, mas capaz de proporcionar esses momentos mágicos.
 
Hoje, tanto o L”Artigliere, o ótimo restaurante do Lido e seu terraço coberto de plantas, quanto Scola, são memória. Uma memória, no caso do magnífico diretor, iluminada por filmes que me formaram, nutriram e continuarão a fazê-lo pelos anos futuros.
 
Ficam marcados no meu DNA obras tão variadas, e densas e engraçadas, pulando de um gênero a outro com a liberdade e perícia de um mestre: Nós que nos amávamos tanto (74), Feios, Sujos e Malvados (76), Um dia muito especial (77), O Terraço (81), Casanova e a Revolução (82), O Baile (83), A família (87), A viagem do capitão Tornado (90), O Jantar (98), Concorrência desleal (2001), até o último, Que estranho chamar-se Federico (2013) - em que ele faz uma delicada e divertida homenagem ao amigo Federico Fellini, protagonizando, na coletiva de lançamento do filme, em Veneza, um dos mais altos momentos daquele festival, pela inteligência e qualidade de suas lembranças. (Clique aqui para ler o texto que escrevi na ocasião)
 
Não há muito o que dizer da partida de um dos grandes de uma magnífica geração italiana, a não ser que é preciso ver e rever seus filmes para sempre. Em alguns, dá vontade de morar neles, como num sonho.

Woody Allen aos 80

Woody Allen faz 80 anos. Nem ele mesmo talvez achava que iria tão longe na vida e na carreira cinematográfica, que já emplacou 50 anos - a primeira investida, o roteiro original da comédia Que é que há, gatinha? de 1965. Ele continua firme e forte. E, o que é melhor, com público.
 
A rigor, ele pode não ser um gênio, nem um desbravador de caminhos ou um esteta, mas é um sobrevivente, sem dúvida, inclusive das próprias crises, que continua conseguindo exercer seu meio de expressão despreocupado dos modismos – coisa que não é para qualquer um, especialmente para os desprovidos de criatividade ou imaginação. E também sem se poder acusá-lo de passadista, embora certos temas, é claro, passem longe de seus filmes. Ele simplesmente ignora as redes sociais e outros fenômenos obsessivos da modernidade. Meio que paira sobre eles, falando de outras coisas que permanecem, a natureza humana acima de tudo, explorada sempre pelo filtro da ironia.
 
E quando se pensa que já disse tudo, Woody surpreende com um trabalho de beleza poética como Meia-noite em Paris (2011), ou da densidade psicológica de um Blue Jasmine (2013) ou Homem Irracional (2014), dois títulos em que o diretor exerceu uma faceta mais sombria.
 
Enfim, parece que Woody vai ficar no posto dos diretores velhinhos e criativos, o panteão onde reinaram até pouquíssimo tempo os sublimes Manoel de Oliveira e Alain Resnais. Woody ocupava nesta trinca o lugar do palhaço e parece que vai rir por último, inclusive das previsões que, ano após ano, o dão por acabado.
 
Parabéns Woody!!!

A educação sentimental segundo Truffaut

François Truffaut é como Beatles – um clássico popular. E, no caso de ambos, uma espécie de educação sentimental de várias gerações, cada um na sua arte.
 
Dá para pensar muito em como Truffaut atravessa algumas das melhores emoções da nossa vida emocional ao percorrer as salas da imperdível exposição sobre o diretor francês, ainda em cartaz no MIS paulistano.
 
A exposição é uma revelação do caráter minucioso, obsessivo até, do diretor de Os Incompreendidos, Jules e Jim, A Mulher do Lado, Adéle H e de toda a saga Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), seu alter ego. Estão nas vitrines desde ingressos de cinema de sua adolescência até fotos, cartas, folhas de anotações de ideias e roteiros que vão nos mergulhando numa mente inquieta.  Estão lá depoimentos de seus amigos, como o roteirista Jean Gruault, além do próprio Truffaut em momentos saborosos – como quando foi pegar seu Oscar de filme estrangeiro, por A Noite Americana, situação de uma leveza adorável, num agradecimento brevíssimo mas espirituoso e doce, compartilhável. Tão diferente destes agradecimentos imensos e pomposos de tantos de seus colegas...
 
Os fragmentos de seus filmes, que se pode assistir numa telinha, com direito a fones de ouvido – tornando a experiência individual, quase como um confessionário (falta a cortininha, mas tem a penumbra) reacendem a memória desses filmes fundamentais que ele fez (vários estão sendo reapresentados simultaneamente também no MIS). Enfim, uma experiência audiovisual completa, que faz lembrar e muito a falta que ele nos faz.
 
Estão lá suas principais musas – Jeanne Moreau, Fanny Ardant, Isabelle Adjani, Claude Jade, Catherine Deneuve... -, com suas imagens vivas projetadas nessas pequenas telas, misturando-as todas, como se dentro da exposição vigorasse um tempo próprio, um tempo do qual a gente hesita em sair.
 
Uma das minhas seções preferidas é aquela dedicada a Jules e Jim, um de meus filmes favoritos de todos os tempos, que reserva uma sala àquela cena em que Jeanne Moreau canta Le Tourbillon de la vie e, ao lado, projeta-se, numa série de cortinas transparentes que a gente atravessa, outra cena linda, em que Jeanne e seus dois amores correm numa ponte.
 
Outro tesouro está nos trechos de gravações das históricas entrevistas de Hitchcock, a quem Truffaut dedicou um livro fundamental (Hitchcock e Truffaut), inconformado com o pouco caso dedicado pelos críticos ao diretor de Psicose e Um Corpo que Cai. Nessas gravações, é possível ouvir a voz de Hitch, a tradução simultânea impecável de Helen Scott e os comentários de Truffaut. Imagina que bom seria ter tempo e condições de ouvir todas essas conversas aos poucos !
 
Enfim, quem não viu ainda, corra, porque a exposição só fica em cartaz no MIS até dia 18 de outubro. Não dá para perder.

Quando protesto pode virar intolerância

 Como se esperava, Cláudio Assis foi fragorosamente vaiado ao vir apresentar seu novo filme, “Big Jato”, no Festival de Brasília. Vaiado a ponto de não conseguir falar. Está certo isso?
 
Minha impressão é de que o lamentável episódio em que Cláudio e Lírio Ferreira, dois diretores queridos e respeitados por seu trabalho, impediram o andamento de um debate de sua colega e amiga, Anna Muylaert, sobre seu filme “Que horas ela volta” – que já rendeu muito nas redes sociais – se esgotou.
 
Os dois se desculparam publicamente. Foram punidos pela Fundação Joaquim Nabuco, onde se desenrolou o fatídico debate. O que se deve querer mais? Autoflagelação em público? Banimento? Ora, vamos com calma. Está na hora de seguir adiante, falar de outra coisa. Se for o caso, protestar novamente, mas só se algum deles, ou outra pessoa qualquer, for reincidente numa atitude imprópria. O machismo, como se sabe, está entranhado na cultura mundial e tão cedo não vai acabar. Vamos guardar nossas armas para lutas melhores.
 
O “tribunal da internet”, como já disse alguém, por vezes é implacável demais. Julga, executa, sataniza, não dá chance a defesas e nunca absolve. Isto também é intolerância.

Em Cannes, glamour só no salto

Em pleno século 21, custa a crer que algumas situações constrangedoras ainda aconteçam em Cannes – como barrar mulheres que compareçam às sessões de gala de sapatilhas sem salto, ainda que de strass ou materiais semelhantes. Mesmo que se trate de senhoras de mais idade, elas são obrigadas a subir no salto, senão, não entram.
 
O mico aconteceu até com uma produtora, Valeria Richter, que havia tido parte do pé amputado, e da mulher de um dos diretores que apresentaram filme aqui, o indiano Asif Kapadia (autor do documentário Senna, de 2010, que agora radiografou a cantora Amy Winehouse em Amy). Sua esposa, afinal, entrou, mas foi exceção.
 
O diretor fo festival, Thierry Frémaux, também teve que pagar mico, pedindo desculpas em público, atribuindo os incidentes a um "excesso de zelo" dos seguranças. Mas, que o protocolo existe, lá isso existe. Dá para acreditar que ele possa permanecer imune a todas as mudanças dos últimos 70 anos ? Os rapazes, é bom que se diga, também não podem esquivar-se ao inevitável smoking, ainda que à luz do dia – se a sessão for a oficial, de gala, a do tapete vermelho. Não à toa, pode-se adquirir no comércio local, por escassos 10 ou 15 euros, uma gravatinha borboleta bem mixuruca, para os convidados enganarem os porteiros. Bem-feito!
 
Mas está na hora de parar com isso. Está bem que ninguém espera que alguém de bermuda e camiseta vá assim a estas sessões. Mas um blazer, um vestido alinhado e sapatilhas, sim, por que não? O maior glamour, afinal, deve estar na tela. Não fora dela.

Woody Allen, mais relax aos quase 80 anos

 Cannes - Mais uma vez, Woody Allen voltou a Cannes. E, considerando a primeira vez que o entrevistei por aqui, há exatos 13 anos (quando ele trouxe Dirigindo no Escuro), melhorou sua adequação de figurino ao clima. Naquela altura, o entrevistei no terraço de um dos grandes hotéis daqui, o Carlton, sob um céu muito azul de primavera, vestindo um paletó de tweed pesadão, totalmente impróprio para o clima.
 
Hoje, outro dia com clima igual por aqui – embora com considerável ventinho -, ele apareceu na coletiva de imprensa de seu novo filme, O Homem Irracional, vestindo uma informal e leve camisa xadrez azul escura. Parece que pouco antes de completar 80 anos (em dezembro), ele está ficando mais relaxado, até no figurino.
 
Ele enfrentou a coletiva, por exemplo, mais à vontade que da última vez (ele é um habituê, vem quase todo ano). Pareceu conectado e riu de perguntas irreverentes, como se já tinha pensado em matar alguma de suas mulheres (tema que tem a ver com o filme atual). Ele riu e respondeu: “Acabei de pensar agora!”. Não perdeu a piada, como nos bons velhos tempos de stand up comedy.
 
O que não falta, infelizmente, por parte de alguns jornalistas brasileiros, é a clássica perguntinha: “Quando o sr. vai filmar no Brasil? Por que não filma no Rio de Janeiro?”. E, com infinita paciência, Woody respondeu que “não saberia por onde começar” para filmar algo no Brasil, onde ele nunca esteve. Ele fica à vontade de filmar em Nova York ou Paris, que ele conhece bem. Cinema, para ele, é uma sonata, não uma sinfonia. Ele faz o jogo do tamanho que sabe e pode e ainda se diverte. Enquanto ainda divertir os outros também, está tudo certo, os dois lados saem ganhando.

Meus filmes favoritos em 2014

2014 no finzinho, hora de balanço.
 
Um pouco menos de estreias nas telas (379 contra 398), mas ainda assim um universo enorme para atravessar.
 
Foi um ano bom, apesar de tudo. Meus favoritos estão aqui embaixo (e feliz 2015 a todos!):
 
Estrangeiros

Brasileiros

Três filmes para colocar a imprensa em foco

Três bons filmes para repensar o jornalismo estão chegando por aí.
 
Dois deles ainda vão estrear nos cinemas. Vamos falar primeiro do que fala de um fenômeno muito atual – embora não tenha sido inventado agora -, o jornalismo encharcado de sangue e sensacionalismo, esse o oportuno tema de O Abutre, de Dan Gilroy, estrelado pelo ator Jake Gyllenhaal.
 
O filme, na verdade, aborda várias coisas, mas a principal mesmo é como o jovem desempregado Louis Bloom, que vivia de roubo de materiais de construção, acha o filão da reportagem policial. Descobrindo que pode ser um free lancer e, com uma pequena câmera e o acesso à frequência da rádio da polícia, ganhar dinheiro revendendo seus filmes para uma emissora de TV, ele descobre sua “vocação” – devidamente estimulada, é claro, pela insaciável fome de sangue, de acidentes de trânsito a crimes hediondos, de que se nutre uma parte da programação da televisão.
 
A ideia é mesmo essa: que tipo de “jornalismo” ocupa vários programas longuíssimos, nas tardes em que mesmo crianças podem vê-los? E com um viés de “quanto pior melhor”? Que ética existe nisto? Assunto quente e que ganha neste bom filme uma interpretação empenhadíssima do ator Gyllenhaal, um de seus produtores. Estreia nacional prevista para 18 de dezembro.
 
Voltando os olhos para um passado não muito distante, O Mensageiro, de Michael Cuesta, traça o perfil de um personagem real, Gary Webb (Jeremy Renner), repórter de um jornal obscuro da California, o San Jose Mercury News, cujo esforço simplesmente revelou em primeira mão o escândalo do envolvimento da CIA com o tráfico de armas e drogas dos “contras”, fazendo vista grossa inclusive ao despejo de crack nos EUA, para obter dinheiro e financiar a oposição ao governo sandinista da Nicarágua.
 
Peixe pequeno, o repórter, pai de família endividado, com três filhos, sofreu um assassinato de reputação, com a decisiva ajuda de parte dos colegas dos jornalões – Washington Post, New York Times, Los Angeles Times e outros – que levaram o maior furo com a matéria dele. Os próprios chefes de Webb não seguraram a pressão do governo Ronald Reagan e da CIA. Por tudo isso, a história de Webb, que morreu de um jeito nada bem explicado, aos 49 anos, é exemplar. Ele sim foi um herói da liberdade de expressão e não se fala mais nisso. Estreia prevista do filme: 11 de dezembro.
 
Já passou em diversos estados do país, mas longe de esgotar seu público e, mais ainda, seu assunto, o documentário brasileiro O Mercado de Notícias, de Jorge Furtado, está chegando ao DVD. Ótima oportunidade para ver e rever uma das mais criativas e vigorosas reflexões, a que não faltam nem substância, nem ironia, sobre a própria natureza da imprensa – a partir da peça inglesa que dá nome ao filme, de 1625, de Ben Jonson – e um mergulho no estado de coisas no Brasil, em tempos em que ela atua, cada vez mais, como um partido político, com a desvantagem de que não é submetida ao filtro das eleições.
 
Ótima pedida – o DVD de O Mercado de Notícias pode ser adquirido pelo site da Casa de Cinema de Porto Alegre: http://casacinepoa.com.br/loja/mdn