17/06/2026

A vitória da persistência no Cine Ceará

Talvez o maior feito a comemorar no Cine Ceará seja o fato de o festival, resistindo a todas as intempéries que sacodem a cultura brasileira, continuar sendo um festival ibero-americano. A convivência, na tela e nas salas de debates, de brasileiros de várias regiões do país e estrangeiros – este ano, houve até um ator japonês (Masataka Ishikazi) – é a mais perfeita tradução do espírito de troca e empatia de que a arte é capaz.
 
Dos longas brasileiros da competição, mediram-se os estilos distintos do cearense A Filha do Palhaço, de Pedro Diógenes, uma crônica intimista, cheia de afeto e tolerância, sobre o resgate dos laços entre um pai (o extraordinário Démick Lopes, merecidamente premiado como melhor ator) e uma filha adolescente (a estreante Lis Sutter), e o gaúcho O Acidente, de Bruno Carboni, este um mergulho mais distanciado mas, mesmo assim, contundente, nos interesses polarizados pelo atropelamento de uma ciclista (Carol Martins).
 
De quebra, entraram por A Filha do Palhaço paisagens de uma Fortaleza que o resto do país talvez não conheça, mas que foi reconhecida com simpatia pelo público que assistiu ao filme no Cine-Teatro São Luiz – a belíssima sala de 1958 que, apoiada pelo setor público, continua aberta e proporcionando arte na capital cearense, um exemplo que as administrações paulistanas não seguiram, infelizmente, em relação a quase todos os antigos cinemas do centro de São Paulo, fechados, abandonados e sob risco de caírem nas mãos da especulação imobiliária.
 
Houve diálogo entre o vibrante e sensível documentário argentino Inseparáveis/Las Cercanas, de María Álvarez, merecidamente o grande vencedor do festival  com seu retrato de duas irmãs de 91 anos, o cubano Vicenta, de Carlos Lechuga – que trouxe o desempenho impecável da atriz Linnett Hernández, prêmio de melhor atriz – e o venezuelano Meninos de Las Brisas/Niños de Las Brisas, de Marianela Maldonado, outro documentário, este sobre os sonhos desfeitos de jovens estudantes de música. Se todos trataram, cada um a seu modo, de histórias quebradas por um contexto social instável, também trouxeram as nuances que tornaram sua compreensão menos maniqueísta do que a cobertura midiática sobre estes países.
 
Um empenho estético singular predominou na confecção dos outros três concorrentes internacionais, o equatoriano O Invisível/Lo Invisible, de Javier Andrade, o surreal Green Grass, de Ignacio Ortiz, uma inusitada e bem-vinda parceria entre o Chile e o Japão, e o provocativo espanhol A Piedade/La Piedad, de Eduardo Casanova – o filme mais polêmico e divisivo de todo o festival.
 
Se a seleção dos curtas este ano não foi memorável, nem mesmo assim deixou de abrigar títulos de qualidade, como Big Bang, de Carlos Segundo, Infantaria, de Laís Araújo Santos, Alexandrina – Um Relâmpago, de Keila Sankofa, Filhos da Noite, de Henrique Arruda, e Contragolpe, de Victor Uchôa.

Gramado deu conta da diversidade

Com um longa do Acre, Noites Alienígenas, de Sérgio de Carvalho, consagrado como grande vencedor de sua 50ª. edição, o Festival de Gramado olhou mais longe. Na seleção de curtas, uma animação do Amapá, Solitude, de Tami Martins, se não ganhou prêmios, também não perdeu a viagem, ao mostrar, tão longe de seu estado, a maravilhosa diversidade brasileira, que o festival gaúcho acolheu.
 
Não foi menos expressivo que o mineiro Marte Um, de Gabriel Martins, colhesse outros prêmios, entre eles, um Especial do Júri que o distinguiu por “trazer de volta o afeto” e isso num filme de diretor negro, que retrata com tanta ternura uma família negra e trabalhadora de Contagem.
 
A seleção de Gramado em 2022 olhou para a periferia. E isto esteve presente também no paulista A Mãe, de Cristiano Burlan, em que Marcélia Cartaxo desfia o calvário de tantas mães pobres, dos confins das cidades, em busca dos corpos de seus filhos adolescentes, abatidos no insistente massacre policial contra pobres, pretos, periféricos.
 
Entre os curtas, o premiado Fantasma Neon, de Leonardo Martinelli (RJ), injetou coreografias com passinho funk para retratar o universo opressor dos entregadores de aplicativos, esses boias-frias urbanos da modernidade que tantas vezes vemos passar sem enxergar de verdade.
 
Por essas e outras, Gramado teve mesmo uma edição histórica, em que a curadoria olhou para tantos lados de um Brasil tão plural quanto diferente das antissépticas ruas daquela cidade, quase um cenário a céu aberto de tão limpas e decoradas, mas em que o cinema brasileiro tem sido acolhido - com eventuais conflitos na atual polarização - e resistido neste meio século, a tantas amarguras, incertezas e negacionismos. O Brasil é tudo isso e a arte deu conta de mostrar sua força.

Será o ano de Kelly Reichardt?

Aos 58 anos, Kelly Reichardt é uma das grandes diretoras mundiais. Quem não souber ainda disso que atente para títulos como First Cow – A Primeira Vaca da América, O Atalho e sutilezas como Antiga Alegria. Em todos esses filmes, de tons bastante diferentes, Kelly imprime uma marca, sendo capaz de penetrar na existência tanto de personagens masculinos como femininos com a mesma perspicácia e sentimento.
 
Em 2022, todo mundo parece finalmente estar prestando atenção nela. O Festival de Cannes a terá como uma das três diretoras concorrentes à Palma de Ouro, com o filme Showing Up, a quarta colaboração da atriz Michelle Williams com a cineasta, vivendo uma escultora às vésperas de uma nova exposição e uma série de crises coincidentes. Ao mesmo tempo, Kelly será homenageada na abertura da Quinzena dos Realizadores, que exibirá uma sessão especial de O Atalho, no dia 18 de maio próximo. Na ocasião, a diretora receberá o prêmio Carrosse d’Or pelo conjunto da carreira, seguindo-se uma conversa com ela.
 
Antes disso, o Festival de Locarno, que acontece de 3 a 13 de agosto, já havia anunciado uma outra homenagem à diretora, que lá receberá outro prêmio pela carreira, o Pardo d’Onore, além de ter lá exibidos dois títulos:  o mesmo O Atalho e também Movimentos Noturnos. Coincidência planetária ou não, parece ter chegado finalmente a vez de esta diretora magnífica receber o devido reconhecimento. Já não era sem tempo.

Saudades de Lina

Lina Wertmuller partiu nesta quinta-feira (9/12), aos 93 anos e deixou como legado muito mais do que a façanha de ter sido a primeira mulher indicada ao Oscar de direção, em 1975, pelo magistral Pasqualino Sete Belezas, um mergulho doce-amargo nos meandros do fascismo italiano. Ela não ganharia nem esse Oscar, nem o de roteiro original, para o qual foi também indicada, mas isso não a impediu de tornar-se uma grande cineasta, com assinatura e personalidade, que foi assistente de Fellini em sua obra-prima, 8 e1/2 mas saiu-lhe da sombra e percorreu seu próprio caminho.
 
Percorrer seus filmes, desde o primeiro e ainda pouco conhecido I Basilischi (1963), que lhe valeu um prêmio de direção em Locarno, é frequentar um universo com carne, sangue, humor e inteligência. Amor e Anarquia, Por Um Destino Insólito, Dois Perdidos numa Noite de Chuva, todos esses títulos formam parte da melhor herança ficcional da inquieta diretora.
 
As mulheres, como ela bem sabia, mas nunca lamentava, costumam ser invisibilizadas nesta arte, como em outras. Ela preferia continuar trabalhando, produzindo 33 longas em 60 anos de carreira. Seu último trabalho, em 2014, foi um curta documental (Roma, Napoli, Venezia…. in un crescendo rossiniano). Agora, ela ocupa seu merecido lugar no céu de estrelas onde a receberá de braços abertos outro anjo do cinema, Agnès Varda.

Os melhores de 2020, um ano em que vivemos em perigo

Então, chegamos ao último dia deste feroz 2020. A boa notícia é que sobrevivemos, nós que ainda estamos aqui. Bem a tempo de nos lembrarmos dos mais de 190.000 mortos pela covid-19 aqui no Brasil que não mais estão – um minuto de silêncio pra eles. E pra todos os que nos deixaram em 2020, como o Pantera Negra Chadwick Boseman. Wakanda Forever!
 
Mas o que todo mundo espera agora é o balanço deste ano tão atípico, em que as telas de cinema fecharam e os festivais se recolheram às plataformas online – que foram o refúgio das nossas retinas ávidas neste ano cruel e desafiador. Apesar de tudo, houve muitos filmes para ver nos festivais online – que, com o recurso, aumentaram seu alcance e seu público – e no streaming. Não foi tão bom ver tanta coisa nas telinhas da televisão ou do computador, mas o importante é que a arte audiovisual permaneça viva e forte.
 
Então, tem aquilo que todo mundo gosta, lista dos melhores do ano – eu, nem tanto, fico sempre aflita com essas listas, sempre acho que estou deixando algo importante de fora. Mas vamos a elas. Aquilo que mais me apaixonou neste ano em que vivemos em perigo e à flor da pele:
 
Brasileiros
Num ano em que o governo federal fez de tudo para prejudicar os artistas e castigou severamente o cinema nacional paralisando todas as políticas públicas que o mantiveram funcionando, sendo ativo, vigoroso e premiado mundo afora nas últimas décadas – sem contar o criminoso descaso com a Cinemateca Brasileira -, por incrível que pareça, os títulos nacionais foram muitos e muito bons. Aqueles que mais tocaram meu coração e minha cabeça estão aqui (15, como sempre, mais três menções, eu nunca consigo fechar só 10), e que felicidade que oito deles são dirigidos ou co-dirigidos por mulheres:
 
Pacarrete, de Allan Deberton
Sertânia, de Geraldo Sarno
Dentro da minha pele, de Toni Venturi e Val Gomes
Todos os mortos, de Marco Dutra e Caetano Gotardo
Fim de festa, de Hilton Lacerda
Niède, de Tiago Tambelli
O barco, de Petrus Cariry
A febre, de Maya Da-rin
Mulher oceano, de Djin Sganzerla
Três verões, de Sandra Kogut
Maria Luiza, de Marcelo Díaz
Meio-irmão, de Eliane Coster
Alice Junior, de Gil Baroni
 
Menções honrosas: Indianara, de Marcelo Barbosa e Aude Chevalier-Beaumel, Vaga Carne, de Grace Passô e Zona Árida, de Fernanda Pessoa
 
 
Estrangeiros
Aí, selecionei 15, seis dirigidos ou co-dirigidos por mulheres, inclusive uma promissora estreia vinda da Costa Rica (O despertar das formigas), país de produção pequena e que a gente não costuma ver nas telas:
 
Você não estava aqui, de Ken Loach
Amazing Grace, de Alan Elliott e Sidney Pollack
Honeyland, de Ljubo Stefanov e Tamara Kotevska
Corpus Christi, de Jan Komasa
Alice Guy-Blaché, de Pamela Green
O despertar das formigas, de Antonella Sudassassi Furniss
O pai, de Petar Valcharov e Kristina Grozeva
A portuguesa, de Rita Azevedo Gomes
Uma vida oculta, de Terrence Malick
Retrato de uma jovem em chamas, de Céline Sciamma
A voz suprema do blues, de George C. Wolfe
Doce entardecer na Toscana, de Jacek Borcuch
Swallow, de Carlo Mirabella-Davis
Crip Camp, de Nicole Newton e James Lebrecht

Retrospectiva homenageia Fellini em seu centenário

Começa nesta quarta-feira (26/2) e vai até 23/3, no CCBB de São Paulo, a retrospectiva completa dos filmes de Federico Fellini, comemorativa ao centenário de seu nascimento.
 
Entre 12 e 18 de março, a retrospectiva será apresentada também no Cinesesc.
 
Não perca a oportunidade de ver ou rever alguns dos maiores clássicos do diretor, como A Doce Vida e Amarcord, entre tantos outros.
 
E falando nas estreias da semana, o destaque vai para Você não estava aqui, do diretor inglês Ken Loach, e Uma vida oculta, do norte-americano Terrence Malick, dois filmes que concorreram à Palma de Ouro em Cannes em 2019.

"Parasita" e "O irlandês" se destacam na produção internacional

Meu balanço dos melhores filmes internacionais que chegaram às telas e às plataformas digitais no ano de 2019. Parasita e O irlandês se destacam na lista.

Os melhores filmes nacionais no balanço do ano

Neste vídeo faço um balanço dos melhores lançamentos brasileiros no ano de 2019, em que mais de 150 títulos chegaram aos cinemas e às plataformas digitais, com grande repercussão nos principais festivais internacionais, como Cannes e Berlim.
 
Bacurau é um dos destaques nacionais de 2019 que alcançou grande repercussão aqui e no exterior.

Vi o capítulo final da saga "Star Wars" e gostei.

O filme Star Wars - A ascensão Skywalker encerra as aventuras criadas por George Lucas em 1977 passando o bastão dos velhos heróis, a Princesa Leia e Luke Skywalker, aos novos, o trio Rey, Finn e Poe, na eterna luta da Resistência contra a opressão da Primeira Ordem, não sem algumas surpresas.
 
Outra boa estreia da semana é O paraíso deve ser aqui, do diretor palestino Elia Suleiman, que retoma seu habitual personagem quase mudo e observador, deixando para trás a Palestina para ir a Paris e Nova York, onde seu olhar atento capta situações paradoxais, engraçadas e polêmicas.