A vitória da persistência no Cine Ceará
Talvez o maior feito a comemorar no Cine Ceará seja o fato de o festival, resistindo a todas as intempéries que sacodem a cultura brasileira, continuar sendo um festival ibero-americano. A convivência, na tela e nas salas de debates, de brasileiros de várias regiões do país e estrangeiros – este ano, houve até um ator japonês (Masataka Ishikazi) – é a mais perfeita tradução do espírito de troca e empatia de que a arte é capaz.
Dos longas brasileiros da competição, mediram-se os estilos distintos do cearense A Filha do Palhaço, de Pedro Diógenes, uma crônica intimista, cheia de afeto e tolerância, sobre o resgate dos laços entre um pai (o extraordinário Démick Lopes, merecidamente premiado como melhor ator) e uma filha adolescente (a estreante Lis Sutter), e o gaúcho O Acidente, de Bruno Carboni, este um mergulho mais distanciado mas, mesmo assim, contundente, nos interesses polarizados pelo atropelamento de uma ciclista (Carol Martins).
De quebra, entraram por A Filha do Palhaço paisagens de uma Fortaleza que o resto do país talvez não conheça, mas que foi reconhecida com simpatia pelo público que assistiu ao filme no Cine-Teatro São Luiz – a belíssima sala de 1958 que, apoiada pelo setor público, continua aberta e proporcionando arte na capital cearense, um exemplo que as administrações paulistanas não seguiram, infelizmente, em relação a quase todos os antigos cinemas do centro de São Paulo, fechados, abandonados e sob risco de caírem nas mãos da especulação imobiliária.
Houve diálogo entre o vibrante e sensível documentário argentino Inseparáveis/Las Cercanas, de María Álvarez, merecidamente o grande vencedor do festival com seu retrato de duas irmãs de 91 anos, o cubano Vicenta, de Carlos Lechuga – que trouxe o desempenho impecável da atriz Linnett Hernández, prêmio de melhor atriz – e o venezuelano Meninos de Las Brisas/Niños de Las Brisas, de Marianela Maldonado, outro documentário, este sobre os sonhos desfeitos de jovens estudantes de música. Se todos trataram, cada um a seu modo, de histórias quebradas por um contexto social instável, também trouxeram as nuances que tornaram sua compreensão menos maniqueísta do que a cobertura midiática sobre estes países.
Um empenho estético singular predominou na confecção dos outros três concorrentes internacionais, o equatoriano O Invisível/Lo Invisible, de Javier Andrade, o surreal Green Grass, de Ignacio Ortiz, uma inusitada e bem-vinda parceria entre o Chile e o Japão, e o provocativo espanhol A Piedade/La Piedad, de Eduardo Casanova – o filme mais polêmico e divisivo de todo o festival.
Se a seleção dos curtas este ano não foi memorável, nem mesmo assim deixou de abrigar títulos de qualidade, como Big Bang, de Carlos Segundo, Infantaria, de Laís Araújo Santos, Alexandrina – Um Relâmpago, de Keila Sankofa, Filhos da Noite, de Henrique Arruda, e Contragolpe, de Victor Uchôa.

Aos 58 anos, Kelly Reichardt é uma das grandes diretoras mundiais. Quem não souber ainda disso que atente para títulos como
Lina Wertmuller partiu nesta quinta-feira (9/12), aos 93 anos e deixou como legado muito mais do que a façanha de ter sido a primeira mulher indicada ao Oscar de direção, em 1975, pelo magistral Pasqualino Sete Belezas, um mergulho doce-amargo nos meandros do fascismo italiano. Ela não ganharia nem esse Oscar, nem o de roteiro original, para o qual foi também indicada, mas isso não a impediu de tornar-se uma grande cineasta, com assinatura e personalidade, que foi assistente de Fellini em sua obra-prima, 8 e1/2 mas saiu-lhe da sombra e percorreu seu próprio caminho.